Arrumar a vida num poema ou numa canção

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No final dos anos 80, enquanto frequentava o mestrado em Poesia na University of Massachusetts Amherst, David Berman, que já escrevia há algum tempo, decidiu tentar publicar alguns dos seus poemas. Fê-los chegar à revista de poesia American Poetry Review (fundada em 1972), que os rejeitou. A história é contada num artigo publicado no jornal New York Times. Berman não desistiu. Optou por mudar de “estratégia” e criar uma banda, juntando assim a voz e a guitarra às palavras. Não raras vezes foi comparado a Bob Dylan, por aquilo que entendia ser a música e a poesia.

Os Silver Jews surgiram em 1989, formados por Berman, Stephen Malkmus e Bob Nastanovich. Terminado o curso na universidade da Virgínia, os três foram viver para Nova Iorque, onde partilhavam um apartamento. Berman e Malkmus trabalhavam como seguranças no Whitney Museum e Nastanovich conduzia autocarros. Em 1993, lançaram o primeiro EP, Arizona Records. Os nomes de Malkmus e Nastanovich, membros fundadores dos Pavement, surgidos também em 1989, aparecem na capa do EP sob pseudónimo, Hazel Figurine e Bobbly N., respetivamente. Berman queria manter a individualidade dos Silver Jews, que haveriam, contudo, de ser muitas vezes considerados um “projeto secundário” dos Pavement.

Um ano depois editavam álbum Starlite Walker, lançado nos Estados Unidos pela Drag City. Dan Koretzky, fundador da editora, encontrara Berman num concertos dos Pavement, e, depois de ouvir os rascunhos de algumas canções gravadas numa cassete que aquele lhe passara para as mãos, decidiu lançar o álbum. Na Europa, chegou às lojas pela britânica Domino Records. Com outro disco e singles gravados, lançaram em 1998 aquele que é provavelmente o mais conhecido álbum dos Silver Jews, American Water, que abre com Random Rules e o inesquecível verso: “In 1984 I was hospitalized for approaching perfection”.

Anos mais tarde, e já depois de Tennesse (EP) e Bright Flight (LP), Berman entra numa espiral de drogas, álcool e depressão que haveria de culminar numa tentativa de suicídio. O assunto é por ele abordado numa entrevista à revista Fader e rapidamente se torna público. Afasta-se temporariamente da música e converte-se ao judaísmo (a sua família era de ascendência judia), tendo depois voltado a estúdio com a banda e outros músicos, Cassie Berman (sua mulher) e Will Oldham (ou Bonnie “Prince” Billy) entre eles, para gravar Tanglewood Numbers, já em 2005.

Em 2009, através da Drag City, Berman anuncia o fim definitivo da banda, dizendo que estava a cumprir uma promessa antiga: “Sempre disse que iríamos parar antes de nos tornarmos maus. Se eu continuasse a gravar, podia acidentalmente acabar por escrever uma canção em resposta a Shiny Happy People [R.E.M.]”. O último concerto decorreu numa caverna subterrânea com cerca de 100 metros de profundidade e terminou com a célebre Smith and Jones Forever (“Are you honest when no one’s looking?”). Os Silver Jews eram um assunto arrumado.

Pelo meio, Berman haveria ainda de publicar o primeiro livro de poesia, Actual Air, editado em 1999 pela Open City Book, a editora de Rob Birgmhan, seu amigo, e que foi quem o convenceu a editar os poemas em livro. Com um tiragem de 15000 exemplares, Actual Air foi elogiado pela crítica e pelos leitores. Ancorada a um certo circunstancialismo geográfico (pululam as referências às paisagens e terras da América rural), há na poesia de Berman uma obsessão com o detalhe e a singularidade, pequenas coisas, tão quotidianas, quase sempre esquecidas, pormenores ínfimos, pouco notados, sobre os quais reflete (Billy Collins, poeta americano, chamou a estas reflexões “meditações inteligentes”), abordando certo sentimento com comovente subtileza. Em World:Series, o poeta escreve: “When something passes in the dark, I try to tell its side of the story”. E se é assim na sua poesia, não o será menos nas letras das canções.

Numa entrevista publicada na revista Pitchfork, Mark Richardson pergunta a Berman que “técnica” é essa que lhe permite dizer tanto em tão poucas palavras, falar sobre uma experiência complexa em meia dúzia de linhas, como se a vida pudesse, afinal, ser arrumada num poema ou numa canção. Berman responde: “Primeiro, é preciso escrever muitas frases. Depois, há que passar para o outro lado, o do leitor, e fazer uma avaliação muito rigorosa. Feita a avaliação, volta-se ao lugar inicial e elimina-se tudo aquilo que não tem a ver com a ideia principal, ainda que isso custe. É necessário fazer isto uma vez e depois outra vez e depois outra vez”. Prestes a terminar, diz ainda: “Allen Ginsberg estava errado a respeito de muitas coisas, mas sobretudo quando disse: ‘O primeiro pensamento é o melhor pensamento’”.

Máquina de Escrever, 4-08-2015

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