“Diário de Guantánamo”. Um quotidiano de humilhação, tortura e dor

Donna F. Aceto

Mohamedou Ould Slahi, detido em Guantánamo desde 5 de agosto de 2002, escreveu um diário entre o verão e o outono de 2005. Sete anos depois, os seus advogados conseguiram finalmente autorização para divulgá-lo. Foi publicado no início deste ano, com edição, introdução e notas de Larry Siems, escritor e ativista dos direitos humanos, que durante muitos anos dirigiu o Freedom to Write Program da PEN American Center. Mais de 2500 linhas do diário foram censuradas e assinaladas com barras pretas pelo Governo americano.

“Diário de Guantánamo” relata um quotidiano de humilhações, insultos e tortura às mãos de guardas e interrogadores. Ao fim de 13 anos, Mohamedou continua detido sem que alguma vez tenha sido acusado. Os próprios procuradores de Guantánamo consideraram que as suas confissões, obtidas sob tortura ou em consequência desta, não tinham valor. Em 2010, um juiz federal norte-americano ordenou a sua libertação, mas o Governo dos Estados Unidos interpôs um recurso e, desde então, o processo tem vindo a arrastar-se.

Nascido em dezembro de 1970 numa pequena cidade na Mauritânia, Mohamedou, descrito numa reportagem de 2008 no “Der Spiegel” como um “miúdo popular”, com gosto pelo futebol, sobretudo pela seleção alemã, foi viver para a Alemanha aos 18 anos, depois de ter conseguido uma bolsa para estudar no país. Inscreveu-se no curso de Engenharia Eletrónica, que interrompeu pouco tempo depois para se juntar à insurreição contra o governo de fação comunista no Afeganistão.

Como era necessário ter treino para apoiar a causa, Mohamedou frequentou um campo de treino e fez um juramento de lealdade à Al-Qaeda, da qual viria a afastar-se depois, por ter deixado de se identificar com a organização, como conta no seu diário. Apesar do afastamento, Mohamedou continuará a manter contacto com alguns companheiros no Afeganistão, muitos dos quais ligados à Al-Qaeda.

Regressa à Alemanha, termina o curso e ali vive durante a maior parte da década de 90. Quando o visto de residência no país lhe é negado, parte para o Canadá, onde permanece durante alguns meses. Ao regressar à Mauritânia, para se juntar à família, é detido duas vezes a mando dos Estados Unidos, que suspeitam do seu envolvimento no chamado Plano do Milénio para bombardear o aeroporto de Los Angeles. É libertado e depois outra vez detido, interrogado e libertado. Ainda nesse ano de 2001, é novamente interrogado e levado da Mauritânia para uma prisão em Amã, na Jordânia, onde permanece durante cerca de sete meses para ser interrogado.

Da Jordânia é levado despido, agrilhoado, com uma fralda e uma venda nos olhos para a Base Aérea do Exército dos EUA em Bagram, no Afeganistão e, finalmente, para a base naval de Guantánamo. Na primeira parte do diário, onde são relatados os acontecimentos na prisão no Afeganistão, Mohamedou escreve: “*** passava pela nossa cela, eu desviava o olhar, evitando vê-lo para que ele não me visse, tal como uma avestruz. *** vistoriava toda a gente, de dia e de noite, e dava aos guardas a receita para cada recluso. Vi-o torturar outro detido. Não quero relatar o que ouvi sobre ele; quero apenas falar do que vi com os meus olhos”.

