Francisco Aguiar D.R.

“O amor que não se esquece a pensar que amanhã se há de esquecer”

“Luís Severo”, o novo disco homónimo do músico português de 24 anos, depois do magnífico “Cara d’Anjo”, é sobre o amor e a cidade. Esta quinta-feira, Luís Severo subiu ao palco do Teatro Ibérico, em Lisboa, pela segunda vez esta semana, depois de os bilhetes para a primeira data, na quarta-feira, terem esgotado.

 

Luís Severo é um dos nomes da música portuguesa mais falados por estes dias. O músico de 24 anos acaba de lançar um disco homónimo pela Cuca Monga, editora e promotora dos Capitão Fausto, dois anos depois de “Cara d’Anjo”, em que deixou de ser O Cão da Morte para se apresentar em nome próprio. “Luís Severo” é, segundo a descrição oficial, um disco sobre “o amor, a solidão, a cidade e a sua falta de espaços”. Sobre o amor-paz, o amor-companhia e o “amor que não se esquece a pensar que amanhã se há-de esquecer”. Sobre o futuro e o medo do futuro do amor que acabou. E sobre uma cidade, Lisboa, gentrificada, massificada, descaracterizada, encerrada.

Em entrevista ao Expresso, sentado à mesa de uma padaria em Arroios, Luís Severo compara o novo disco com o anterior e explica como o facto de ter optado por um método diferente de escrever canções, “mais livre”, em que “a letra aparece como acessório à música e não o contrário”, e de ter gravado o disco noutro estúdio e com outras pessoas, com “ouvidos frescos e ideias diferentes”, veio mudar tudo. Fala, além disso, sobre a “pressão” do segundo álbum, que chega com questões como: “Mas o que é que ele vai fazer agora?” A essas questões dessas pessoas responderíamos agora: Foi isto que ele fez… e não podia ter-se saído melhor.

Esta quinta-feira, Luís Severo sobe ao palco do Teatro Ibérico, em Lisboa, pela segunda vez esta semana, depois de os bilhetes para a primeira data, na quarta-feira, terem esgotado, quando faltava ainda mais de uma semana para o concerto.

Amor-paz, amor-companhia, “amor que não se esquece a pensar que amanhã se há-de esquecer”. Quantos amores diferentes cabem neste disco sobre o amor?
As canções “Lamento”, “Boa Companhia” e “Meu Amor” foram escritas em alturas diferentes, por isso têm intenções diferentes e representam momentos diferentes. Não são sequer comparáveis. “Boa companhia” é sobre a evolução do compromisso no espaço e no tempo. “Meu Amor”, que foi a primeira canção 100% romântica que escrevi, sem qualquer pingo de mágoa ou outras coisas mal resolvidas, é sobre o amor-paz, como disseste, e no fundo opõe-se a “Boa Companhia”. Das três, a primeira que escrevi foi “Lamento”, que fala sobre o ciúme e o tempo que perdemos com ele e como isso é inútil e perigoso. “Boa Companhia” talvez seja a que mais se aproxima ao espírito da cidade conforme ela é retratada no disco. “Lamento” e “Meu Amor” são as cartas fora do baralho.

Porque é que “Meu Amor”, por ser sobre o amor-paz, opõe-se a “Boa Companhia”?
Porque “Boa Companhia”, apesar de ser uma canção alegre, acaba por falar de coisas más que em “Meu Amor” se finge que não existem, como a insegurança em relação ao futuro e experiência de viver um compromisso numa grande cidade, num tempo em que tudo parece apelar a não ter grandes compromissos em relação a nada – trabalho, amigos, casa, amor, companhias. “Meu Amor”, pelo contrário, não fala sobre o medo do futuro nem sobre o medo de que o amor acabe.

Com qual é que te identificas mais neste momento?
Essa questão de me identificar muito ou pouco com as canções tem mais a ver com questões técnicas do que propriamente com aquilo que escrevi em cada uma delas. Tendo a ter uma relação distante com as canções, no sentido em que deixo de as avaliar em termos de autenticidade para passar a avaliá-las conforme a competência que julgo terem ou não.

UM NOVO MÉTODO

Numa troca de mensagens pelo Facebook, disseste-nos que consideravas este álbum superior ao “Cara d’Anjo”. Em que aspectos?
Na minha opinião, é superior. Não digo que não haja pessoas que não se identifiquem mais com algumas coisas que estão no álbum anterior ou que o álbum anterior não possa ser mais ao estilo de algumas pessoas. Mas quando eu digo que é superior estou a ser objetivo e factual. Todas as questões que envolvem a composição de uma canção, deste a letra, a métrica, os arranjos, foram tratadas aqui com muito mais competência. Claro que em termos estéticos e estilísticos as alterações podem ser mais ao gosto de uns do que de outros, mas isso já é uma questão de gosto. Acontece também que neste disco encontrei alguns sítios naturais que começam a definir um pouco melhor aquilo que eu acho que pode vir a ser o meu espaço enquanto cantautor.

