Dean Wareham: “Tocar juntos é fácil. Difícil é manter a banda”

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Nova Iorque, 28 de fevereiro de 2005. Concerto dos Luna na Bowery Ballroom, o último, ao fim de 14 anos a tocarem juntos. No fim do concerto, Dean Wareham, Britta Phillips, Lee Wall e Sean Eden despedem-se do público. Trocam-se palavras, apertos de mãos, alguém oferece um ramo de flores. É Sean quem o recebe. Da plateia ergue-se um cartaz, onde se lê: “We’ll say a prayer and tell you that we’ll miss you. Thank you, Luna”. A frase é adaptada de uma das canções da banda, 23 Minutes in Brussels, uma das preferidas de Dean Wareham (como ele mesmo dirá nesta entrevista), do álbum Penthouse (1994). Em outubro do ano passado, foi anunciado o regresso da banda para uma série de concertos em Espanha, um em Los Angeles (é o primeiro e está marcado para dia 14 de abril) e outro em Portugal, na Casa da Música, no Porto, dia 26 de abril. A última vez que os Luna atuaram no país foi em 2003, também no Porto. Doze anos depois, é bom tê-los de volta.

Como é que se sente por voltar aos palcos com os Luna?
Parece-me que é quase cedo demais. A última vez que tocámos foi há dez anos. O tempo passou muito, muito rápido. Mas também é entusiasmante. Tivemos aquela jam session há alguns meses. Eu e a Britta [baixista] vivemos em Los Angeles, Lee, o baterista, também, e Sean [guitarrista] veio de Nova Iorque para essa sessão. É estranho tocar canções que já não se toca há dez anos. Estranhamente emocional. É como se estivesse a recuar no tempo, como se fosse visitar uma antiga casa onde vivi. Seja como for, acho que vai ser divertido. Gostamos uns dos outros e entendemo-nos bem, e entendemo-nos bem porque não temos estado numa banda. Quando se está, há muita pressão sobre a amizade, é difícil. Qualquer pessoa que tenha feito parte de uma banda, pelo menos durante mais de cinco anos, dirá o mesmo. Este afastamento provavelmente foi bom para nós. Agora sinto que não há pressão, que não há razões para discutirmos. Vamos dar concertos apenas pela diversão, e também para fazer algum dinheiro, espero eu. Não temos de promover um novo álbum nem perguntar porque é que as nossas músicas não estão a passar na rádio. Nada disso importa. Será apenas pelo prazer de tocar música.

O que vos fez querer voltar a tocar juntos?
Um promotor que vive em Espanha (é sempre Espanha) enviou-me um email a dizer que tinha ouvido um rumor de que os Luna iam voltar, e que podia arranjar-nos muitos concertos no país. Falámos sobre isso, eu apresentei a proposta aos outros membros da banda e todos aceitaram. A maior parte dos nossos concertos vai ser, portanto, em Espanha. Também vamos tocar a Portugal. Quinze concertos em 16 dias. Ah! E a Los Angeles também, porque achámos que devíamos ter um concerto mais pequeno antes de irmos tocar ao festival em Gijón. Os bilhetes para o de Los Angeles esgotaram em 17 minutos. Foi assim um bocado louco, mas também se trata de um clube pequeno. Bem, agora também é diferente. Havia Facebook há dez anos? Nem sequer sei. Acho que não havia Facebook há dez anos. As coisas são diferentes agora.

Em entrevista à Rolling Stone, disse que a decisão de reunir a banda e voltar aos concertos foi tomada no verão passado. Antes disso, já tinham falado sobre o assunto?
Não, nunca tínhamos falado sobre isto. A verdade é que dez é um número redondo interessante, dá que pensar. Por outro lado, há uma editora aqui em Los Angeles que, no fim do ano, vai reeditar em vinil os primeiros cinco álbuns de Luna, por isso também me parece que esta é uma boa altura para tocar novamente. Seja como for, não pretendemos que isto – a banda – volte a ser a nossa vida outra vez. Eu não quero que volte a ser minha vida. O objetivo é dar apenas alguns concertos, divertirmo-nos. Não vamos entrar num autocarro e andar em digressão pelos Estados Unidos da América.