O seu trabalho tem-se focado sobretudo nas práticas de tortura e outros abusos praticados pela CIA após o 11 de setembro de 2001. Entre os vários documentos a que tem tido acesso, porque decidiu editar o diário de Mohamedou Ould Slahi?
O diário de Mohamedou distingue-se claramente de outros textos que conheço sobre o tema. Distingue-se pela voz de Mohamedou, pelo que ele é enquanto escritor e pessoa, e isso reflete-se na sua história e na forma como a conta. Embora não seja um escritor profissional, imagino que antes de ser detido já fosse um grande leitor. Mohamedou sabe muito sobre literatura e sobre como contar bem uma história. Fá-lo da mesma forma que todos os grandes escritores fazem, usando a informação recolhida pelos cinco sentidos. Ao lê-lo, consegue-se ouvir e cheirar e sentir coisas. Ele é extremamente sensível fisicamente ao calor e, em particular, ao frio. Isso percebe-se, por exemplo, quando descreve aquelas situações em que ele e outros prisioneiros são atirados para espaços minúsculos e fechados ali; Mohamedou fala sobre como é confortável sentir outros corpos junto ao seu, ter outras pessoas perto de si. Essas descrições são absolutamente comoventes. Uma das situações que mais me impressionou quando li o manuscrito pela primeira vez é aquela em que ele e outros 33 prisioneiros, à chegada à base naval de Guantánamo, são puxados para fora do avião pelos guardas no local, que lhes gritam várias ordens: “Senta-te!”, “Cruza as pernas!”, “Cabeça baixa!”. Há um guarda que diz “Nada de falar”, enquanto outro grita “Não falem”. E Mohamedou, no meio disto tudo, deste sofrimento terrível, pára e põe-se a pensar por que razão estariam os guardas a dar a mesma ordem, mas de forma diferente. Isso é muito interessante. Mohamedou é extremamente curioso. Está sempre atento, a tentar perceber o que está a acontecer à volta dele. Esse é um dos aspetos que torna este livro especial.

Como é que teve acesso ao manuscrito do diário de Mohamedou?
Entre 2009 e 2012, colaborei com a União Americana para as Liberdades Civis [ACLU, na sigla original] num projeto chamado “The Torture Report”. A ACLU conseguira ter acesso a uma série de documentos até ali tidos como confidenciais sobre os detidos em Guantánamo e noutras prisões no Iraque e no Afeganistão. No total, eram cerca de 140 mil documentos da CIA, do Exército americano e do Departamento de Justiça (incluindo o FBI), e neles eram revelados pormenores dos abusos cometidos contra prisioneiros sob custódia dos Estados Unidos durante a chamada “guerra ao terror”. A ACLU sabia que tinha em mãos uma quantidade enorme de documentos que precisavam de ser organizados, de modo a que o público percebesse o que estava realmente em causa. Perguntaram-me se, enquanto escritor, queria avaliar os documentos e contar as várias histórias que ali eram contadas, recriando-as com base nos documentos. Durante quatro anos, mantivemos um site [http://www.thetorturereport.org/] onde contávamos essas histórias, que, mais tarde, haveria de dar origem a um livro [“The Torture Report: What the Documents Say about America’s Post-9/11 Torture Program]. Uma delas era a de Mohamedou, que foi um dos detidos submetidos ao “Plano Especial de Interrogação”, que foi assinado em 2002 pelo então secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e autorizava métodos de interrogação mais extremos. Mohamedou descreve os abusos a que foi submetido, desde isolação, privação de sono, tortura e ameaças, à obrigação de permanecer em salas com temperaturas muito baixas. Entre os relatórios dos seus vários interrogatórios encontrei algumas gravações em que se ouvia a voz dele. Percebi, entre outras coisas, que Mohamedou dava muita importância aos detalhes, e que tinha muito sentido de humor.

Mohamedou escreveu o diário em inglês, a sua quarta língua, adquirida sobretudo enquanto prisioneiro dos Estados Unidos. No entanto, ele não domina a língua. Que tipo de alterações foram feitas ao texto original?
Quando o manuscrito me veio parar às mãos, pediram-me para editá-lo de modo a transmitir fielmente o conteúdo e a respeitar o original, porque era esse o desejo de Mohamedou. Eu assumi essa responsabilidade e fiz aquilo que gostaria que qualquer editor fizesse por mim. Corrigi erros gramaticais óbvios e regularizei alguns tempos verbais. Também comecei por eliminar muitas coisas, mas depois percebi que quanto menos interviesse no original, melhor, já que Mohamedou estava quase sempre certo. Ou seja, as coisas tinham acontecido exatamente como ele as tinha contado. Demorei três, quatro meses, a fazer a primeira edição, e cerca de um ano a desfazer essas minhas alterações iniciais, aproximando-me cada vez mais do original. Descobri que havia uma série de coisas que me tinham escapado ou às quais não tinha dado importância, precisamente por não ter confiado nele logo no início.