No texto de apresentação do disco no Bandcamp, dizes que quiseste romper com o método de escrever canções que tinhas até então, método esse que começou a parecer-te demasiado “saturado” em ti próprio. Nesse aspecto, o que é que mudou de um álbum para o outro?
Eu sempre liguei muito mais à letra. Sempre foi essa a minha preocupação, tanto que quando eu comecei a fazer canções, há quase dez anos, a coisa que me dava mais ímpeto e mais me apelava era a letra. Antes de eu começar a fazer uma canção, podia até nem ter nenhuma ideia sobre a melodia ou a harmonia, mas já sabia o que queria dizer. Isto fez com que eu quase sempre escrevesse primeiro as letras. Nesse sentido, “Cara d’Anjo” é um álbum muito mais alinhavado. Neste, decidi simplesmente não pensar nisso. Não pensar em todas as questões que me tinham ocupado nos últimos anos e começar a compor canções de uma forma, digamos, mais livre, em que a letra aparece como acessório à música que já estava composta e não o contrário. E isso, como é óbvio, mudou muita coisa.

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Franscisco Aguiar D.R.

Como por exemplo?
Antes de tudo, só quando apontei as letras é que percebi a dificuldade que ia ter em arrumá-las de uma forma poética, tanto que cheguei mesmo a ponderar não arrumar os versos em quadras nem em estrofes. Estava a ter imensa dificuldade em perceber quando é que começava e quando é que acabava cada verso. Este novo método, no fundo, fez com que as canções não tivessem uma métrica tão rígida. “Luís Severo” acaba por ter um lado menos convencional do que o álbum anterior, sendo também, ao mesmo tempo, mais confuso a nível estrutural.

Foste então para estúdio sem ter uma única canção escrita?
Algumas letras já estavam escritas, mas fui fazendo alterações à medida que ia cantando. Como eu te disse, comecei por não apontar nada, a não ser algumas “punchlines”, como eu lhes chamo, que são aquelas frases mais se destacam, que agarram, como quando eu digo, por exemplo, “que a escola é a melhor parte da vida mas só porque a vida é mesmo uma merda” [em “Escola”, single do álbum]. Dou muita importância a estas frases-chave, que não são meramente abstratas ou descritivas. Tento sempre que cada canção tenho uma assim. Mas de resto fui sempre cantando de uma forma nova e alterando as letras. Tanto que quando o disco estava finalmente acabado, o Diogo [Diogo Rodrigues], com quem eu fiz este álbum, disse-me: “Olha, finalmente vou perceber como é que isto ficou”.

E deste-te bem com este novo método? Foi tudo fluindo naturalmente ou houve algum momento em que tenhas sentido a coisa mais perra?
Eu vi tudo com uma coisa só. E o que é bom é que isto fez-me entender que, no fundo, a voz é um instrumento que tem de ser visto como qualquer outro. É verdade que eu ia escrevendo as letras um bocado como me apetecia, mas no fundo eu já tinha as ideias todas. Já estava tudo na minha cabeça e eu só precisei de sintetizar tudo isso naquele objeto em específico. Quanto ao processo, e acho que a tua questão era mais por aí, posso dizer que tentei sempre a ver a coisa de uma forma relaxada. Foi intenso, estive a gravar durante muito tempo, mas não foi um sufoco, porque eu tive muito tempo para fazer cada coisa. Não fiz nada à pressa, nesse sentido. Houve tempo para alterar tudo. Houve algumas canções em que, imagina… a penúltima do disco, por exemplo, que é só piano e voz…

“Lamento”…
Exatamente. Essa canção chegou a ter um beat e chegou também a ter um baixo diferente. A dada altura, nós dizíamos por piada que parecia uma música do.. como é que se chama aquele gajo? Manu Chao. Isso. Depois decidimos ir por outro caminho, porque aquilo de facto estava um bocado foleiro. Houve mesmo tempo para tudo. É essa a coisa boa de estares numa sala em que não tens de pagar nada.

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Francisco Aguiar D.R.

 

UM NOVO ESTÚDIO

Foi por isso que decidiste mudar de estúdio?
Eu dividia um estúdio com o Sambado [Filipe Sambado] e outros amigos, onde ensaiavam também outras bandas. O espaço era minúsculo, para aí do tamanho deste café, se calhar menos. Aquilo era sufocante, não havia sol. Além disso, eu tinha lá o equipamento todo e também nesse aspecto era complicado. Não estava mesmo a sentir-me bem lá. Dava-me bem com as pessoas, mas sentia que precisava de ir para o outro sítio. O Diogo tem um estúdio em Alvalade e eu basicamente colei-me para ir para lá. Na altura, ainda não havia quaisquer planos de lançar o disco pela Cuca Monga, mas depois a malta da editora, e não só, acabou toda a tocar.

