Um monólogo à beira-morte

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O sapateiro de Viena, assim era conhecido, era pobre, começara com pouco, mas fizera fortuna em pouco tempo. O imperador austro-húngaro, seu soberano, era também seu cliente. Os ministros, marechais e generais do Império eram seus clientes. Os pedidos chegavam de Viena, Budapeste, Praga, Munique, Zurique, Sófia, Belgrado, chegavam de todo o lado. Todos queriam usar os sapatos que fazia, e as botas e botins e botifarras que fazia, porque eram confortáveis, porque eram bonitos, e a sua presença em cerimónias oficiais era tolerada. Recebia cumprimentos, palavras breves mas amáveis, era, em suma, reconhecido.

Mas o sapateiro de Viena não estava satisfeito, o sapateiro de Viena tinha outros planos para si. Mais do que isso, tinha uma ideia fixa: comprar uma colina, a Colina dos Heróis, situada num vale rodeado de carvalhos e outras árvores, e consagrá-la como monumento aos heróis do Império, aos heróis do passado e do presente, aos heróis do futuro, uma colina que fosse cemitério e ao mesmo tempo museu. Apresentou a ideia ao imperador, o imperador anuiu, o imperador prometeu apoio pecuniário, houve um momento em que até se comoveu, e o sapateiro de Viena virou costas, satisfeito, mas não muito – aquilo era apenas o início –, comovido também, e pôs mãos à obra.

A obra cresceu, os operários trabalhavam de dia, trabalhavam de noite, apesar da chuva, apesar do vento. O sapateiro supervisionava as obras, montado num cavalo, e no seu espírito crescia a ideia fixa, cada vez mais fixa. Supervisionava e pagava, ia gastando todo o seu dinheiro na expetativa de receber o dinheiro do imperador, que nunca chegou. Um dia, a obra parou. Passaram anos e anos, morreu o imperador, veio uma guerra, outra guerra, vieram os russos, dentro de tanques, que se dirigiram à colina e viram o cemitério e viram uma cripta, onde descobriram, no seu interior, o cadáver do sapateiro, esquecido, mirrado.

Esta é uma das histórias que Sebastián Urrutia Lacroix, padre, poeta medíocre e crítico literário chileno, membro da Opus Dei, julgando-se às portas da morte, envelhecido, relembra: “Agora estou a morrer, mas ainda tenho muitas coisas para dizer”. Foi-lhe contada por Farewell, crítico literário do mais alto gabarito, ou assim se julgando, adorado e odiado na mesma medida pelas hostes literárias chilenas.

Conhecera Farewell quando este o convidara a visitar a sua propriedade, Là-bas, perto de Chillán, no Chile, onde se reuniam outros convidados, escritores e poetas, Pablo Neruda entre eles, e onde se falava sobre outros escritores e outros poetas, elogiava-se e desprezava-se, e às vezes recitava-se poesia. Corriam então os anos finais da década de 1950. Através de Farewell, conhecera don Salvador Reyes e através deste ouvira falar de Ernst Jünger e do pintor guatemalteco que vivia prostrado à janela da sua casa em Paris à beira da morte, impedido de sair da cidade por causa da guerra.
Sebastián Lacroix, envelhecido, prostrado na cama e surpreendendo-se a si próprio de cada vez “apoiado num cotovelo”, relembra ainda outros acontecimentos: o encontro com os senhores Odeim e Oido (cujos nomes ao contrário leem-se, respetivamente, “Medo”, de “miedo”, e “ódio”) e a viagem à Europa a pretexto de um trabalho sobre conservação de igrejas, por incumbência daqueles, que visita, chegando à conclusão que a maior ameaça que as igrejas enfrentam, isto é, as cagadelas de pombos, é ali combatida com falcões que os párocos domesticam a treinam, à exceção do padre da igreja de Burgos, Antonio, que vive numa cama num quarto com paredes revestidas a pedra, e perto de si, encolhido a um canto, o seu falcão, inútil.

Seriam os mesmos senhores Odeim e Oido que, mais tarde, o recrutariam para dar aulas de marxismo ao general Pinochet e a outros membros da junta militar que tomara o governo do Chile. Sebastián Lacroix, envelhecido, com o “pobre esqueleto” apoiado “integralmente” no cotovelo, continua a relembrar a sua vida, num monólogo alucinado e ininterrupto (não há parágrafos), e lembra-se de María Canales, uma aspirante a escritora que vivia com o marido e os dois filhos numa casa frequentada por amigos, artistas e escritores, entre os quais ele, o padre, se encontrava.