Têm ensaiado nos últimos meses?
Bem, temos estado a ensaiar a ouvir os discos. O Lee tem a bateria montada na sala. Ele tem praticado. Mas não, ainda não ensaiámos juntos. O Sean vem para cá dentro de algumas semanas, para ensaiar durante uma semana. É provável que volte antes da digressão. Seja como for, eu estou à vontade com algumas músicas, porque tenho vindo a tocá-las, e as outras já tocámos umas 400 vezes. Acho que vamos apanhar o jeito rapidamente. Quando formos atuar ao Porto vai estar ótimo.

Dez anos é muito tempo. O que mudou na relação entre os membros da banda? Sean, por exemplo, continua a ser aquele tipo que diz piadas e conta histórias engraçadas?
Como eu disse, nós não temos sido uma banda, não estivemos a gravar álbuns, por isso é provável que as relações tenham ficado mais fáceis e melhores. E espero que assim continue. Mas não sei, é impossível prever isso. Ouvimos falar de bandas que se reúnem, como os New Order, por exemplo. Na verdade, reuniram-se apenas durante algum tempo, até terem decidido que afinal odiavam o Peter Hook. Não conseguiam suportá-lo. Bom, quanto a nós, acho que vou descobrir quando tocarmos juntos novamente. Espero que tenhamos todos crescido um pouco e que nos respeitemos mais. Quanto estávamos nos Luna, passávamos o tempo todo a insultar-nos durante as viagens – na brincadeira, claro. A dada altura torna-se cansativo, por isso acho que vamos tentar não fazer isso. Quando se está afastado da banda durante algum tempo fica-se mais calmo, lembramo-nos que no início gostávamos todos uns dos outros, e que éramos amigos. Quando uma banda é a tua vida, estás com as pessoas o tempo todo, durante todo o ano. Tudo o que vemos são as imperfeições dos outros.

Foi por essa razão que a banda se separou?
Não sei. Creio que estava farto disso, e estava a ser complicado manter a banda. Ao fim de 14 anos juntos e sete álbuns de estúdio, senti que era suficiente, senti que era altura de fazer uma coisa diferente na vida. Mas agora vamos tocar juntos outra vez. É um cliché, acho eu, as bandas de rock reunirem-se. Como se tivéssemos que experienciar todos os clichés, tal como todas as outras bandas fazem.

Lembra-se do último concerto dos Luna no Porto, em 2003? Que memórias tem desse concerto?
Sim. Tenho alguns vídeos no meu computador, com partes do nosso concerto. Lembro-me do concerto de Cat Power. Aliás, é disso que me lembro melhor. Tenho a ideia de que os concertos estavam integrados num festival que decorreu em vários pontos diferentes da cidade. Divertimo-nos, também me lembro disso. Quando fomos tocar ao Porto pela primeira vez, Augusto [Augusto Gómez Lima/Mouca Records], que estava a promover o nosso concerto, mostrou-nos alguns sítios, restaurantes, levou-nos a passear de carro. Até chegámos a ir a Vigo. Ficamos em contacto desde essa altura. Há dois ou três anos estive na Casa da Música, quando estava a fazer uma digressão a tocar Galaxie 500. E no ano passado estive em Lisboa, no Sabotage, a apresentar o meu álbum a solo [Dean Wareham].