Qual foi a mais-valia de teres todas essas pessoas a contribuir para o disco?
Ouvidos frescos, ideias novas, ideias diferentes, outras estéticas. Basicamente foram essas as mais-valias. O coro [composto por Teresa Castro, Bia Diniz e Primeira Dama], por ter sido gravado todo ao mesmo tempo, deu um toque mais orgânico ao disco, que estava demasiado maquinal e sintetizado. Deu-lhe a vivacidade que faltava. Quanto aos violinos, fui eu que sugeri ao Tomás [Tomás Wallenstein, vocalista e guitarrista dos Capitão Fausto] que experimentasse sacar umas malhas no violino. Gosto muito de cantores folk americanos que usam violino e por isso sugeri-lhe isso. Foi um coisa que fomos fazendo aos poucos, porque aquilo leva tempo a apanhar. Todas estas pessoas que contribuíram para o álbum fizeram-no em diferentes alturas. De início, tive comigo só o Diogo e o Manel Palha [guitarrista dos Capitão Fausto], que são de facto os dois pilares deste disco, as duas torres.

UMA CIDADE

Em “Amor e Verdade”, há uns versos que dizem “Lisboa chora agora / não há filho teu que não te venda / fazem de ti boneca, à espera / que no fim ainda tenhas remenda”. O que remete imediatamente para questões como o turismo de massas na cidade e a gentrificação. Este álbum é também sobre isso?
Sim, isso é bastante óbvio. Essa frase, em específico, é uma coisa quase patriótica. É curioso que todas as pessoas que estão a vender e a transformar Lisboa são pessoas de cá, são filhos desta terra que decidiram, entre aspas, abandonar a cidade e fazer dela um espaço mais para quem vem de fora, para vê-la, do que para quem vive aqui. Eu próprio tenho uma casa de família que já ponderei pôr a alugar no Airbnb ou outra plataforma do género. Acho que todos as pessoas que se encontram nessa situação, isto é, que são proprietárias de casas, ou cujos pais são proprietários, já ponderaram fazer isso, mas a questão é: será que não há nenhum sentimento além disso? Lisboa continua a ser uma cidade fantástica, mas vai ficando pior. Por outro lado, também é evidente que essa frase – “Lisboa chora agora, não há filho teu que não te venda” – é meio populista e eu não tenho a intenção de converter ninguém nem de mudar opiniões. Eu toco em assuntos que são de uma natureza política, mas não de uma forma politizada. E para todos os efeitos essa frase é mais um simples desabafo do que uma tentativa de mudar a opinião de quem quer que seja.

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Francisco Aguiar D.R.

Quiseste falar sobre estas “alterações” que Lisboa tem vindo a sofrer porque elas afetaram ou afetam a tua vida ou porque estás simplesmente atento ao que se passa à tua volta?
Quis falar sobre isso porque me afeta. Quando aluguei esta casa onde estou há um ano, as rendas já estavam estupidamente altas. Tive a sorte de encontrar agora outro apartamento em condições óptimas e a um preço bem simpático. Sei que isto não importa para nada, mas basicamente andei de porta em porta, na Penha de França, a perguntar às pessoas se sabiam de casas para alugar. Tinha duas hipóteses: ou fazia isso ou ia procurar apartamentos na Internet. E procurar apartamentos na Internet é para esquecer, porque percebemos que as casas estão ao dobro do preço que estavam há um ano. É claro que isso me afeta, do mesmo modo que afeta toda a gente que vive cá. Também me incomoda que os espaços antigos estejam a fechar. Talvez seja só aquele sentimento à velho, porque um dia tudo fecha. Mas sim, incomoda-me um bocado.

Nasceste em Lisboa?
Eu sou de Odivelas e fiz o secundário em Odivelas, mas sempre passei muito tempo cá. Quando fui para a faculdade [Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa] já tinha imensos amigos aqui. Tenho uma avó que vive ali na Penha de França e sempre passei muito tempo em casa dela. Portanto, antes de viver efetivamente aqui, já me sentia lisboeta, já me sentia minimamente alfacinha.

Numa entrevista recente, dizes que ter tocado em tantas “terras”, durante a apresentação do álbum anterior, permitiu-te comparar Lisboa com outros sítios. A que conclusões é que chegaste?
Antes de mais, acho que Lisboa podia ser uma cidade mais solidária. Encontrei essa solidariedade, que não encontro aqui, em alguns sítios onde toquei. Estive muito na zona do Douro e do Minho. Braga, Guimarães, Monção, Fafe, Lamego. Porto, obviamente. Vila Real também. São sítios em que não só há público, como há uma atitude fixe, ao mesmo tempo que vai havendo muitos heróis que, mesmo não sendo a terra o sítio mais fácil para agendar concertos, continuam a querer levar bandas a tocar lá. Escrevi algumas letras do novo disco quando estava em digressão. Por isso é que a crítica que é feita a Lisboa, mas também os elogios, que são muitos, são feitos em comparação com esses outros lugares do país.

