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As inquietações da vida moderna deram lugar às ansiedades dos corações modernos

Com uma mão-cheia de álbuns na bagagem, os Parquet Courts são hoje uma das bandas mais interessantes de punk rock. Este ano lançaram “Human Performance”, que vem com uma das inquietações mais intemporais de sempre: “É uma coisa com a qual nós estamos coletivamente obcecados, o amor. É o denominador comum da música pop”.

Quem os viu no Primavera Sound deste ano, no Porto, sabe do que estamos a falar: quatro tipos insuspeitos que entram em palco com o mesmo ar inocente e curioso e que assim que se agarram às guitarras e à bateria e ao baixo deixam-nos de pés pregados no chão e o corpo em movimentos bizarros como se quisesse sumir sabe Deus para onde. São os riffs acelerados e frenéticos, as secções rítmicas inventivas e interessantes, tudo isso servindo de combustível para as pequenas explosões punk que se vão sucedendo e que tanto têm de selvagem como de domesticável. No fim, não haverá pontas por atar ou arestas por limar. Mas quem não os viu nesse ou noutros concertos também não ficará menos bem servido se se limitar a ouvir o novo disco do quarteto norte-americano, “Human Performance”, lançado este ano.

Perguntámos a Gonçalo Formiga, dos Cave Story, que os conhece bem e os reconhece como grande inspiração, o que mais gosta neles e a resposta chega assim: “Eles são uma banda de Nova Iorque e acolhem essa condição de forma exemplar. São eles próprios que o admitem quando dizem que ‘se existe uma tradição de bandas de Nova Iorque, gostamos de pensar que somos uma continuação disso’. Acho isso interessante”, diz o vocalista e guitarrista da banda das Caldas da Rainha.

Andrew Savage, Austin Brown, Sean Yeaton e Max Savage juntaram-se em 2010 e levam já uma mão-cheia de discos na bagagem. Lançaram o primeiro álbum em 2011, “American Specialties”, e um ano depois, com “Light Up Gold”, aquele primeiro burburinho que se havia gerado deu lugar a vozes sérias e robustas. Em 2014, já com todos os olhos postos neles, lançaram “Sunbathing Animal” e confirmaram-se como uma das bandas punk rock mais interessantes da atualidade. No mesmo ano, lançaram “Content Nausea” (apenas Andrew e Austin, ambos guitarristas e compositores, gravaram o álbum, enquanto Parkay Quarts) e em 2015 o quarteto voltou a juntar-se para gravar o EP “Monastic Living”.

“Human Performance”, lançado este ano, representa ao mesmo tempo um salto e uma continuação e aperfeiçoamento (e eles estão cada vez melhores) face aos álbuns anteriores. “Se até este disco os Parquet Courts eram uma banda que parecia estar no limite de qualquer coisa, agora tudo é mais claro”, diz Gonçalo Formiga, comparando o álbum anterior, “Monastic Living” – que descreve como um “manifesto sobre o isolamento e a solidão, um álbum instrumental de uma banda que até aí tinha posto as letras das músicas em primeiro plano – com este “Human Performance”, que representa, na sua opinião, “o culminar das suas habilidades na escrita de canções”. “As inquietações da vida moderna, que eram centrais nos discos anteriores, deram lugar às ansiedades dos corações modernos.” Se musicalmente “existe experimentação criativa, com imensa reverberação e eco para uma banda que sempre se declarou anti-reverb”, nas letras “há muito mais experimentação pessoal, sente-se o peso das perguntas”, aponta o músico português, dando como exemplo os versos da distinta “Berlin Got Blurry”: “Telling pretty stories, is it your sole purpose? Telling everybody that you’ve learned your lesson”.

Numa entrevista recente à revista “Spin”, Austin Brown fala sobre estas mudanças e diferenças entre álbuns: “Antes, eu tinha tendência para escrever letras muito obscuras, como se erigisse ali uma barreira para que ninguém percebesse o que eu estava a querer dizer. Mas desta vez não, não quis usar esse ‘truque’. Procurei sempre dizer as coisas da forma mais clara e menos obscura possível”. O tema “Steady on My Mind”, que aparece ali mais ou menos a meio do álbum, acaba por ser o melhor exemplo disso. “Quando eu escrevi a letra dessa canção já sabia que ia ser uma canção de amor. Para mim, negar isso seria negar a sua própria existência.”

