Ela transformou a tristeza em ironia e a melancolia em consolação

Em “My Woman”, lançado em setembro deste ano, Angel Olsen transformou a tristeza em ironia e a melancolia em consolação. Desta vez ela quis fazer uma coisa diferente. Desta vez podemos sorrir. Nesta semana de Natal e depois na de ano novo, escrevemos sobre 10 álbuns que fizeram de 2016 um acontecimento melhor – não é definitivamente um ranking, é certamente um roteiro.

No Livro do Eclesiastes, versículo 9 do capítulo 1, o rei Salomão, a quem é geralmente atribuída a autoria desse livro, diz: “O que foi voltará a ser, o que foi feito se fará outra vez; não há nada de novo debaixo do sol”. A frase remete para uma certa ideia de monotonia, não a que advém da ausência de distrações ou entretenimento, mas a que está associada a uma certa repetição das coisas. No caso de Angel Olsen, é difícil saber no que estava ela a pensar quando decidiu apropriar-se de parte desse versículo para escrever a letra de “Heart Shaped Face”. A única coisa que ela nos diz, nessa mesma canção – uma das dez que compõem “My Woman”, o seu mais recente álbum, lançado em setembro deste ano – é que não há nada de novo debaixo do sol “porque a dor no coração acaba e começa outra vez”.

Não se julgue, porém, que este seu quarto álbum tenha vindo ao mundo como testemunha do seu desespero. Para isso, bastaram os discos anteriores: “Strange Cacti”, “Half Way Home” e “Burn Your Fire for No Witness”. Não. Desta vez, Angel Olsen quis fazer uma coisa diferente. “Eu estou sempre muito séria e triste, mas na altura pensei – ‘E que tal se desta vez nos divertíssemos juntos um pouco?’”. A pergunta prenunciava já uma grande mudança, sobretudo para quem um dia escreveu que “tudo é trágico e tudo se desmorona”.

De peruca prateada, calças justas, casaco verde musgo e ténis All Star brancos, Angel Olsen aparece no videoclip de “Shut Up Kiss Me” ora sentada num carro ora de pé no banco de trás, com a cabeça e metade do corpo a espreitarem pelo teto de abrir. Ora sentada num bar, num banco num jardim, no tejadilho de um carro, ora debruçada num balcão e a patinar numa pista em que não há mais ninguém. No final do vídeo, Olsen ainda tem o descaramento de perguntar, dirigindo-se provavelmente para o realizador: “Então? Achas que ainda é preciso mais atitude?”.

Angel Olsen tem 29 anos e cresceu em St. Louis, no estado do Missouri. É a mais nova de uma família conservadora e religiosa de oito filhos, que a adotou quando tinha três anos. O pai era militar e a mãe trabalhava numa instituição de acolhimento de menores. Numa entrevista à Pitchfork, Olsen conta que, em criança, era muito próximo da mãe, mas com a adolescência e a entrada na vida adulta a relação entre as duas esfriou, por terem opiniões diferentes em relação a quase tudo na vida, nomeadamente no que diz respeito a assuntos políticos. A situação entristece-a. “Não quero ela desapareça e que a nossa última conversa tenha sido sobre o facto de Trump ser ou não sexista”, diz na mesma entrevista (Olsen era pró-Bernie, mas nas eleições votou em Hillary Clinton). Trocar St. Louis por Chicago aos 20 anos foi muito importante para a cantora, que sempre teve a ambição de sair da sua “concha”: “Se eu não tivesse deixado St. Louis nessa altura, hoje provavelmente ainda estaria lá, a trabalhar numa mercearia e a fumar cigarros e pouco mais. Assustava-me toda aquela depressão. Ainda hoje me assusta”. Pouco tempo depois, Bonnie “Prince” Billy (Will Oldham) convidava-a para tocar na sua banda. Foi assim que tudo começou. Angel Olsen vive atualmente em Asheville, na Carolina do Norte.

Além de revelar uma mudança de atitude, “My Woman” é um álbum mais despreocupado e descomprometido, mais pop, se quisermos, acidentalmente pop. “Não importa quem tu és ou o aquilo que fazes, vai sempre haver alguém no mundo que diz mal de ti. Não quero saber o que os jornais dizem… Só quero estar viva e fazer alguma coisa real”, canta Olsen em “Intern”, canção que lhe tem valido algumas comparações com Lana del Rey pela forma como canta e coloca a voz, pulsante e grave. Mas “My Woman” está longe, no entanto, de ser um álbum alegre. Tem até um lado – “lado B”, conforme ela própria o designou – que é para ser ouvido “quando tudo à nossa volta começa a abrandar e queremos refletir”, em oposição ao “lado A”, mais “acelerado e frenético”, próprio para quem está a ter “um dia animado”.

Nesse lado B estão incluídas canções como “Sister”, “Those Were the Days”, “Woman”, “Pops” e, claro, “Heart Shaped Face”. Canções que falam sobre temas como o amor, a perda e a frustração. Sobre o amor que sentem aqueles “que querem ver-se a todo o instante”, nos dias “em que já não há nada a perder nem a descobrir”, porque o mais importante já foi descoberto. Sobre a perda que é ter amado e ao mesmo tempo aprendido a “virar a cabeça e a ir embora”. E sobre a frustração de se saber que não há nada de novo debaixo do sol, porque a dor no coração acaba e começa outra vez e isso não vai mudar nunca.

Artigo publicado no jornal Expresso a 20 de dezembro de 2016.

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