Austrália: terra de ninguém

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Moore River Native Settlement, a norte de Perth, capital da Austrália Ocidental, funcionou durante anos como reformatório para crianças mestiças retiradas à tutela das mães negras e ainda como campo de internamento para indígenas. Octavius Neville, protetor-chefe dos aborígenes e diretor da instituição, era conhecido como “Devil” (Diabo). Cantava no coro, jogava golfe e adorava jardinagem. A sua política era deixar os puros-sangue morrerem e salvar os mestiços. Deste modo, procurava satisfazer a necessidade dos brancos de se verem livres da desordem dos negros e de terem acesso a mão-de-obra mais barata.

No reformatório, as crianças eram sujeitas a trabalho árduo a fim de serem preparadas para as atividades que se esperava que viessem a desenvolver no futuro: empregadas domésticas, no caso das raparigas, e trabalhadores rurais, no caso dos rapazes. Com um orçamento anual gerido de forma meticulosa desde a sua fundação, em 1918, a instituição viu o seu orçamento diminuir abruptamente em 1921. As crianças deixaram de ter brinquedos e o seu horário restrito apenas a trabalhos forçados. Passaram também a comer cada vez pior (não havia frutas, legumes, ovos e leite).

Quando chegavam a Moore, eram-lhes atribuídos nomes novos para dificultar qualquer contacto com os seus pais. Diziam-lhes que estes não queriam saber delas, e aos pais que os filhos não os queriam sequer ver. Toda a correspondência era censurada e as queixas relativas às condições de vida na instituição eram avaliadas pelo próprio chefe de campo, que as censurava ao impedir a sua circulação. Muitos aborígenes, sujeitos igualmente a maus tratos, contraíram tuberculose no campo de internamento.

Mais tarde, Moore foi alvo de uma investigação conduzida pelo Governo australiano, que revelou que crianças e adultos viviam em condições miseráveis; os edifícios encontravam-se sobrelotados e cheios de vermes, a alimentação, pouco variada, era fornecida em quantidades consideradas insuficientes, e as crianças dormiam e trabalhavam com as mesmas roupas durante todo o ano (nenhuma tinha sapatos), sendo frequentemente fechadas e isoladas em celas. Apesar disso, não conseguiu provar-se que os indígenas fossem maltratados e a instituição manteve-se aberta. Foi, aliás, aprovada uma lei (Lei do Indigenato de 1937) que legalizou muitas das práticas anteriores de Octavius Neville na instituição.

Este é apenas um dos muitos exemplos de discriminação racial que Sven Lindqvist, escritor sueco, descreve em Terra Nullius: Viagem aos Antípodas, editado em junho deste ano pela Tinta-da-China. Através das suas notas de viagem (percorreu cerca de onze mil quilómetros de carro, entre cidades, zonas desertas e outras pequenas localidades australianas) e da leitura e análise de textos de teóricos dos séculos XIX e XX, Sven Lindqvist procura reescrever a história dos aborígenes na Austrália, vítimas de atrocidades cometidas por colonos brancos durante quase dois séculos, e mostrar o quanto aqueles (Friedrich Engels, Émile Durkheim, Freud, Malinowski) falharam em dar respostas ao problema, contribuindo, ainda que de forma indireta, para esta cultura de segregação.

Sven Lindqvist parte do conceito de terra nullius, terra de ninguém (ou “terra que não pertence a ninguém ou a ninguém que mereça ser levado em consideração”), desenvolvido por juristas europeus para justificar a ocupação dos territórios do Novo Mundo. Na Austrália, centenas de milhares de aborígenes foram assassinados, torturados e usados como mão-de-obra barata. Homens brancos perseguiram e violaram mulheres negras, propagando doenças venéreas, e as crianças foram retiradas aos pais e mantidas em supostos centros educativos onde lhes era incutida, através da violência, a cultura ocidental de modo a integrarem-se nas sociedades brancas.

Terra Nullius: Viagem aos Antípodas, editado agora pela primeira vez em português (10 anos após a publicação de Exterminem Todas as Bestas, que analisa a prática da expansão imperialista em África e as origens do genocídio a partir de uma das grandes obras de Joseph Conrad, O Coração das Trevas), é uma reflexão sobre a culpa e a responsabilidade. Muitos cidadãos australianos exigiram durante décadas que o seu Governo pedisse perdão pelos crimes e injustiças cometidos contra os aborígenes no país. O pedido oficial de desculpa à chamada “Geração Roubada” foi apresentado em 2008 pelo ex-primeiro-ministro Kevin Rudd, pondo assim um ponto final na separação entre as duas comunidades.

A páginas tantas, Sven Lindqvist recorda uma visita à Noruega, no verão de 1951, onde foi considerado culpado por alguns noruegueses pela colaboração entre a Suécia e a Alemanha Nazi (ancorada no fornecimento de minérios, autorização de circulação ao trânsito das tropas alemãs e outras violações da política de neutralidade), que permitiu àquela escapar à guerra. “Porquê acusar-me a mim pelo que todos os outros suecos tinham ou não tinham feito?”, questiona. A resposta, breve e concisa, é dada pelo próprio numa das últimas páginas do livro, e diz assim: todos os que beneficiaram dos males do passado devem sentir-se culpados, partilhar responsabilidades e, se necessário, pedir perdão. Porque mesmo o passado, contrariamente ao que diz a sabedoria popular, “pode ser alterado”.

Máquina de Escrever, 20-06-2015

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