Ouvia-se Debussy, Webern, falava-se de Ezra Pound, recitava-se poesia, discutia-se pintura e dança contemporânea, ao mesmo tempo que no andar de baixo, na cave, se torturavam até à morte os “subversivos”, opositores do regime, depois de sujeitos a interrogatório, rotina de horror que chegou aos ouvidos do padre muito mais tarde. O marido da aspirante a escritora foi preso, acusado, entre outros crimes, de ter assassinado um antigo ministro de Salvador Allende, e a aspirante a escritora ficou sozinha, na casa grande, sem filhos, sem marido, mas ainda aspirando à escrita, e a despedir-se, quase imóvel, no alpendre do único que, depois de o escândalo rebentar, tivera coragem a visitar, o padre Sebastián Urrutia Lacroix.

A personagem de María Canales é inspirada em Mariana Callejas, escritora chilena, esposa de Michael Townley, um dos mais terríficos assassinos da polícia secreta (DINA – Dirección de Inteligencia Nacional, mais tarde substituída pela Central Nacional de Información, CNI) que operava no regime do general Augusto Pinochet. Em 2010, Mariana Callejas foi condenada a cinco anos de prisão por ter participado no assassinato do general Carlos Prats e sua esposa, em 1974, e por ter feito da casa onde vivia, uma mansão com três pisos que lhe havia sido entregue pela polícia secreta chilena, um quartel onde se planeavam operações terroristas (como a conhecida “Operação Colombo”), torturavam e matavam opositores ao regime ditatorial de Pinochet.

Noturno Chileno, publicado por Roberto Bolaño (1953-2003) três anos antes de morrer, e agora reeditado pela Quetzal, é, segundo o próprio autor, “uma metáfora de um país infernal”, ou, se quisermos, uma metáfora de um país falido e de uma literatura, também ela, falida.

Quando o padre visita a casa decrépita, María Canales pergunta-lhe se quer ver a cave, a cave da tortura e dos homens nus de vendas nos olhos amarrados pelos pulsos e pelos tornozelos a camas metálicas, a cave que em breve iria ser demolida, assim como a casa, assim como tudo, mas o padre recusa. “É assim que se faz a literatura no Chile”, diz-lhe a aspirante a escritora, e o padre concorda, acrescentando que assim se faz a literatura em todo o lado, “ou aquilo a que nós, para não cair no esgoto, chamamos literatura”.

Máquina de Escrever, 30-03-2015

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Entrevistas da Paris Review novamente publicadas em livro

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Depois de ter publicado, em 2009, o primeiro volume das entrevistas da Paris Review, a Tinta da China lançou o segundo volume, Entrevistas da Paris Review 2, com tradução e notas de Rita Almeida Simões e ilustrações de Vera Tavares. The Paris Review, saiba-se, é uma revista literária de Nova Iorque, fundada em 1953 por um grupo de amigos (Harold L. Humes, Peter Matthiessen e George Plimpton). Nas suas páginas estrearam-se escritores como Adrienne Rich, Philip Roth, V. S. Naipaul, Italino Calvino e Jonathan Franzen (refira-se também a publicação no quinto número da revista de alguns excertos de Molloy, romance de Samuel Beckett, nessa que foi uma das primeiras traduções de textos seus em inglês).

O segundo volume das entrevistas, publicado no final do ano passado, abrange um período de 47 anos, desde 1959 (entrevista a T. S. Eliot) até 2006 (Joan Didion). As entrevistas respeitam um critério cronológico: a T.S. Eliot seguem-se Ezra Pound (um e outro entrevistados pelo poeta, editor e crítico literário, Donald Hall), Louis-Ferdinand Céline, Harold Pinter, Vladimir Nabokov, Elizabeth Bishop, Philip Roth, Marguerite Yourcenar, Iris Murdoch, Primo Levi, Jan Morris e, finalmente, Joan Didion (cuja ausência no primeiro volume, bem como a de algumas entrevistas a outros escritores publicadas neste segundo volume, foi lamentada por um crítico literário).

Algumas perguntas repetem-se, com ligeiríssimas e pouco significativas variações, em quase todas as entrevistas (bem como em quase todas as entrevistas feitas a escritores, no geral). Dizem respeito a assuntos como as influências literárias, relação entre o ensino e a escrita (se traz vantagens, se não as traz, se ajuda à escrita ou se não), leituras (as que influenciaram e as que são apreciadas), conselhos aos poetas mais jovens (numa espécie de imitação, sem nunca o chegar a ser, de Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke), processo e método de composição de escrita, planos para livros futuros.

