E agora, Trump?

Durante a campanha eleitoral, os candidatos ora fugiram a sete pés ora responderam de forma ambígua ao tema. Agora que há um vencedor e os EUA têm um novo presidente, já não há muito por onde escapar. A questão é só uma: que consequências poderá ter a vitória de Donald Trump para a Síria?

Donald Trump foi eleito Presidente dos Estados Unidos, mas aquilo que ele espera dos EUA ou o que os EUA devem esperar dele continua a ser um segredo bem guardado. É verdade que sabemos, hoje, mais do que sabíamos no dia que ele conquistou o apoio de 306 delegados no Colégio Eleitoral norte-americano e assegurou a vitória nas eleições presidenciais, mas aquilo que sabemos continua a não ser suficiente. No caso da Síria, talvez Kristyan Benedict, coordenador de campanhas da Amnistia Internacional no Reino Unido, entrevistado pelo Expresso, tenha mesmo razão e seja demasiado cedo para se perceber o que irá Trump fazer. Talvez a sua estratégia não “seja ainda suficientemente clara”, independentemente de ser cedo ou tarde, como diz Hossam Abouzahr, especialista do Atlantic Council, think tank sediado em Washington. Mas há já algumas pistas que podem ajudar a responder a isto.

Ainda antes de ser eleito, Trump disse numa entrevista à Reuters que, para si, era mais prioritário combater o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) do que afastar o Presidente sírio Bashar al-Assad do poder. “Em comparação com o ISIS, Assad é secundário”. No segundo debate presidencial com Hillary Clinton, que decorreu em St. Louis, no estado do Missouri (um dos 29 estados norte-americanos que preferiu o magnata à ex-candidata democrata), Trump disse: “Eu não gosto do Assad, mas o Assad está a matar o ISIS. A Rússia está a matar o ISIS. E o Irão está a matar o ISIS. E estes três países estão agora alinhados devido ao fracasso da nossa política externa”. Apesar destas referências, o conflito na Síria foi aflorado só muito ao de leve durante a campanha eleitoral. Hillary Clinton prometeu uma ação mais efetiva no país, pela criação de zonas de proteção e exclusão aéreas “negociadas” para “salvar vidas e acelerar o fim do conflito”. Consideradas operações de alto risco, as “no-fly zones” apresentam muitos riscos, não sendo consideradas uma alternativa válida por alguns especialistas, mas sobre isso não falou a ex-candidata democrata. Às propostas de Hillary, Trump respondeu com um certo desdém, como o fizera noutras circunstâncias, lançando previsões catastrofistas para semear o medo entre a população, estratégia que ele, como poucos, tão bem conhece. “Os planos de Hillary para a Síria vão conduzir a uma terceira guerra mundial”, disse.

No encontro na semana passada com repórteres, editores e colunistas do “New York Times”, na redação do jornal em Nova Iorque, com quem conversou durante mais de uma hora on the record, Trump disse encarar a situação na Síria “de uma forma que mais ninguém encara”. Que forma é essa, não soube ou não quis explicar, mas o facto de ter mencionado o nome do senador republicano Lindsey Graham para demarcar a sua posição – senador esse que em tempos propôs que os EUA reforçassem o apoio a determinados grupos da oposição síria, defendessem os civis e confrontassem a Rússia e o regime sírio – revela bem que perspectiva especial é esta que Trump tem da situação na Síria.

Na semana passada, soube-se pelo “Wall Street Journal” que Trump se encontrou em outubro, em Paris, com Randa Kassis, uma deputada síria muito próxima do regime – é defensora de um governo de transição na Síria que inclua Assad – e da Rússia, que diz ter tomado a iniciativa de intervir no conflito civil apenas “para salvar o país”. “O problema é que vocês não conhecem a Rússia, não compreendem a Rússia… limitam-se a acusar os russos de estarem contra a oposição. Mas vocês precisam de compreendê-los”, disse a deputada numa entrevista recente à Al-Jazeera. Não se conhece o conteúdo da sua conversa com Trump, mas saber-se que os dois se encontraram é já suficientemente esclarecedor.