Consegue dar um exemplo?
Mohamedou descreve uma cena em que ele está a ser assediado sexualmente por uma interrogadora e por causa disso recusa-se a comer. No fundo, era uma forma de ele ter algum controlo sobre o seu corpo. Há um interrogador que está a observar tudo a partir de outra sala [sala de monitorização] e quando Mohamedou ameaça entrar em greve de fome, esse interrogador entra de rompante na sala em que decorre o interrogatório e diz a Mohamedou que isso não os assusta e que ele não vai morrer nem deixar de comer porque, e era assim que se lia no original, “We’re gonna feed you up to your ass”. Na altura, eu não percebi o que ele queria dizer com esta frase, mas depois lembrei-me de ele ter escrito mais à frente que para ele as proposições em inglês eram muito difíceis. Então, optei por retirar o “to”, para que a frase fizesse sentido, lendo-se, portanto, “Tu não vais deixar de comer porque nós vamos enfiar-te a comida pelo rabo”. O editor da Slate [Slate Magazine, revista na qual foram publicados alguns excertos do diário antes de este ter sido publicado] disse-me que eu provavelmente estava enganado, porque os interrogadores não faziam isso, mas eu mantive como estava, sem o “to”. Um mês depois de o diário ter sido publicado, foi divulgado um relatório sobre os abusos a que foram submetidos os detidos em instalações secretas da CIA e nesse relatório fica-se a saber, pela primeira vez, que uma das técnicas de tortura usadas era a da “reidratação anal”, que consistia precisamente em alimentar os prisioneiros por via anal. Mohamedou não estava a mentir.

Os primeiros eventos narrados no diário datam de julho de 2002, mas Mohamedou só começou a escrevê-lo no verão de 2005. Como explica que ele tenha conseguido contar a sua história com tantos detalhes, incluindo diálogos longos, sem a falsear?
Um dos aspetos mais extraordinários deste diário é precisamente o rigor da escrita e a atenção ao detalhe, tanto na descrição das pessoas e acontecimentos, como nos diálogos. E isso acaba por nos dar algumas pistas sobre o próprio Mohamedou. Sendo filho [o nono de 12 irmãos] de um negociante de camelos nómada, sempre foi um aluno excecional, tendo, aliás, conseguido uma bolsa para estudar na Alemanha. Em criança, já sabia o Corão de cor. Aprendeu a falar quatro línguas, árabe, francês, alemão e inglês, e não só parece ter uma grande facilidade para aprender línguas, como estas o fascinam. Uma das partes mais interessantes do diário é aquela em que ele conta como melhorou muito o seu inglês ao falar com os guardas e com os interrogadores. Mohamedou tem um ouvido incrível e está sempre a acompanhar e a questionar tudo. A certa altura, ele refere no diário que está a ler o “Catcher in the Rye” [J. D. Salinger], que é um livro que depende sobretudo da voz e que exige uma leitura atenta para se conseguir compreender quem é afinal aquele miúdo, o Holden Caulfield, e Mohamedou não só lê o livro em inglês, como consegue perceber o quão divertida, irónica e complexa é aquela voz.