“NÃO QUIS FAZER UM DISCO QUE NINGUÉM PERCEBA. ISSO SERIA ARROGANTE DA MINHA PARTE”

Dizes que o novo disco “é talvez mais difícil de entrar do que o anterior”. Houve da tua parte, de facto, a intenção de fazer um álbum mais complexo e intrincado? Menos direto e óbvio? Ou é simplesmente uma análise que fazes à posteriori?
Sim, houve essa intenção. Tudo isto advém de um questão importante de que já aqui falámos indiretamente e que é a questão do segundo álbum. Lanças um primeiro disco que até corre bem, porque as pessoas gostam e falam sobre ele. O segundo disco, depois, vai ser apenas uma de duas coisas – ou confirmação de que tu, afinal, és uma merda ou a confirmação de que até vales alguma coisa. E isso, claro, traz alguma pressão. As pessoas começam a questionar-se: “Mas então o que é que ele vai fazer agora?” Quanto a mim, tentei encarar essa pressão sem grande preocupação. Sabia que não podia fazer um disco igual ao outro. Foi por isso que tentei ser mais intuitivo. A mudança de método também tem a ver com isto, porque veio fazer com que o disco não fosse tão fácil. Mas como é óbvio, não acordei e saí da cama a pensar: “Bom, agora quero fazer um disco que ninguém perceba”. Isso seria um bocado arrogante da minha parte. Simplesmente, não tive nenhum complexo em incluir canções que não seriam, à partida, singles óbvios.

Quais, por exemplo?
“Meu amor”, por exemplo. Até “Lamento”, que eu acho que não seria um single, se bem que já me têm dito que podia ser. No fundo, sinto que este disco explora um formato de canção diferente, um formato que eu ainda estou a tentar encontrar, a tentar perceber. Porque a verdade é que eu ando a dar entrevistas e a falar sobre um álbum que ainda não me sentei com calma a ouvir como se não tivesse sido eu a fazer. Nem eu sei bem tudo o que lá está.

Houve algum momento em que essa pressão de que falas se tenha tornado menos saudável?
Há sempre dias em que não estás tão confiante. Eu acabei o disco sem saber se ele estava bom.

E quando é que percebeste que estava?
Muito honestamente, só agora, que o tenho ouvido, é que começo a achar piada. A malta disse-me logo que estava muito bom, mas eu não acreditei. Tive uma, duas semanas, em que não conseguia ouvi-lo. Em que fiz mesmo questão de não o ouvir. Mas agora já consigo e acho que ficou fixe.

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Francisco Aguiar D.R.

UMA CASA

Falemos um pouco de ti. Dizes em algumas entrevistas que estudaste Sociologia como podias ter estudado outra coisa qualquer. Mas porquê esse curso?
Eu escolhi estudar Sociologia um bocado por cobardia, para não ter de assumir que o que eu queria mesmo era estudar música. E porque na verdade também tinha medo de estudar música. O meu encanto era tão grande que eu receava vir a perdê-lo. Fui para Sociologia como podia ter ido para outro curso qualquer daquela faculdade. Na fase final do curso, eu já estava a trabalhar como freelancer noutras coisas e estava sem tempo nenhum. Faltavam cinco ou seis cadeiras para terminar o curso. Estive quase para desistir, mas depois pensei que era estupidez não fazer isso e não encerrar aquele capítulo. Não é que eu pretendesse ser sociólogo, porque não pretendia nem pretendo, e mesmo que fosse seria um sociólogo péssimo, mas queria mesmo terminar aquilo. E terminei. Com uma média ridícula, mas terminei.

O que fazes então além da música?
Ultimamente, tenho podido estar só a fazer música. Tenho feito os meus discos, tenho composto para outros artistas, já fiz música para televisão. Vou aproveitando as coisas que vão aparecendo, na área do som, por exemplo. Já produzi algumas bandas também.

E consegues viver disso?
Sim, tenho conseguido. Não sou uma pessoa rica, mas tem sido suficiente e acho que, se tudo correr bem, há de começar a ser cada vez mais suficiente. A ideia, no fundo, é estares sempre ocupado a trabalhar e ires somando todas as migalhas que vão aparecendo, porque tudo somado dá quase sempre para ir pagando as contas.

Para que outros artistas já compuseste?
Já compus para a fadista Cristina Branco, por exemplo. Há agora aí outra coisa que em princípio vai acontecer, mas eu ainda não posso falar sobre isso. No geral, estou completamente receptivo a compor mais. É uma forma de estar a trabalhar, mas sem aparecer sempre. O que, diga-se, também me dá muito gozo. É uma chatice aparecer sempre, estar sempre a dar entrevistas. Nada contra ti, claro…

Mas porque é cansativo?
Porque é uma chatice. Eu sei que não se nota mas eu, apesar de tudo, tenho um lado um bocado mais tímido… Chego a casa, muitas vezes, e penso “Bfff, ok, quando é que isto acaba?” Compor para outras pessoas, que muitas vezes até interpretam melhor do que eu, possibilita-me ter obra, autoria, sem ter esse lado de exposição.

E as duas coisas sao conciliáveis? Não em termos de tempo, mas de dedicação, sabendo tu tão bem o que queres realmente fazer.
Eu já fiz música para anúncios de televisão e isso deu-me imenso gozo. A minha música e os outros trabalhos que eu vou fazendo são completamente diferentes. Neste disco de que temos estado aqui a falar, eu sou o cliente. O disco foi feito para me satisfazer a mim. Mas também me dá gozo fazer coisas em que o cliente é outra pessoa. Não me sinto nada mal com isso. Além disso, tenho sempre a possibilidade de escolher cada nota. Claro que se só fizesse isso, provavelmente não iria sentir-bem e iria sentir necessidade de fazer coisas também para mim. Mas ao mesmo tempo já me sinto abençoado por estar aqui a falar contigo e não ali, metido naquela confusão [aponta para a televisão do café, onde está a passar uma notícia sobre um caso de bullying em Odivelas, no noticiário das 20h].