Where could I start?”
Those are the words I write
A late sentiment a bit misplaced
But that comes as no surprise
At a loss, I’m overwhelmed
Like my memory over time
Just remember that I’ll keep you in
A place that I can find
Steady on my mind

“Antes havia uma barreira”, reforça Austin Brown. “Quando queria escrever canções desse género, optava sempre por um registo menos comprometido, meio blasé e arrogante. É muito mais confortável fazer isso do que simplesmente admitir que as coisas são o que são. Mas tenho orgulho em ter conseguido fazer isto desta vez.”

Wherever you may stay
That’s where I’ll return
I’ve never felt committed to much
But that don’t mean that I can’t learn
To dedicate and reciprocate
What you send my way
And I promise that I’ll say “hello”
As often as “goodbye”
Steady on my mind

“E eu prometo dizer-te tantas vezes ‘olá’ quanto ‘adeus’”. Já Andrew Savage, quando questionado pelo jornalista da “Spin” sobre as outras “estruturas” sobre as quais gosta de escrever, além das “estruturas que nos aprisionam e face às quais nós somos mais ou menos impotentes”, respondeu o “amor” e explicou: “Estar apaixonado por alguém, as emoções humanas… Tentámos ao máximo não estar preocupados ou obcecados com estes sentimentos, mas eles na verdade controlam-nos. Todos nós temos uma predisposição para amar – às vezes isso é bom e outras vezes é mau. É uma coisa com a qual nós estamos coletivamente obcecados, o amor. É o denominador comum da música pop”.

Mas nem só de amor se faz este álbum. O leque de temas é tão abrangente quanto é abrangente em sentimentos e experiências qualquer performance humana, afetando e deixando-se afetar por lugares – e o deles, norte-americanos nascidos no Texas, é a cidade de Nova Iorque, Brooklyn, a cidade de “Dust”, do ruído e do pó que entra pela janela e pelo chão e pelo telhado e pela porta e por todo o lado, “está em todo o lado” – e pelo tempo – e o deles, apesar de influenciados por bandas como os Velvet Underground e Feelies e de serem muitas vezes comparados com os Pavement, é claramente o tempo de agora, agora.

Artigo publicado no jornal Expresso a 21 de dezembro de 2016.

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Ela transformou a tristeza em ironia e a melancolia em consolação

Em “My Woman”, lançado em setembro deste ano, Angel Olsen transformou a tristeza em ironia e a melancolia em consolação. Desta vez ela quis fazer uma coisa diferente. Desta vez podemos sorrir. Nesta semana de Natal e depois na de ano novo, escrevemos sobre 10 álbuns que fizeram de 2016 um acontecimento melhor – não é definitivamente um ranking, é certamente um roteiro.

No Livro do Eclesiastes, versículo 9 do capítulo 1, o rei Salomão, a quem é geralmente atribuída a autoria desse livro, diz: “O que foi voltará a ser, o que foi feito se fará outra vez; não há nada de novo debaixo do sol”. A frase remete para uma certa ideia de monotonia, não a que advém da ausência de distrações ou entretenimento, mas a que está associada a uma certa repetição das coisas. No caso de Angel Olsen, é difícil saber no que estava ela a pensar quando decidiu apropriar-se de parte desse versículo para escrever a letra de “Heart Shaped Face”. A única coisa que ela nos diz, nessa mesma canção – uma das dez que compõem “My Woman”, o seu mais recente álbum, lançado em setembro deste ano – é que não há nada de novo debaixo do sol “porque a dor no coração acaba e começa outra vez”.