Quando Barack Obama foi eleito, em 2009, anunciou que ia fechar Guantánmo durante o primeiro ano do seu mandato. Sete anos depois, a prisão continua aberta. Que obstáculos enfrenta o Presidente?
Encerrar Guantánamo exige, antes de mais, que se reconheça publicamente que foram cometidos crimes atrozes lá. Posto de outra forma, acho que a prisão continua aberta porque há forças institucionais muito poderosas no Exército norte-americano, Pentágono e CIA que têm evitado a todo o custo assumir os seus erros e tornar públicos os mais terríveis segredos. Um desses erros foi precisamente a detenção de Mohamedou, já que depois se veio a perceber na prisão que ele não era quem a CIA julgava que era, e mesmo assim foi muito maltratado. Tanto em Guantánamo como noutras prisões no Iraque e no Afeganistão, houve claramente uma violação da leis americanas e internacionais. Dou um exemplo: os 14 prisioneiros que receberam o tratamento mais extremo nas prisões secretas da CIA, e que estão agora detidos em Guantánamo, só no verão deste ano é que viram os seus depoimentos sobre a tortura a que foram submetidos numa dessas prisões deixar de estar protegidos pelo segredo de Estado. Jornalistas, escritores e outros investigadores continuam impedidos de falar diretamente com os detidos. Mantê-los em Guantánamo, sem qualquer contacto com o exterior, evita, portanto, que se venha a saber tudo o que aconteceu lá e que os responsáveis pelos crimes venham a ser penalizados. Apesar disso, já toda a gente percebeu que a prisão deve fechar, incluindo antigos generais e almirantes, e antigos funcionários federais do país. O serviço que presta pode perfeitamente ser prestado, e melhor, por outras prisões. Além disso, é um falhanço em termos estratégicos; cada prisioneiro custa cerca de 3 milhões de dólares por ano ao Governo americano. A meu ver, Guantánamo é o símbolo para o mundo da tendência dos Estados Unidos para manipular e quebrar as regras quando é conveniente para os Estados Unidos.

No entanto, o Congresso tem sido apontado como o principal obstáculo ao encerramento da prisão.
Eu associo o Congresso a nós. Todos os seus membros foram escolhidos por eleição direta. As pessoas acusam Obama de ainda não ter fechado Guantánamo e Obama aponta o dedo ao Congresso. Mas se se perguntar a todos os membros do Congresso o que pensam verdadeiramente, eles dirão, se forem absolutamente honestos, que não votam a favor do encerramento da prisão porque têm medo de vir a perder o emprego nas eleições seguintes. Isto tem a ver connosco, portanto, com a população americana. E até hoje a população americana não disse ao Governo que o que aconteceu e tem acontecido em Guantánamo é inaceitável, que não representa aquilo que os americanos são, e que não faz dos Estados Unidos um lugar mais seguro. Os Estados Unidos não são um país muito dado à auto-reflexão e à discussão pública de assuntos como este, e isso, muitas vezes, é confundido com indiferença.

Em 2011, Obama assinou um documento que, em parte, impunha restrições à transferência de prisioneiros para território americano e outros países. Terá isto contribuído para arrastar o processo? Deverá Obama também ser responsabilizado?
Acho que todos somos responsáveis. Uma das mais questões mais interessantes que a literatura de países que estão a sair de uma situação de abuso dos direitos humanos levanta é a questão da cumplicidade. Quando alguém comete um crime, há um grupo de pessoas que apoia e encobre esse crime e há um grupo maior que, não estando diretamente envolvido, nada faz contra isso, e há outro grupo ainda maior, que é o público, que opta por desviar o olhar. Se um membro do Congresso acredita que ao fechar Guantánamo está a arriscar não ser reeleito, então o que nós deveríamos dizer-lhe é que ao não fechar é que está verdadeiramente a arriscar não ser reeleito. Acredito verdadeiramente que Obama sempre quis fechar Guantánamo e continua a querer, mas que tem sido permanentemente impedido de o fazer. Apesar disso, acho que cometeu um erro enorme ao ter dito, quando foi eleito, que é preciso “olhar para frente, não para trás”. E que não ia haver um processo de responsabilização nem ninguém seria acusado. Não se pode ter uma coisa sem a outra, não se pode encerrar Guantánamo sem responsabilizar os culpados. Guatánamo guarda os segredos mais sujos, e esses segredos têm de ser conhecidos, ainda que haja instituições pouco interessadas nisso. A CIA é um exemplo óbvio. Foram precisos dois anos para que o Comité de Serviços Secretos do Senado conseguisse divulgar o sumário executivo do conhecido relatório de cerca de 5000 páginas sobre a tortura nas prisões secretas da CIA. Dois anos. Quem é a CIA para fazer isso? Supostamente, o Senado tem autoridade suficiente para supervisionar a CIA.