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Francisco Aguiar D.R.

Falas sobre a tua mãe em várias entrevistas e do modo como ela “iniciou-te nos “trilhos da música”. Qual é a ligação dela à música?
A minha mãe sempre ouviu imensa música e viu imensos filmes. Apesar de eu ser de um subúrbio e de um bairro feios, numa zona feia, tive a sorte de ter uma casa em que havia muitos discos e livros e filmes que eu ia consumindo no meu tempo livre. Sufjan, Elliott Smith, Chico, Dilan… Eu tinha tudo isso em casa. Acho até que se não fosse o contacto com esse espólio, não teria sido possível eu fazer música ou ser, entre aspas, artista.

O que é a tua mãe faz?
É funcionária pública na área da Educação.

Da mesma forma que ela te mostrou isso, quem é que lho terá mostrado a ela?
Eu acho que o meu avô também tinha um bom gosto, mas a verdade é que a minha mãe investiga muito. Acompanhou aquela fase dos blogues, quando nós ainda éramos pequenos. Muitas das coisas que eu ouço, até coisas atuais, foi ela que me mostrou. Sufjan Stevens, Elliott Smith… Até mesmo Magnetic Fields, que é um banda que eu gosto imenso, foi ela que me deu a conhecer. Por causa disto, fiquei um bocado mãe nos meus gostos. Mas uma mãe fixe.

E o que é que ela acha desta tua vida de músico?
Acho que já estou a convencê-la.

Ainda estás nessa fase? Ainda não conseguiste convencê-la?
Talvez já tenha conseguido. Mas acho que no Teatro Ibérico ainda vou convencer mais. Na música, há um bocado aquele estigma, tal como há no futebol, de que em cinco milhões de pessoas só duas é que chegam lá. Por isso, quando eu comecei, eles estavam com algumas reservas. Mas não tenho razão de queixa. Eles sempre me apoiaram. E eu também nunca me encostei, tentei estar sempre ativo e eles reconhecem isso.

Foi a tua mãe que te mostrou a fadista Argentina Santos, de que falas em algumas entrevistas…
Eu gosto muito dela. Já a ouviste a cantar?

Não a conhecia até ter lido essas entrevistas em que falas nela. Depois estive a ver alguns vídeos no youtube.
É mesmo muito boa, não é? Não ficaste minimamente espantada?

Fiquei. Mas queria perceber o que mais te fascina nela.
Lembro-me de que, quando a ouvi pela primeira vez, fiquei completamente espantado. Senti que havia ali algo sobrenatural. É verdade que a Amália é a melhor e que toda a gente a considera a mais competente e a mais fantástica, mas a Argentina tem ali qualquer coisa de inexplicável que me cativou até mais. A Amália é a Amália e isso não pode ser negado, mas a Argentina, apesar de tudo, acaba por ser a minha fadista favorita.

Além de Cohen, que costumas referir sempre, que outros músicos ou bandas ouviste enquanto gravavas o disco?
Eu sou muito chato nisso. Digo sempre as mesmas coisas. Ouvi o Sufjan, Elliott Smith, Zeca, Cohen, Chico, Caetano, Jorge Ben. Ouvi e ouço imenso Bonnie ‘Prince’ Billy. Scout Niblett também. Acho que é isto. Não sou propriamente aquele gajo que vai dizer-te o nome de uma banda de que nunca tenhas ouvido falar.

Publicado no jornal Expresso a 30 de março de 2017.

Ana Cássia Rebelo: “A escrita não resolve, mas alivia, atenua, é um grito”

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Ana Cássia Rebelo nasceu em Moçambique, em 1972. Filha de pai goês e mãe alentejana, veio para Portugal quando tinha cinco anos. O pai, que fazia parte da administração ultramarina, recebeu uma ordem de expulsão do país, assim como outros que trabalhavam com ele. De Moçambique, Ana lembra-se sobretudo da casa em que vivia com os pais e os dois irmãos, na então Lourenço Marques. Lembra-se que havia “uns azulejos amarelos” e um corredor que lhe parecia, na altura, “enorme”. Lembra-se também da infância, de retalhos da infância, que não são mais do que “memórias difusas”, divididas entre o sonho e a realidade. Estudou Direito (“porque na altura toda a gente o fazia” e Ana, que o que gostava mesmo era de História, decidiu fazê-lo também) e trabalha atualmente como jurista num instituto público. Há cerca de dois anos regressou a Moçambique para dar uma formação no âmbito da especialidade em que trabalha. Foi recebida pelo embaixador português, em Maputo, tal como outros formadores portugueses, antes de si, haviam sido. Quando estava na sala do embaixador, lembra-se de olhar pela janela e ver uma avenida “muito grande, com um sol enorme e muito vermelho”, e ter a sensação de já ter visto aquilo. Mas não tem a certeza.

