Bukowski: o suspeito do costume

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No mesmo mês (março) em que foi anunciada a publicação de um novo livro de Charles Bukowski (1920-1994) editado pela escocesa Canongate, uma coleção de textos inéditos sobre gatos, On Cats, em que o escritor, como outros antes dele (T. S. Eliot, Doris Lessing, por exemplo), revela o seu amor pelas “coisas felinas” (“na minha próxima vida quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar que me alimentem. Sentar-me por aí a lamber o meu rabo”, escrevera num seus poemas), chega-nos a edição em português de Hot Water Music, Música para Água Ardente na tradução portuguesa (de Rita Carvalho e Guerra), editada pela Antígona.

Música para Água Ardente, coleção de contos, ou breves histórias, 36 no total (com cerca de seis a 10 páginas cada uma) foi publicada pela primeira vez em 1983. Por detrás da publicação do livro esteve, como estivera e continuaria a estar, pelo menos até 2002, John Martin, editor da Black Sparrow Press. John Martin foi, como se sabe, o grande responsável pelo lançamento da carreira literária de Bukowski. Foi seu mecenas, foi seu amigo, e investiu nele de uma forma louca (entenda-se: arriscada) e ingénua, oferecendo-se para lhe pagar uma quantia mensal de modo a que Bukowski pudesse abandonar o emprego no posto de correios, que mantinha há 11 anos, e dedicar-se a tempo inteiro à escrita.

E ele assim o fez, retribuindo com uma atividade prolífica (agonizava se estivesse um dia sem escrever, ele, que dizia escrever entre 10 a 15 poemas por dia de uma assentada como se a máquina de escrever fosse o seu inimigo e tivesse de bater-se a toda hora, sem tréguas, contra ela), e uma produção imensa. Publicou seis romances e mais de 50 coleções de poesia, cartas e contos. E deixou uma quantidade surpreendente de textos inéditos que têm vindo a ser publicados ao longo dos anos (antes de On Cats, de que falávamos no primeiro parágrafo, vai ser publicado em julho um conjunto de cartas inéditas escritas por si). Numa carta enviada ao seu editor, datada dos inícios dos anos 70, Bukowski escreve: “Pensa lá, qualquer dia, depois de eu morrer, eles vão começar a querer os meus poemas e histórias, e tu vais ter em mãos uma centenas de histórias e uma centenas de poemas. Nem sabes a sorte que tens”.

Música para Água Ardente é mais um livro de Bukowski, no sentido em que reencontramos, em grande parte das suas histórias, os “suspeitos do costume” (expressão utilizada na nota de badana do livro). São eles o senhor Chinaski, alter ego de Bukowski (que aparece em vários poemas e romances seus, como Factotum e Mulheres), que ora corre de emergência ao consultório do seu médico para que este, de linha e agulha em punho, o socorra após uma experiência quase anedótica que dera para o torto (em “Não foi bem Bernadette”), ora se encontra com o editor “mais estranho” que alguma vez conhecera, ex-presidiário e ex-ladrão de diamantes, que chega a Los Angeles acompanhado da mulher. O encontro é num hotel, há cerveja, whiskey e charutos, como não podia deixar de ser, cães a saraquitar e um papagaio que diz que Thomas Wolfe “é o maior escritor vivo do mundo”. Conversam, bebem cerveja, dormem, bebem cerveja, descobre-se que o editor ex-presidiário foi afinal “o melhor ladrão de diamantes do estado do Ohio”, voltam à cerveja e o depois o editor anuncia a Chinaski que vai publicar um livro de poemas seus, bebem mais cerveja, vinho branco, whiskey, e o encontro termina afinal com a mulher do editor a beijar Chinaski (não um simples beijo, mas descrito assim: “ela deslizou rapidamente a língua para dentro e para fora da minha boca”) e com a mulher de Chinaski a beijar o editor (em “Como ser Publicado”). De resto, muitas das histórias deste volume constroem-se à volta de encontros mais ou menos fortuitos que, de resto, terminam quase sempre em copos, vómitos, pernas, cuecas à mostra (ou quase), sexo e línguas dentro de bocas e dentro de outras coisas.

Quanto aos “suspeitos do costume”, refiram-se ainda as esposas, as amantes e as prostitutas, o sexo aborrecido e o sexo fácil (“O Homem que Adorava Elevadores” conta a história de um homem, que, como o título indica, só conseguia fazer sexo nos elevadores, davam-lhe um apartamento e uma cama, tudo muito limpinho e confortável, e a pujança acabava-se num instante), as corridas de cavalos (às quais o próprio Bukowski gostava de assistir), os escritores (“Qual é o seu conselho para os escritores jovens? Bebam, fodam e fumem muitos cigarros. Qual é o seu conselho para os escritores mais velhos? Se ainda estão vivos, não precisam do meu conselho”, em “O Grande Poeta”), os escritores e os editores e a publicação de artigos por tuta-e-meia, e os poetas pobres, sebosos, malditos, solitários. Na escrita de Bukowski não cabem outros senão eles, e Bukowski não homenageia outros senão eles, homenageando-se a si próprio ao mesmo tempo.

Música para Água Ardente é mais um livro de Bukowski. Abro numa página ao acaso de Love is a Dog From Hell, antologia de poemas seus publicada pela primeira vez em 1977, e leio: “Ela estava sempre a pensar em sexo (…) olhava para todos os homens disponíveis / desaparecia para as corridas de cavalos / e depois voltava e dizia / ‘três homens ofereceram-se para me pagar / uma bebida’”.

“A Dança do Cão Branco”, um dos contos que compõe este volume, é também sobre uma rapariga, Lita, muito “provinciana”, que gostava de ir a festas, dançar, dançar muito, ser beijada por um homem, dois, três, quatro, dançar todos os dias (tinha dois tipos de dança preferidos, no primeiro o tipo “envolvia a perna dela com as suas e esfregava-se como se fosse um cão com o cio” e no segundo ela e o parceiro “acabavam a rebolar pelo chão agarrados um ao outro”).

Música para Água Ardente é mais um livro de Bukowski. Para o bem e para o mal.

Máquina de Escrever, 11-04-2015

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