Aspetos que vão definir a estratégia de Trump para a Síria

Embora afirme que a estratégia de Trump para o país “não seja ainda suficientemente clara”, Hossam Abouzahr diz que há alguns aspectos que vão “provavelmente defini-la”. “Donald Trump parece mais focado em assuntos internos” – apesar de ter informalmente definido como prioridade o combate ao Daesh na Síria – e pode, por isso, “não estar disposto a canalizar recursos para resolver assuntos relacionados com a política externa do país, como o pouco popular envolvimento dos EUA na guerra da Síria”.

O especialista em Políticas Públicas e em assuntos do Médio Oriente diz ainda que é preciso ter em conta “a influência da equipa” de Trump em qualquer decisão que venha a ser tomada por ele. Um dos membros que a irá integrar é Michael Flynn, que foi convidado a assumir o cargo de conselheiro de segurança nacional. Ex-chefe dos serviços secretos do Exército norte-americano, Flynn é conhecido pela sua retórica anti-islão – ao qual se referiu, durante a campanha eleitoral, como sendo “um cancro perigoso que existe no corpo de 1,7 biliões de pessoas e que tem de ser extirpado” – e devaneios mais ou menos xenófobos, além da sua grande proximidade a Vladimir Putin. “O novo conselheiro de segurança nacional ama tanta a Rússia quanto o seu chefe”, titulou o site Vox recentemente. Michael Flynn manteve-se ao lado de Trump durante toda a campanha, mesmo quando outros republicanos, cheios de escrúpulos, quiseram afastar-se, e apoiou a sugestão do atual presidente dos EUA de prender Hillary Clinton por ter usado um servidor de e-mail privado durante os quatro anos em que foi chefe da diplomacia dos EUA. A escolha de Flynn sugere que há um interesse em lidar com questões de segurança atuais, “mais do que atingir objetivos de longo prazo”, diz Abouzahr.

O especialista antevê, apesar disso, “alguns desentendimentos” entre Donald Trump e a sua equipa. “No segundo debate presidencial, Trump disse que discordava de Mike Pence [vice-presidente eleito] em relação ao uso de força militar contra Bashar al-Assad e criticou os esforços do país de armar os rebeldes da oposição”. Trump, diz Abouzahr, “terá de optar entre a sua glorificação da Rússia e as críticas ao Irão”. Tanto Moscovo como Teerão atuam na Síria como cúmplices do regime de Bashar al-Assad, ao apoiar as tropas do Exército sírio que combatem o Daesh e as forças da oposição. Rami G. Khouri, investigador do Issam Fares Institute na Universidade Americana de Beirut, chama a atenção precisamente para este aspecto num artigo publicado na Al-Jazeera. “O que ainda não é claro é como é que Trump “vai conciliar a iniciativa de, por um lado, manter Assad no poder, que seria aplaudida pelo Irão, e, por outro lado, renegociar o acordo nuclear assinado com este país, e a iniciativa de manter Assad no poder face à posição de aliados regionais como a Turquia, a Jordânia e maior parte dos países árabes do golfo, que querem ver o Presidente sírio afastado de uma vez por todas do governo”.

O regresso da tortura às prisões norte-americanas pode acontecer

Outro dos nomes escolhidos por Trump para integrar a sua equipa, e que tem gerado alguma polémica e muitas preocupações, é o de Mike Pompeo, que foi convidado a assumir o cargo de diretor da CIA. Membro do movimento ultraconservador Tea Party e eleito para o congresso pelo estado do Kansas, Pompeo é a favor da reintrodução de métodos de tortura em interrogatórios com suspeitos de terrorismo – como o “waterboarding” e a alimentação retal, a que a agência norte-americana recorreu no passado – e é contra o encerramento das instalações da prisão de Guantánamo, onde ainda se encontram 60 homens detidos, 20 deles em condições de serem libertados.

Kristyan Benedict, coordenador de campanhas da Amnistia Internacional no Reino Unido, vê esta escolha com muita preocupação. “O próprio Trump prometeu, durante a campanha eleitoral, reintroduzir essas técnicas. Se podemos estar prestes a assistir ao regresso da tortura sistemática e em grande escala nas prisões norte-americanas? Pois claro que podemos”, diz.