Em 2006, Ana criou o blogue Ana de Amsterdam. O nome vem de uma canção de Chico Buarque: “Sou Ana de cabo a tenente / Sou Ana de toda patente, das Índias / Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada… Sou Ana de Amsterdam”. Antes desse, teve outros três blogues: Alice no País dos Matraquilhos, Pano-Cru e 2.º Andar Direito. Sobre a escrita, diz que aconteceu “por acidente”, que não pode dizer, como dizem outros escritores noutras entrevistas, que escreve por vocação ou que escreve por não ser capaz de fazer outra coisa ou que aos cinco anos já sabia que o que queria mesmo era escrever. “Se fosse professora de História, seria uma excelente professora de História. Não sou, sou jurista, e sou uma competente jurista”. Tem três filhos, com 6, 13 e 16 anos.

De que modo é que a sua formação em Direito, e o cargo que desempenha atualmente, influenciaram a sua escrita?
Foi a trabalhar – não durante o curso de Direito, porque no curso ninguém aprender a escrever nem ninguém aprende Direito – que eu aprendi a escrever. Aprendi a construir frases com as correções dos diretores e os coordenadores, que liam todos os documentos que saíam da instituição. Escrevia muito mal antes disso, escrevia mal tecnicamente, e dava erros de ortografia. Também aprendi a escrever no blogue, e claro, com todas as leituras que fiz ao longo dos anos. Para se ser um escritor razoável é preciso ler muito, não basta a inspiração ou a vocação ou saber-se que aos cinco anos se quer ser escritor. Sei que escrevo de uma maneira diferente da que escrevia há 10 anos, quando comecei a escrever no blogue. Quando leio textos meus, mais antigos, noto que tinha uma certa tendência para utilizar palavras difíceis e uma linguagem um pouco barroca, própria de quem está a começar e quer mostrar-se e imitar os modelos. Não escrevo assim atualmente, a minha forma de escrever mudou, e continua a mudar. É mais limpa. Apesar disso, hei de escrever sempre sobre plantas e flores, e descrever, por exemplo, uma peça de mobiliário. Pode ser aborrecido para alguns, mas tenho muito prazer nisso.

Dizia que no início escrevia como se quisesse imitar os modelos. Que modelos eram esses?
Há uma escritora que eu admiro profundamente, mas receio que seja um bocadinho arrogante da minha parte dizer que tentava imitá-la. Refiro-me à Agustina Bessa-Luís, de que gosto muito. Também me canso, é verdade, mas acabo sempre por voltar, sobretudo àquele livro que se chama As Pessoas Felizes. É inevitável. Acho que as minhas descrições de plantas e de ambientes, por exemplo, têm muito a ver com a escrita dela. Às vezes aprendo com ela uma determinada palavra, ou expressão, que me parece muito bonita e fica na minha cabeça, e acabo por me basear nisso para escrever um texto. Não sei se podemos chamar a isto plágio, ou se é simplesmente usar alguma coisa que outra pessoa escreveu e dar-lhe um corpo diferente. Faço isso muitas vezes, com palavras que encontro nos livros de outros escritores.

Quando não são as palavras dos outros, o que é? O que a leva a escrever?
A minha escrita é muito diarística. Às vezes, há umas pequenas incursões na ficção, e tento inventar histórias – que são, regra geral, piores do que os textos confessionais e autobiográficos, dizem-me as pessoas. Portanto, escrevo sobre mim, sobre as minhas alegrias e angústias, sobre aquilo que me acontece, sobre aquilo que vejo, pormenores, muitas vezes, o que imagino que aconteça com todos os escritores. Ontem, por exemplo, estava com os meus filhos, os dois rapazes, eles estavam a jogar futebol e eu sentada na relva. Ao mesmo tempo havia pessoas a caminhar e mães com carrinhos, e eu fiquei em êxtase profundo a olhá-las. Aquele momento pareceu-me extraordinário. Houve ali qualquer coisa de profundamente mágico. Volta e meia essa imagem vem-me à cabeça, ainda hoje aconteceu, e fico com vontade de escrever sobre isso.

Antes deste blogue, Ana de Amsterdam, teve outros três: Alice no País dos Matraquilhos, Pano-Cru e 2.º Andar Direito. Que tipo de blogues eram esses?
Eram muito idênticos ao Ana de Amsterdam. Falava muito dos meus filhos. Eram parecidos com aqueles blogues que as mães criam para partilhar as alegrias da maternidade. A diferença é que não partilhava as angústias e o cansaço da maternidade, como faço neste, que ganhou, por causa disso, outra dimensão, outra liberdade.