Tem interesse comparar as respostas. Sobre a importância do romance, Céline (que foi entrevistado em diferentes ocasiões) e Philip Roth (entrevistado por Hermione Lee em 1984) têm opiniões diferentes. Para o primeiro, os romances “são um pouco como a renda… uma arte que desapareceu com os conventos”. Diz Céline que os romances “não conseguem competir com os carros, os filmes, a televisão, o álcool. Um tipo que comeu bem, que escapou à grande guerra, à noite dá um beijinho à velhota e assim termina o seu dia. Está feito”. Já Roth diz que ler romances “é um prazer profundo e singular, uma atividade humana absorvente e misteriosa que não exige nem mais nem menos justificação moral ou política do que o sexo”.
Em relação às rotinas de trabalho, Nabokov, entrevistado por Herbert Gold em 1967, no Montreux Palace Hotel, Suíça (onde vivia com a mulher, Véra), dois anos antes de publicar Ada ou Ardor (Relógio d’Água, 2012), diz que tem um horário flexível, sendo “especialmente exigente” com os instrumentos de trabalho: “cartões pautados e lápis bem afiados mas não muito duros, com borrachas na ponta”. Marguerite Yourcenar, entrevistada por Shusha Guppy em 1987, meses antes de morrer (uma longa conversa em que muito se falou sobre homossexualidade, feminismo e a relação de Yourcenar com Grace Frick), diz que escreve em qualquer lado: “Podia escrever aqui, enquanto converso consigo. Escrever não exige demasiada energia – é um descanso, uma alegria”.

Outro exemplo (é o último). Em resposta à pergunta – “Quando soube que queria escrever”, Elizabet Bishop (cuja entrevista, feita em 1978 por Elizabeth Spires, fica na memória sobretudo pelas descrições detalhadas de objetos que guardava em casa, como a figura de proa, a vitrina emoldurada pendurada no corredor, a sandália de criança, a chupeta, as tigelas e caçarolas metálicas cheias de arroz, e pela descrição desse momento em que Bishop, a viver no Brasil, no topo de um cume montanhoso, soube que tinha ganho o Prémio Pulitzer e como não tinha com quem nem como festejar, arrancou num pacote de bolachas, marca Oreo, segundo se lembra, que encontrou na casa de um amigo e assim “festejou a conquista do prémio”), diz que quando era jovem não pensava sequer nisso, não tinha esse objetivo, assim como não tinha qualquer outro (“Receio que, na minha vida, tudo tenha simplesmente acontecido”). Iris Murdoch, pelo contrário, diz que soube desde muito cedo, desde criança, que queria ser escritora, e Joan Didion, entrevistada em 2006 por Hilton Als, responde que a ideia de ser escritora, pelo menos no início, a assustava, porque era constantemente levada a crer (pelos professores da faculdade) que “toda a gente já o tinha feito, e melhor”.

Outras perguntas, menos gerais, abordam aspetos específicos da obra e vida do autor entrevistado. Philip Roth é questionado a respeito do caráter biográfico dos seus livros (quanto dele há em Nathan Zuckerman, personagem central de vários romances seus, e vice-versa, e quanto há de verdade e fingimento no papel do escritor). E Jan Morris é levada a falar sobre a operação de mudança de sexo e de que forma isso afetou, ou não, a sua escrita. Menos pessoais, e delicadas, são as perguntas sobre a sua escrita. Jan Morris, nascida a 1926, escreve sobretudo sobre viagens e lugares. Na entrevista, que segundo Leo Lerman, o entrevistador, começou em 1989 e continuou por meio de telefonemas e cartas, Jan Morris fala sobre Veneza (o turismo, na altura, parecia-lhe estar a destruir a cidade), Pequim, Londres (“acho sempre que Londres me venceu”), e, finalmente, Chicago – a que entre as cidades do século XX “mais se aproxima do ideal de uma cidade perfeita”.

Mas estes breves fragmentos não esgotam a leitura deste segundo volume de entrevistas, bem como a leitura dos outros volumes que não estão traduzidos em português e das outras entrevistas que estão publicadas no site da Paris Review, num arquivo que vai desde 1953 (E. M. Forster foi o primeiro a ser entrevistado) a 2014 (Vivian Gornick, Michael Haneke e Karl Ove Knausgaard foram os últimos). Alguém escrevia que a Paris Review é a bíblia dos escritores e leitores. A metáfora é banal e fácil, mas não nos incomoda usá-la. Nada mesmo.