Do mesmo modo que Mike Pompeo tem sido um forte crítico de Barack Obama e do Pentágono, também Kathleen Troia McFarland, escolhida para vice-conselheira para a segurança nacional, criticou inúmeras vezes o ex-presidente dos EUA e as suas políticas externas e estratégia de contraterrorismo. “K.T.” McFarland serviu em anteriores administrações republicanas nos anos 1970 e 1980 (Richard Nixon, Gerald Ford e Ronald Reagan) e é atualmente comentadora no canal Fox News. “Ninguém acha que a política externa americana dos últimos 15 anos foi um sucesso. Os nossos adversários, e até alguns dos nossos aliados, acham que nós estamos ultrapassados, mergulhados na decadência, na auto-indulgência e numa auto-suficiência presunçosa”, disse recentemente”. A sua escolha, assim como a de Michael Flynn, irá definir a futura política externa dos EUA e, em particular, o futuro da Síria.

Embora reconheça que ainda é cedo para se perceber o que significará para a Síria a vitória de Donald Trump, Kristyan Benedict antecipa alguns cenários. Se os EUA alinharem, de facto, com a Rússia, subscrevendo o seu plano estratégico de ação na Síria, “podemos esperar um agravar do conflito civil, com mais sofrimento e mais civis mortos”. Podemos também esperar um perdão pela calada ou um virar de olhos ou até alguma cumplicidade “face aos crimes contra a humanidade que Bashar al-Assad tem cometido”, bem como “o aumento do número de civis mortos em ataques norte-americanos”.

Apoio dos EUA a grupos moderados da oposição em risco

Em Alepo, cidade no norte da Síria, onde a situação é particularmente grave, “teme-se que haja uma escalada do conflito” e que aumentem os ataques aéreos e bombardeamentos, seja na zona este da cidade, ainda nas mãos, embora não se saiba bem por quanto tempo mais, da oposição, seja na zona oeste, controlada pelo regime. “As forças do regime, com o apoio de Moscovo, violaram sistematicamente a lei humanitária internacional no leste de Alepo e um pouco por toda a Síria, matando milhares de civis. Os grupos armados, por outro lado, bombardearam civis de forma indiscriminada na zona oeste da cidade e noutras regiões. Se considerarmos o que Trump disse em relação às leis da guerra  – que são ‘problemáticas’ – então é bem difícil imaginá-lo a fazer o que quer que seja para proteger a população síria”.

Na Síria, uma das primeiras reações à vitória de Trump nas eleições norte-americanas veio da Coligação Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias, uma formação moderada que defende a destituição de Bashar al-Assad. Em declarações à Reuters, o líder da coligação Anas al-Abdah disse que Trump “tem a vontade e a liderança para reafirmar a liderança norte-americana na Síria”, ao contrário de Barack Obama, cuja estratégia de não intervenção no conflito “permitiu à Rússia agir com impunidade”.

Hossam Abouzahr contextualiza estas palavras. “Embora a oposição esteja preocupação com a vitória de Trump, há uma sensação de alívio por Barack Obama deixar a Casa Branca. No geral, as forças da oposição sentem que o antigo presidente dos EUA não foi capaz de cumprir as promessas que fez nem de garantir a sua proteção face à ação do Governo sírio e da forças militares iranianas e russas”. Mas também aqui Donald Trump pode não corresponder àquilo que alguns grupos da oposição moderada esperam dele. “O mais provável é que ele lhes feche a porta”, diz o especialista do Atlantic Council, relembrando que Trump “criticou muitas vezes apoio dos EUA a estes grupos”, ao mesmo tempo que desvaloriza as acusações de que a Rússia e o regime sírio estariam não só a atacar posições jiadistas, como também a atingir civis na zona este da cidade de Alepo. “Sem o apoio dos EUA, estas forças nacionalistas moderadas vão ficar mais vulneráveis, o que beneficiará os grupos islamitas e jiadistas, que podem passar a ser encarados como uma alternativa mais segura para garantir a proteção dos civis”.

Se na Síria se espera um agravar do conflito, na Europa a vitória de Donald Trump também não parece augurar nada de bom.  Hossam Abouzahr diz que se o atual Presidente dos EUA decidir mesmo alinhar com o regime sírio e Moscovo, “podemos esperar uma série de consequências negativas não só para a região, como em termos globais”. Como um agravar da postura da Rússia em relação à Ucrânia, já de si muito agressiva, e um exacerbar da crise de refugiados, que na Europa, em particular, terá um efeito que há muito deixou de ser difícil prever: mais xenofobia, mais racismo e mais movimentos de extrema-direita.

Publicado no Expresso Diário a 3 de dezembro de 2016.

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