Como é que chegou aí, a essa outra dimensão?
Quando comecei a escrever em blogues, escrevia o que todas as outras pessoas escreviam. Comentava assuntos relacionados com política, sociedade, etc. No Ana de Amsterdam também fazia isso, no início, mas a partir de determinada altura, quando ganhei gosto à escrita, e comecei a trabalhar os textos – porque os textos que escrevo são muito trabalhados – o blogue passou a ser o meu diário, um diário público, não íntimo e secreto, como é da natureza dos diários. Assim sendo, só fazia sentido para mim continuar a escrever se fosse com essa liberdade, escrevendo sobre tudo, sem estar preocupada com o leitor, com aquilo que poderia vir a pensar.

Iniciou-se na escrita com os blogues ou já escrevia?
Sim, foi com os blogues. Não escrevia antes, e nunca pensei que viria a escrever ou a querer fazê-lo. Lia muito desde miúda, apenas isso. Seja como for, continuo a não sentir essa pressão da escrita, mesmo com o blogue e o livro publicado. Gostava de escrever um romance ou um livro de contos, afastar-me um pouco daquele que é o registo do diário, mas também não sei se sou capaz de o fazer. Outros tipos de escrita exigem uma disponibilidade e um fôlego que eu não sei se tenho. Disponibilidade não tenho, de todo.

Alguma vez tentou?
Sim, mas tenho muitas dúvidas sobre aquilo que escrevo. Na verdade, não tenho pressa em publicar. Não sinto essa pressão.

Disse, também em entrevista, que quando começou a escrever em blogues não era uma pessoa que “gostasse particularmente de escrever”, e que o tinha feito apenas por razões pessoais. Como é que isso mudou?
Eu tenho muito prazer em escrever, mas também em trabalhar o texto, depois de escrito. As pessoas podem ter a ideia de que os meus textos, por serem pequenos, são escritos ali ao correr da caneta, mas não é verdade. Tenho inveja daqueles escritores a quem o espírito desce e a mão escreve e tudo o que escreve é espetacular. Eu não sou assim. Os meus textos são, em grande parte, muito trabalhados, e só são publicados quando tenho a certeza de que não há mais alterações a fazer. Esse trabalho de ler, reler, rasurar, agrada-me muito, e começou a agradar-me mais a partir de certa altura. Há dias estive no Correntes d’Escritas [festival literário na Póvoa do Varzim] e ouvi o Mário Cláudio dizer uma coisa que achei muito interessante, e que tem a ver com essa ideia de que rasurar é um modo de escrever.

Porque é que escolheu o nome Ana de Amsterdam, que vem de uma canção de Chico Buarque, para o blogue?
Gosto muito de música portuguesa e brasileira, e gosto muito do Chico Buarque. Escolhi o nome simplesmente porque gostava muito da canção, embora não conhecesse a sua história. De alguma forma, identifiquei-me com a Ana de que fala a canção, a “Ana do oriente, ocidente”, a “Ana gelada”. Quando descobri a história, achei que tinha sido uma boa escolha.

Qual é a história?
A canção faz parte de uma peça de teatro [Calabar – O Elogio da Traição, 1973] escrita por Ruy Guerra e Chico Buarque. A peça conta a história de Calabar [Domingos Fernandes Calabar], contrabandista, e considerado um grande traidor, porque passou do lado dos portugueses para o lado dos holandeses. A peça acaba por ser uma reflexão sobre a traição, se vale ou não a pena trair, porque ele, Calabar, trocou de lado porque os portugueses maltratavam os brasileiros e os indígenas. Uma das personagens é Ana, prostituta francesa, que chega ao Brasil para distrair os ocupantes holandeses, para os satisfazer, mas acaba por se apaixonar por Bárbara. É uma história bonita, esta do amor entre duas mulheres.

Como é que se deu a passagem do blogue para o livro?
O João Pedro George, que é meu amigo, disse-me há algum tempo que gostava de fazer uma seleção de alguns textos meus publicados no blogue, porque achava que podiam resultar bem em livro. Durante muito tempo tive outra opinião. Não me parecia que houvesse uma unidade entre os textos, as questões formais preocupavam-me, achei que não ia resultar. Mais tarde, ele voltou a insistir e eu, talvez por força de outras circunstâncias, acabei por aceitar. Ele selecionou e organizou os textos, eu vi o resultado final e gostei. Houve várias pessoas que me disseram que os textos ganharam uma dimensão diferente com o livro.

A Ana participou, em algum momento, nesse processo de seleção dos textos?
Não, a seleção foi feita pelo João, mas houve textos que eu, por várias razões, não quis que constassem do livro.

A sequência dos textos no livro é a mesma do blogue?
Não. Apesar de os textos estarem ordenados de forma cronológica no livro, houve alguma manipulação. O último texto, por exemplo, não foi escrito naquela data. Quisemos criar uma sequência diferente da do blogue, até para que houvesse uma certa unidade. De resto, isso também acontecia no blogue. Eu escrevia os textos numa determinada data, mas só os publicava depois de terem sido revistos muitas vezes. Alguns textos publicados no livro foram também reescritos. Refiro-me aos mais antigos, que não estavam, a meu ver, bem escritos.