Ao ver o documentário sobre os Luna [Tell Me Do You Miss Me, realizado por Matthew Buzzell], fica-se com a impressão de que o último concerto, na Bowery Ballroom, foi muito intenso. Dez anos depois, como é que o relembra?
Lembro-me de que quando a noite terminou, eu estava contente por ter terminado. Houve muita pressão, foi estranho e emocional. Lembro-me de estar a sair do clube e pensar – “OK, graças a Deus. Já acabou”. Quando se anuncia o fim de uma banda é preciso estar a falar sobre o assunto durante meses e meses, e depois é como se houvesse uma contagem decrescente. Por isso, quando chegou ao fim, pensei mesmo isso: “Graças a Deus”. Bem, mas de que é que me lembro mais? Estava a nevar. Havia uma tempestade de neve em Nova Iorque. E era uma segunda-feira à noite. Quanto à Bowery Ballroom, é provável que voltemos lá para tocar. É um lugar porreiro.

Há essa opinião, mais ou menos generalizada, de que os Luna alcançaram um “sucesso modesto”. Isso aborrece-o?
Se isso me aborrece? Não. As pessoas estão sempre a perguntar se eu fico zangado por os Luna não serem grandes estrelas de rock. Acho que não comecei a fazer música com o sonho de vir a ser isso. Quando tive as minhas primeiras bandas, a partir de 1987, as únicas coisas que passavam na rádio e na televisão eram os Bon Jovi e os Huey Lewis and the News. Por isso, não, não era algo com que eu sonhasse. Os meus artistas preferidos, ou grande parte deles, não eram estrelas de rock. Os Television, por exemplo, nunca o foram verdadeiramente, mas é óbvio que foram importantes na história do rock. Para as bandas se tornarem grandes tinham de ter hits na rádio. Olhava para aquilo que os Luna estavam a fazer nos anos 1990 e para aquilo que passava na rádio e, não, não havia forma de nós virmos a ter um sucesso enorme. E a minha voz também, e as letras das músicas… nunca achei que isso fosse acontecer. Sinto-me grato por viver da música. Não tenho mais nenhum trabalho.

Moon Palace, do álbum Penthouse (1995), continua a ser a sua canção preferida?
Tenho ouvido muitas agora. Há várias canções que são boas de formas diferentes. Gosto do solo de guitarra que o Tom Verlaine toca em Moon Palace. Mas também gosto de outras, como a Friendly Advice e a 23 Minutes in Brussels, que fazem parte do Penthouse. Os meus álbuns preferidos são, provavelmente, esse e o Rendezvous [2004], o último que gravámos antes de a banda terminar. Na altura, não gostei muito. Achei que foi difícil de gravar e a banda já estava a separar-se de qualquer forma. Creio que quanto mais tempo as bandas estão juntas, mais difícil é fazer álbuns. E não me refiro apenas aos Luna, mas a muitas outras bandas. O primeiro álbum faz-se muito rápido, mas depois começa a demorar cada vez mais tempo. E esse, o Rendezvous, não foi completamente agradável de fazer. Às vezes, não se consegue dizer se alguma coisa é boa ou não, porque se está em estúdio a ouvir as músicas o tempo todo, todos os dias. É preciso afastarmo-nos e depois voltar e ouvir outra vez. Foi o que fiz, e nessa altura percebi que realmente gostava desse último álbum. Soa àquilo que são os Luna ao vivo, o que em grande parte é, na verdade. Todas as bandas têm altos e baixos, que se refletem na qualidade dos álbuns. Nem todos os álbuns das minhas bandas preferidas são bons.

Há alguma canção ou canções que esteja particularmente entusiasmado por voltar a tocar, ao fim de dez anos?
A Friendly Advice, diria. Nós elaborámos uma lista com 30 canções… A Tracy I Love You também – gosto dessa música. Vai soar muito bem. Das últimas vezes que estive em digressão toquei algumas destas canções, mas tenho sempre de as ensinar a pessoas novas, é diferente. Tocá-las com os Luna vai ser mais confortável. É a parte boa de tocar numa banda. Tocar é fácil, tocar juntos é fácil. Difícil é manter a banda.

Máquina de Escrever, 27-02-3015

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