“Orpheu”. Vendaval cultural foi há 100 anos

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Em abril de 1915, Juan Barcia escrevia no jornal galego “El Eco de Santiago” que recebera o primeiro número de uma revista que se afirmava como “órgão e eco da nova geração literária da vizinha República”.

Elogia-lhe a capa e a apresentação, destacando a originalidade de ambas, e os textos, muitos dos quais verdadeiramente extraordinários e incomuns, havendo também alguns quase incompreensíveis, complexos, febris, termo que os autores, de resto, não se tinham cansado de usar.

Outro artigo da época, publicado no semanário “El Tea”, também da Galiza, referia-se à revista como sendo um “bom sintoma”, pois a sua publicação demonstrava que havia “cérebro”, e que havia, em cada um dos que haviam escrito nas suas páginas, a vontade e desejo de legar à pátria uma obra de grandeza literária.

Em Portugal, o falatório foi bem menos generoso, a começar por Júlio Dantas (a quem Almada Negreiros haveria de dirigir o célebre “Manifesto Anti-Dantas”), que na sua habitual crónica da “Ilustração Portuguesa”, de 19 de abril de 1915, classifica os autores de “poetas-paranoicos”, salvaguardando, no entanto, que mais loucos do que os poetas eram aqueles que os liam e discutiam e compravam. Mas as acusações não ficariam por aqui. Chamar-lhes-iam imorais, exóticos, contraditórios, escandalosos, doidos, desequilibrados, degenerados, alucinados. Sobre isso, escreveu Fernando Pessoa – “Fomos recebidos como foi o Antero, à gargalhada” – lembrando que também Wordsworth e Coleridge (poetas e ensaístas, fundadores do romantismo britânico) foram vítimas de incompreensão.

No ano em que se comemora o centenário da “Orpheu”, revista trimestral de literatura que marcou a afirmação do grupo modernista português, protagonizado, entre outros, por Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Luís de Montalvor, José Pacheco e Armando Côrtes-Rodrigues, a editora Tinta-da-China publica “1915 – O Ano do Orpheu”, edição “fac-similada”, que pretende, nas palavras do organizador, Steffen Dix, “reconstituir Portugal por volta de 1915”.

A antologia, dividida em três partes – contexto sociocultural, “confluências”, isto é, as ligações entre a revista e o mundo das artes fora de Portugal, e “protagonistas” – reúne textos de vários investigadores, bem como reproduções de quadros (como o famoso retrato de Pessoa pintado por Almada Negreiros), fotografias, cartazes, anúncios, cartas (como as de Sá-Carneiro a Pessoa, enviadas de Paris, onde passou larga temporada), manuscritos, notícias publicadas em jornais, capas de livros e revistas (“Centauro”, “Orpheu”, “A Ideia Nacional”) e ilustrações. Sobre a edição, refira-se ainda o pormenor de que os textos dedicados aos “protagonistas” têm a assinatura de cada um deles reproduzida na primeira página.

Como tudo começou

A história da revista “Orpheu” pode ser contada de maneiras diferentes, em termo de cronologia. Steffen Dix situa o seu início entre 1912 e 1913, período em que alguns dos seus primeiros colaboradores se tornaram mais próximos, e elenca alguns acontecimentos marcantes do ano de 1913, como a estreia do A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, a publicação do primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, o reconhecimento das obras expressionistas de Egon Schiele e Oskar Kokoschka, a publicação Totem e Tabu, de Sigmund Freud, e de A Morte em Veneza, de Thomas Mann, e o regresso da Mona Lisa ao Louvre, após dois anos de paragem incerta. 1913 foi também o ano em que um jovem pintor, de tez pálida, percorreu as praças públicas de Viena tentando vender as suas aguarelas, com a ajuda dos habitantes judeus. Este jovem, que se designava a si próprio como “Kunstmaler”, isto é, “pintor artístico”, chamava-se Adolfo Hitler.

Acabar com o “academismo bafiento” e a “improdutiva paralisia”

A esses primeiros colaboradores, reunidos em torno de Fernando Pessoa desde 1912, partilhando com ele a vontade de “lutar por uma renovação estético-cultural que viesse pôr termo ao bafiento academismo e à improdutiva paralisia que minavam a arte e a literatura em Portugal” (escreve Márcia Seabra Neves, no texto que dedica a Raul Leal, autor de Sodoma Divinizada, e “o mais louco dos loucos e profeta maldito”), viriam a juntar-se outros, como Mário de Sá-Carneiro e Santa-Rita Pintor, que chegaram à capital portuguesa no verão de 1914, vindos de Paris (cidade que foram obrigados a abandonar por causa da guerra), trazendo consigo as novidades literárias e artísticas das novas correntes europeias e círculos vanguardistas parisienses. Com o grupo reunido, a “Orpheu” começou então a ganhar forma.

No dia 24 de março de 1915, foi publicado o primeiro número, com direção de Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho, capa de José Pacheco (duas velas de cebo d’Holanda com uma mulher nua no meio, sobre um fundo cor de burro quando foge, segundo a imprensa da época) e textos de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro e do “engenheiro” Álvaro de Campos (“Opiário” e “Ode Triunfal”), entre outros.

Meses mais tarde, em junho (dia 28), foi publicado o segundo número, incluindo, além de poemas de autores que haviam participado antes, textos de Ângelo de Lima (“o doido de Rilhafoles”, chamava-lhe Sá-Carneiro, referindo-se ao local onde aquele estivera internado, atual Hospital Miguel Bombarda), Raul Leal, Violante de Cysneiros, Luís de Montalvor, Álvaro de Campos (“Ode Marítima”) e ilustrações, quatro, de Santa-Rita Pintor.

“Temos desgraçadamente de desistir”

O terceiro número, previsto para outubro daquele ano, não chegaria a ser levado ao prelo. O pai de Sá-Carneiro, que financiara os números anteriores, declara-se incapaz de o continuar a fazer. “Temos desgraçadamente de desistir do nosso Orpheu”, escreveu Sá-Carneiro a Pessoa, em carta enviada de Paris a 13 de setembro, para onde partira novamente.

Pessoa acatou, mas não desistiu, nem depois da morte de Sá-Carneiro. Continuou a tentar publicar a revista e a anunciar, em cartas enviadas a outros membros do grupo, o seu lançamento. Ao fim de algum tempo, acabou por desistir, mas a “Orpheu” nunca seria verdadeiramente esquecida, ou não tivesse ele escrito noutra revista, pouco tempo antes de morrer, as seguintes palavras: “Orpheu continua”.

Expresso Diário (Jornal Expresso), 23-03-2015

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