A eterna Emily Dickinson

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Em abril de 1891, quando Mabel Loomis Todd e Thomas Wentworth Higginson, os editores, se encontravam a preparar a segunda série de poemas de Emily Dickinson, o segundo escrevia ao primeiro: “Agora, que o ouvido do público está aberto, podemos alterar menos”. No primeiro volume, publicado em novembro de 1890, em edição paga pela irmã, Lavinia Dickinson, contendo um total de 115 poemas, a intervenção de Higginson no texto original fora significativa: os poemas foram publicados com títulos (ausentes nos manuscritos), os travessões (característicos da poesia de Dickinson) e as maiúsculas suprimidos, a sintaxe foi normalizada e o texto foi, em alguns casos, alterado. Higginson, “conhecedor dos gostos literários”, sabia que para conquistar os leitores era necessário eliminar o “excesso”, “restituindo o poema a um estado mais consonante com a poética do seu tempo”. É isso que escreve Ana Luísa Amaral no posfácio a Duzentos Poemas de Emily Dickinson, volume organizado e traduzido por si, e publicado em outubro do ano passado pela editora Relógio D’Água.

Nascida em Amherst, no Massachusetts (EUA), em 1830, e educada numa família conservadora e abastada, da classe média-alta (o pai, Edward Dickinson, calvinista ortodoxo, fora um advogado e político influente), Emily Dickinson desafiou uma série de convenções e paradigmas, tanto em termos sociais e religiosos como literários. Ana Luísa Amaral compara-a, com as devidas reservas, a Walt Whitman (Folhas de Erva foi publicado quando Dickinson tinha 25 anos), referindo que os seus poemas, assim como os de Whitman, são “declarações de independência poética, criadores, nesse sentido, de novas tradições na poesia norte-americana”. Ana Luísa Amaral insiste na importância dos poemas de Dickinson para a compreensão da estética da modernidade, “com a qual mantêm pontos de contacto”, citando David Porter, também estudioso da obra da autora: “Uma linguagem altamente desviante que arrisca tudo”.

Em 1848, depois de ter passado pela Amherst Academy, onde fora admitida com a irmã, Dickinson frequenta o Mount Holyoke Female Seminary, colégio para raparigas, em South Hadley, Massachussetts, conhecido pela excelência. À semelhança de outras instituições de ensino da época, também no Mount Holyoke a educação religiosa era tida como fundamental, de tal modo que as alunas, no início do ano, eram divididas em três grupos: as que tinham fé, as que tinham esperança de vir a tê-la, e as que não tinham, de todo, esperança. Quando entrou no colégio, Dickinson estava entre as últimas, e entre as últimas permaneceu até abandonar o colégio, ao fim de um ano. “Parecia que as outras raparigas desejavam apenas ser boas. Quem me dera poder dizer isso com sinceridade, mas receio nunca conseguir vir a fazê-lo”, lê-se num artigo de Lyndall Gordon publicado no jornal britânico, The Guardian. Mais tarde, já em Amherst, e ainda em conflito interior por causa da religião, Dickinson haveria de dizer, em carta escrita a uma amiga: “Cristo está a chamar toda a gente por aqui, todas as minhas companheiras responderam, até a minha querida Vinnie [Lavinia] acredita que o ama e acredita nele, e eu aqui estou, sozinha em rebeldia, e a ficar muito descuidada” (Ana Luísa Amaral refere-se ao destinatário da carta como sendo Austin, irmão de Dickinson). E num dos seus poemas, incluído neste volume, volta a abordar o assunto: “A «Fé» é uma bela invenção / Se os Cavalheiros podem ver – / Mas são prudentes Microscópios / Se uma Emergência houver.”

Em 1862, com 32 anos e alguns poemas publicados anonimamente em revistas (que receberam inclusive a atenção de Ralph Emerson, fundador do transcendentalismo, do qual se viria a tornar adepta), Dickinson inicia uma troca de correspondência com Thomas Higginson, crítico literário menor, que na altura gozava de algum fama como conferencista, e porta-voz das reformas sociais da Nova Inglaterra, empenhado em causas como a feminista e a abolicionista (questões a que Dickinson viria a ser sensível). A correspondência, que mantiveram até junho de 1874, não catapultou, como escreve Ana Luísa Amaral, Dickinson para a “fama em vida” (como nada, em vida, a catapultaria para isso), mas resultou numa amizade que se manteria até à morte da escritora e constituiu “a primeira tentativa de testar diretamente junto da opinião crítica profissional as suas capacidades como poeta”. Em 1870, Dickinson e Higginson encontraram-se pela primeira vez, em Amherst, e o encontro é recordado por este em carta enviada à sua mulher: “Passos como se fossem de criança e eis que veio deslizando uma mulher pequena com dois bandós de cabelo avermelhado, (…) num vestido de piquê estranhamente branco. Chegou-se com dois lírios que me pôs na mão de uma forma infantil, dizendo ‘São a minha apresentação’, numa voz suave, assustada e ofegante – e acrescentou ‘Perdoai-me se estou assustada; nunca vejo estranhos e mal sei o que dizer’ – mas daí em diante falou sem se calar – por vezes parando para me pedir que falasse em sua vez – mas recomeçando imediatamente”.
Apesar de não ter catapultado Dickinson para a fama, Higginson teve um papel fundamental na divulgação da sua poesia. Foi ele que, em parceria Mabel Loomis Todd, editou postumamente o primeiro e segundo volumes de poemas da escritora e, apesar de ter feito alterações significativas no texto original (a acrescentar à informação contida no primeiro parágrafo, refira-se a seleção de variantes consideradas pela organizadora as “mais inócuas” e “próprias para a poesia de uma mulher”), não se escusou a reconhecer-lhe o valor e o génio. No ensaio que antecede os poemas do segundo volume, Higginson escreve: “A impressão de um génio poético totalmente novo ficou na minha mente de uma forma tão clara quando recebi esses quatro poemas como está agora, após trinta anos”.

Mais fidedignas e fiéis aos manuscritos originais são as edições de Thomas Johnson e R. W. Franklin. A consideração é tecida por Ana Luísa Amaral, que destaca a importância das edições de Thomas Johnson (a primeira publicada em 1955 e a segunda em 1970), que não só “regularizou para o grande público”, mantendo as variantes, parte da pontuação característica e omitindo os títulos, como era intenção de Dickinson, como também compilou a poesia dispersa da autora num único volume (capa mole, edição barata destinada ao público em geral), pondo-a assim à disposição da crítica durante mais de três décadas. Foram estas edições, a de Thomas Johnson e a de R. W. Franklin, que Ana Luísa Amaral utilizou para a tradução, num volume que contém, além dos poemas e do posfácio, uma tábua cronológica que tem início em 1630 e vai até 1999, uma lista do material bibliográfico produzido sobre Dickinson em Portugal, bibliografia e índices dos poemas.

Emily Dickinson morreu no dia 15 de maio de 1886, após um estado de coma que durara dois dias. Deixara instruções precisas para o seu funeral: que a vestissem de branco, que o seu corpo repousasse num caixão também branco, que o cortejo fúnebre desse a volta ao jardim de casa, passando depois para o cemitério, e que o percurso, em momento algum, perdesse a casa, a sua casa, como ponto visível de referência. E deixara também instruções precisas para os seus escritos: que a irmã os queimasse (“Publicar – é o Leilão / Da Mente Humana – Justificada – a Pobreza / Para coisa tão vil”), mas a estas, felizmente, ninguém deu ouvidos.

Máquina de Escrever, 25-02-2015

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