Que medidas poderiam ter sido tomadas por Obama para acelerar o processo de encerramento?
Acho que o diário de Mohamedou nos dá várias pistas sobre disso. Diria até que oferece a solução, no sentido em que é um manual perfeito do que não deve ser feito ou, dito de outra forma, é o guia perfeito para fazer tudo errado. A minha sugestão é que aprendamos a partir dele. Que aprendamos com a generosidade e a empatia e o sentimento de perdão que Mohamedou revela e fazer a única coisa que ele nos pede para fazer no seu diário, que é garantir que cada pessoa é tratada de uma forma justa. Isto é, que seja dada a cada pessoa a oportunidade de saber de que crimes é acusada, que provas existem contra si, e de provar a sua inocência. São passos básicos. Em 2011, Obama anunciou que o Conselho de Análise Administrativa [Administrative Review Board, em inglês; organismo militar do Exército dos EUA que realiza uma análise anual aos detidos em Guantánamo e determina se eles representam uma ameaça] ia ser reestruturado e que todos os prisioneiros seriam avaliados. Na altura, estavam detidos entre 150 a 160 prisioneiros e desses apenas 20 tiveram direito a uma avaliação num período de tempo de quatro anos. Acho que cada caso deve ser avaliado individualmente; saber quem é aquele detido, que acusações recaem sobre si e apresentar provas. Acho que o encerramento de Guantánamo é possível, apesar de não saber se Obama vai ou não conseguir fazê-lo. Errado é afirmar que se trata de uma questão complicada, porque é exatamente nesse momento que se perde a luta. Estamos a falar de seres humanos, de homens que acordam todos os dias em Guantánamo e não deviam estar lá. 50 dos atuais 114 prisioneiros já deviam ter sido libertados há quatro, cinco anos, quando foi ordenada a sua libertação, e continuam detidos. Somos um país do primeiro mundo e, no entanto, permitimos que isto aconteça. Temos seriamente de repensar as histórias que contamos sobre nós próprios.

Que margem de manobra tem Obama para fechar Guantánamo?
Tem sido dada muita atenção à relação entre Obama o Secretário da defesa, Ash Carter, e o grande drama de que a imprensa tem falado é que, de acordo com a forma como as coisas estão estruturadas, é Ash Carter que tem de assinar os documentos a autorizar a libertação de prisioneiros, e ele, segundo a imprensa americana, não o tem feito, apesar de Obama o estar a presssionar. O antigo Secretário da defesa, Chuck Hagel, foi substituído precisamente por causa da sua relutância em assinar pedidos de libertação. Se quem o veio substituir revela a mesma atitude, então isso sugere que Obama tem uma margem de manobra muito pequena e suscita muitas dúvidas a respeito do seu poder efetivo para forçar o Pentágono a respeitar a sua vontade enquanto presidente. Por outro lado, ouço muitas pessoas dizerem que essa é a narrativa que convém à Administração Obama, porque Obama na realidade não está a forçar como diz estar. As pessoas acham mesmo que ele em público diz uma coisa e em privado diz outra. A minha impressão é a de que ele é consistente em público e em privado, e que há forças institucionais muito resistentes. Apesar disso, acho que tem mais margem de manobra do que aquela que está a aproveitar. Será interessante ver o que ele fará nos próximos meses até às eleições. Há um consenso amplo, relativamente público, de que Guantánamo foi um desastre. E tanto os republicanos como os democratas candidatos à presidência ou ao Congresso não vão querer que esse desastre lhes caia em cima. Mesmo aqueles que agora se dizem contra o encerramento, provavelmente vão mudar de opinião nos próximos seis meses, porque hão de pensar: “Bem, aqui está um tipo que vai fazê-lo e que está disposto a arcar com as consequências, por isso nós não teremos de nos preocupar com isso durante dois anos. Ok, vamos protestar muito mas, na verdade, não vamos fazer nada para evitar isso”. É isso tipo de margem de manobra que Obama tem.