Não se julgue, porém, que este seu quarto álbum tenha vindo ao mundo como testemunha do seu desespero. Para isso, bastaram os discos anteriores: “Strange Cacti”, “Half Way Home” e “Burn Your Fire for No Witness”. Não. Desta vez, Angel Olsen quis fazer uma coisa diferente. “Eu estou sempre muito séria e triste, mas na altura pensei – ‘E que tal se desta vez nos divertíssemos juntos um pouco?’”. A pergunta prenunciava já uma grande mudança, sobretudo para quem um dia escreveu que “tudo é trágico e tudo se desmorona”.

De peruca prateada, calças justas, casaco verde musgo e ténis All Star brancos, Angel Olsen aparece no videoclip de “Shut Up Kiss Me” ora sentada num carro ora de pé no banco de trás, com a cabeça e metade do corpo a espreitarem pelo teto de abrir. Ora sentada num bar, num banco num jardim, no tejadilho de um carro, ora debruçada num balcão e a patinar numa pista em que não há mais ninguém. No final do vídeo, Olsen ainda tem o descaramento de perguntar, dirigindo-se provavelmente para o realizador: “Então? Achas que ainda é preciso mais atitude?”.

Angel Olsen tem 29 anos e cresceu em St. Louis, no estado do Missouri. É a mais nova de uma família conservadora e religiosa de oito filhos, que a adotou quando tinha três anos. O pai era militar e a mãe trabalhava numa instituição de acolhimento de menores. Numa entrevista à Pitchfork, Olsen conta que, em criança, era muito próximo da mãe, mas com a adolescência e a entrada na vida adulta a relação entre as duas esfriou, por terem opiniões diferentes em relação a quase tudo na vida, nomeadamente no que diz respeito a assuntos políticos. A situação entristece-a. “Não quero ela desapareça e que a nossa última conversa tenha sido sobre o facto de Trump ser ou não sexista”, diz na mesma entrevista (Olsen era pró-Bernie, mas nas eleições votou em Hillary Clinton). Trocar St. Louis por Chicago aos 20 anos foi muito importante para a cantora, que sempre teve a ambição de sair da sua “concha”: “Se eu não tivesse deixado St. Louis nessa altura, hoje provavelmente ainda estaria lá, a trabalhar numa mercearia e a fumar cigarros e pouco mais. Assustava-me toda aquela depressão. Ainda hoje me assusta”. Pouco tempo depois, Bonnie “Prince” Billy (Will Oldham) convidava-a para tocar na sua banda. Foi assim que tudo começou. Angel Olsen vive atualmente em Asheville, na Carolina do Norte.

Além de revelar uma mudança de atitude, “My Woman” é um álbum mais despreocupado e descomprometido, mais pop, se quisermos, acidentalmente pop. “Não importa quem tu és ou o aquilo que fazes, vai sempre haver alguém no mundo que diz mal de ti. Não quero saber o que os jornais dizem… Só quero estar viva e fazer alguma coisa real”, canta Olsen em “Intern”, canção que lhe tem valido algumas comparações com Lana del Rey pela forma como canta e coloca a voz, pulsante e grave. Mas “My Woman” está longe, no entanto, de ser um álbum alegre. Tem até um lado – “lado B”, conforme ela própria o designou – que é para ser ouvido “quando tudo à nossa volta começa a abrandar e queremos refletir”, em oposição ao “lado A”, mais “acelerado e frenético”, próprio para quem está a ter “um dia animado”.

Nesse lado B estão incluídas canções como “Sister”, “Those Were the Days”, “Woman”, “Pops” e, claro, “Heart Shaped Face”. Canções que falam sobre temas como o amor, a perda e a frustração. Sobre o amor que sentem aqueles “que querem ver-se a todo o instante”, nos dias “em que já não há nada a perder nem a descobrir”, porque o mais importante já foi descoberto. Sobre a perda que é ter amado e ao mesmo tempo aprendido a “virar a cabeça e a ir embora”. E sobre a frustração de se saber que não há nada de novo debaixo do sol, porque a dor no coração acaba e começa outra vez e isso não vai mudar nunca.

Artigo publicado no jornal Expresso a 20 de dezembro de 2016.