Este é o seu primeiro diário ou teve outros em miúda?
Tive um quando era pequena. Tinha cerca de 10, 11 anos. Escrevi meia dúzia de páginas. Nunca fui muito persistente. Mas perdi-o, e tenho pena. A única coisa que me lembro de ter escrito nesse diário foi que os meus heróis eram Jesus Cristo, Martin Luther King e o Brian Adams. Assim, na mesma linha, escrito em letras garrafais, muito redondas, os is com pontos que mais pareciam bolas, e muitos pontos de exclamação.

Em On Keeping a Notebook, Joan Didion [escritora e jornalista] afirma que escreve diários para se relembrar, a que não deixa de associar também um certo impulso de escrita. E a Ana, escreve para quê?
Às vezes perguntam-se se o diário foi uma forma de terapia. Eu não resolvo os meus problemas através da escrita. Para os resolver, precisei de recorrer a outros meios, como a terapia, na qual é importante o confronto com o outro. Apesar disso, a escrita continua a funcionar como analgésico. Não resolve, mas alivia, atenua, é um grito. É também por isso que eu não sei se virei a escrever um romance ou um conto ou uma novela. Gostaria de o fazer, porque a literatura é essa possibilidade de criar outras vidas – e isso é uma coisa muito bonita que li numa entrevista qualquer. Não é da minha lavra. Seja como for, acho que vou continuar a escrever no blogue. Escrevo há quase dez anos, imagino que daqui a 10 anos ainda vou estar lá, no blogue, provavelmente a escrever sobre os meus netos.

A Ana escreve muito sobre lugares: Goa, Bombaim, Corturim. Que importância têm para si esses lugares?
Ao contrário de Moçambique, onde gostei de voltar – apesar de achar que não o farei novamente – Goa é uma espécie de geografia sentimental, é um lugar onde tenho família, onde o meu pai nasceu e passou a infância e parte da adolescência, e onde passa, atualmente, a maior parte do ano. Escrevo muito sobre esses sítios porque há uma ligação afetiva, sinto que também sou do lá de lá. É em Goa que me sinto em casa.

O que faz o seu pai em Goa?
O meu pai tem algumas propriedades lá e, como sabe que quando morrer vai ser muito difícil, para nós portugueses, lidar com a burocracia indiana para conseguir vender os terrenos, tem ido para lá tratar disso. Passa a maior parte do ano em Goa, no fundo, a preparar a sua morte. É triste, apesar de ele ser muito feliz lá, porque tem muitos amigos, alguns de infância, que entretanto recuperou. É triste e quase dá vontade de chorar, mas ele fala sobre isso de uma maneira completamente desassombrada.

No livro há registo de várias viagens a Goa. Nota que esses lugares sobre os quais escreve, os lugares afetivos, têm mudado muito ao longo dos anos?
Fui pela primeira vez a Goa há cerca de sete anos. A última vez foi em 2013, se não estou em erro. Noto que mudou muito. Goa é atualmente uma espécie de Algarve indiano. É um estado onde não há lei seca e onde se pode beber álcool. As praias são muito bonitas, mas a construção à beira-mar tem sido feita de uma forma completamente descontrolada. Goa tem perdido um pouco daquele encanto que tinha. O meu pai vive no interior, numa zona rural de arrozais, um sítio onde não há turistas nem ruído. As praias, as festas e as feiras de artesanato também não me interessam muito.

Em alguns textos escreve sobre outras mulheres – Maria Adelaide, Judite, Guiomar, Alzira, Raquel, Ana Paula, Laura. Quem são estas mulheres? São reais? Personagens?
Não são personagens. Algumas têm nomes de mulheres da minha família, outras têm nomes de que gosto, que escolho porque acho que se adequam. Apesar de terem sido escritos na terceira pessoa, muitos desses textos falam sobre mim ou sobre as mulheres da minha família, sobre as suas histórias. Há, na minha escrita, uma subjetividade feminina muito intensa. A minha escrita está muito ligada a esse universo feminino. É sobre as mulheres que eu tenho interesse em escrever.

O livro foi publicado em fevereiro. Já o leu?
Sim, já o li. Há alguns textos de que gosto muito, como, por exemplo, o último que aparece no livro [“Morri no princípio de outubro…”]. Acho que é o texto mais bonito que tenho. Também gosto daquele que se chama “Maria José” e que é baseado na Adília Lopes. Gostei de o escrever. De resto, é tudo um bocadinho efémero. Eu não sou deslumbrada em relação à minha escrita. Sei que é efémero, e que vai passar. Mesmo em relação à literatura, enquanto leitora, não o sou. Há escritores de que gosto muito que são desiguais. Têm obras boas e obras menos boas.

O livro tem recebido alguma atenção por parte da comunicação social. Está surpreendida?
Não. Eu sei que o livro tem alguma força. Está bem escrito, e isso não é muito normal. A maior parte dos livros que se publicam estão mal escritos. Por isso, tem essa vantagem. Além disso, eu abordo assuntos que as pessoas geralmente não abordam na primeira pessoa, por isso é um livro corajoso. Escrevo sobre a sexualidade feminina, o erotismo, a maternidade, o desejo feminino, assuntos sobre os quais não se fala. Portanto, nesse aspeto, não estou surpreendida.

Máquina de Escrever, 15-03-2015