Dos 780 prisioneiros que Guantánamo chegou a ter, foram libertados 664, a maior parte durante a Administração Bush. O que espera a este prisioneiros quando deixam Guantánamo?
Essa é uma pergunta interessante. Alguns desses ex-prisioneiros foram transferidos para países com os quais não tinham qualquer ligação; não falavam a língua nativa nem tinham as suas famílias por perto. É quase como se eu ou tu fôssemos obrigados a ir viver para Marte. Soube há algum tempo que o grupo de prisioneiros que foi transferido para o Uruguai nem sequer podia rezar porque não havia uma única mesquista no país. Eram obrigados a ir à Argentina para poderem fazê-lo. De resto, esses acordos estranhos que os Estados Unidos têm feito com outros países de modo a que estes venham a acolher ex-prisioneiros não servem senão para encobrir os nossos erros e resolver os problemas que nós criámos. Quanto a Mohamedou, acho que lhe devia ser permitido regressar a casa assim que for libertado. A família precisa dele. Durante muito tempo, foi ele que praticamente a sustentou. A sua mãe morreu há cerca de dois anos. Tenho todas as razões para acreditar que Mohamedou terá um futuro magnífico fora de Guantánamo, precisamente por ser quem é. E não sou o único a dizê-lo. Um dos homens que liderou os seus interrogatórios em Guantánamo disse em várias entrevistas que achava que quando Mohamedou saísse da prisão ia ser Presidente de Mauritânia. Sinceramente, acho que se Mohamedou não fosse a pessoa que é – um comunicador fantástico e com grande carisma – provavelmente já teria sido libertado há seis ou sete anos.

De acordo com uma sondagem Huffington Post/YouGov deste ano, metade dos americanos querem que a prisão de Guantánamo continue aberta, enquanto 28% são a favor do seu encerramento e 21% não têm a certeza. Outras sondagens revelam que o número de pessoas que “aceita a tortura como elemento necessário da luta contra o terrorismo” subiu entre 2012 e 2014. Tem alguma explicação para isto?
Acho que os americanos não sabem o suficiente; basicamente adotaram desde o início a atitude de olhar para o lado. Na altura, a Aministração Bush disse que ia fazer algumas coisas más, mas necessárias, e então as pessoas decidiram simplesmente desviar o olhar. Quando Bush foi reeleito em 2004, já havia fotografias da prisão de Abu Ghraib, no Afeganistão, e já toda a gente sabia que a CIA usava prisões secretas para torturar prisioneiros. A imprensa já tinha dado atenção a tudo isto, mas ainda assim ele foi reeleito. Por outro lado, a narrativa oficial foi sempre a de que os prisioneiros detidos em Guantánamo “eram os piores dos piores”, e as pessoas sempre acharam que era demasiado perigoso pô-los em prisões nos Estados Unidos porque eles são tão perigosos que se forem para uma prisão normal vão acabar por, sei lá, derreter as barras da cela com os seus olhos raio-x. Apesar disso, parece-me que as coisas estão a mudar. Cerca de 3 milhões de homens e mulheres que estiveram a servir no Iraque e no Afeganistão regressaram a casa nos últimos dois anos ou estão a regressar. E muitos deles voltam com uma história que é bem diferente da histórias oficiais de glória que o público conhece. Acho que a forma como as pessoas encaram algumas ações militares americanas tem vindo a alterar-se. Não é que isso seja óbvio, mas é a ideia com que fico ao falar com determinadas pessoas. Em 2009 e 2010, deviam ter sido realizadas audiências sobre a tortura em Guantánamo, no Iraque e no Afeganistão. Os prisioneiros deviam ter sido ouvidos. Os guardas e os interrogadores, que também sofreram por terem de fazer aquelas coisas, deviam ter sido ouvidos. E aqueles que autorizaram que isto acontecesse deviam ter sido postos em frente a uma câmara a perdir perdão. Se isso tivesse acontecido, todos os americanos seriam hoje a favor do encerramento de Guantánamo.

Depois de ter sido recentemente considerada a hipótese de os prisioneiros serem transferidos para duas prisões nos Estados Unidos, uma no estado do Kansas e outra na Carolina do Sul, governadores e população revelaram-se contra este plano invocando razões de segurança. Qual é a sua opinião sobre estes receios?
É óbvio que o medo faz parte da história da criação de Guantánamo; havia esta ideia de que era necessário haver um sítio, uma ilha algures, para isolar os prisioneiros. E é óbvio que também faz parte da sua dinâmica, já que temos medo dos prisioneiros. Por isso, não é de estranhar que as pessoas rejeitem a ideia de os ter por perto. Esse tipo de medo parece-me, contudo, ridículo. Como é que um país tão poderoso quanto os Estados Unidos, que tem um dos sistemas prisionais mais rigorosos do mundo, não consegue lidar com um número tão pequeno de prisioneiros? Estão detidos nas nossas prisões federais todo o tipo de criminosos, até os considerados mais perigosos. Enquanto escritor, acho que esse medo, que é irracional, pode bem ser uma projeção do sentimento de culpa e ansiedade. É como o miúdo que atira a bola contra a janela da vizinha e foge porque tem medo de assumir a culpa. Sente-se fraco e vulnerável. A tortura em Guantánamo, as prisões secretas da CIA, as chamadas “rendições”, os ataques premeditados, a guerra no Iraque… tudo isso foram bolas gigantes que atirámos contra o mundo, contra as janelas dos direitos humanos internacionais. Há outro exemplo ainda mais interessante. Um dos principais argumentos contra a libertação de prisioneiros é a sua possível reincidência. Quando vou apresentar o livro a algum sítio, as pessoas dizem-me que Mohamedou parece ser uma pessoa boa e capaz de perdoar, mas que o diário foi em escrito em 2005 e que ele continua detido em Guantánamo, logo deve estar terrivelmente zangado. Não há, dizem elas, nenhuma garantia de que não venha a tornar-se um terrorista quando for libertado. E esta é uma questão muito interessante, porque é fundamentalmente baseada no sentimento na culpa. É o reconhecimento de que, sim, este tipo tem muitas razões para estar zangado connosco, por isso vamos mantê-lo preso. É irracional. E é também muito revelador.

O encerramento de Guantánamo, se vier a acontecer, será meramente um ato simbólico, visto que os prisioneiros continuarão detidos à esperam de serem julgados. Qual é a sua opinião?
Concordo consigo, mas acho que não devemos subestimar a importância dos atos simbólicos, e este ato simbólico em particular é muito importante. Trazer esses homens para o Kansas ou Carolina do Sul é sem dúvida a luta da comunidade dos direitos humanos, porque isso irá forçar algumas questões legais interessantes como – quem pode deter quem e em que circunstâncias. Está tudo claramente descrito na lei. Estamos a falar de detenções por tempo indefinido sem que tenha havido julgamento. E nós não temos espaço para isso. Guantánamo foi criada porque não havia nenhuma lei que nos permitisse fazer as coisas que nós queríamos fazer. Que era deter pessoas indefinidamente sem um julgamento e torturá-las. Um dos detidos em Guantánamo disse há tempos que devia ser libertado porque Obama declarou o fim das hostilidades no Afeganistão e no Iraque [a lei permite que qualquer suspeito de terrorismo esteja detido sem julgamento numa prisão militar até ao fim das hostilidades]. O juiz, porém, recusou a libertação, e disse-lhe: “Mas quem é o Presidente para dizer que guerra terminou?”. Isto é absolutamente louco. Os Estados Unidos são um país em guerra perpétua contra inimigos sem pátria que não seguem as regras e atravessam as barreiras internacionais. É, em parte, uma guerra clandestina, que levará à criação de muitos “Gulags” para deter pessoas indefinidamente.

*** palavra suprimida no original

Publicado no Expresso Diário, do jornal Expresso (16-10-2015)

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