Um documento poético sobre o envelhecimento

Featured image

Todos os dias, de segunda a sexta-feira, entre as 9.00 e as 11.00, os idosos começam a chegar. Muitos vêm a pé, outros de boleia na carrinha da Santa Casa da Misericórdia. Entram e sentam-se sempre nas mesmas cadeiras, no mesmo jardim. Se estiver frio, sobem a uma sala no primeiro piso. Conversam, jogam dominó, algumas senhoras fazem crochê e a dona M. entretém-se com as sopas de letras. Há quem prefira o silêncio. Às 12.30, ouvem-se palmas na sala (ou no jardim). É uma das funcionárias do centro a chamar para o almoço, que será servido na sala de refeições. Depois de almoço, voltam às tarefas da manhã: voltam à conversa, ao dominó, ao crochê. É provável que a dona M. volte às sopas de letras, mas não sabemos. Às 16.00 é servido o lanche. Depois do lanche, os idosos começam a ir embora. Muitos vão a pé, outros de boleia na carrinha. Às 18.00, já foram todos embora.

É esta a rotina dos idosos do Centro Social da Sé, centro de dia na freguesia da Sé, em Alfama, Lisboa, descrita por Constança Saraiva, 29 anos, artista visual. Durante três meses, de outubro a dezembro de 2011, entre duas a três vezes por semanas, em dias e horas diferentes (para ter uma perspetiva da totalidade das atividades e rotinas), Constança visitou este centro, no âmbito de uma residência artística (projeto Casa/Arquivo) promovida pelo Clube Português de Artes e Ideias, associação cultural sem fins lucrativos, e pelo Programa Escolhas, que promove a nível nacional a inclusão social de crianças e jovens provenientes de contextos socioeconómicos vulneráveis e pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Do trabalho desenvolvido no Centro Social da Sé resultou o livro Arte e Comunidades – Um Arquivo Poético sobre o Envelhecimento, selecionado para o Best Portuguese Design Books e vencedor do Prémio Oficina do Cego 2014, que reconhece a melhor edição independente publicada em Portugal nos dois últimos anos. “Interesso-me muito pelo formato livro como forma de comunicar projetos e, neste caso, foi mesmo a melhor forma de comunicar este arquivo poético”, explica Constança, para quem esta publicação foi também a sua “primeira aventura editorial”.

O livro, publicado em 2013 pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, com o apoio da Junta de Freguesia da Sé, reúne vários documentos, entre textos, fotografias, desenhos, desdobráveis, objetos destacáveis, bem como parte da tese de Mestrado em Museologia e Museografia, que Constança viria a desenvolver depois da residência artística.

O nome, “arquivo poético”, merece uma explicação: assim designado, pretende demarcar-se de outros arquivos a dois níveis: no processo de construção e na comunicação do seu conteúdo. Constança recorre à definição do adjetivo poético (que indica “algo que inspira, comove e que é emocionante”), para caracterizar este seu arquivo, que “não tem apenas valor documental, mas também estético e emocional”. “Enquanto artista, o meu objetivo é transmitir a minha experiência com a comunidade ao público, e se o fizer de forma poética consigo tocar as pessoas de modo a que se identifiquem com estas questões, assim como eu me identifico”.

Featured image

“Histórias de amor e desamor, engraçadas ou comoventes”

“Lembro-me da minha comunhão, fui vestida de anjo duas vezes, antes de fazer a comunhão estava com as asinhas como se usava antigamente nas províncias, éramos os anjinhos, era muito bonito. Eu lembro-me que me vestiam de anjo, mas foi num andar, e eu tinha que descer por ali abaixo, a minha mãe largou-me da mão e eu caí pelas escadas abaixo. Ia cheia de colarinhos de pérolas, parti as pérolas todas, lá-me arranjaram e lá fui para a igreja. Lá na igreja, faziam sempre duas alas, e havia sempre duas comunhões, e ia sempre um pároco, uma menina e um menino, fazíamos uma vénia e levávamos ao altar, vestidos de anjo, são coisas que eu às vezes, estou sozinha e lembro-me destas coisas assim.”

Para se aproximar dos idosos, que ao início não percebiam por que razão ali estava, no centro, achando que se tratava de uma nova funcionária (chamavam-lhe “doutora”, como se ela pertencesse à direção do centro), Constança usou aquela a que chama de “estratégia da Conversa”, assim mesmo, grafada com maiúscula inicial. Alguns idosos mostraram-se mais “conversadores” do que outros, “mas no geral todos estavam sedentos de contar as suas histórias, as suas fragilidades, os seus medos e as suas alegrias”. Ao fim de algum tempo e de algumas visitas, abafada a estranheza inicial, as conversas tornaram-se mais “pessoais e emocionais”, abordando temas como a infância, o amor ou a solidão. Constança ouviu (e gravou e transcreveu) “histórias incalculáveis”, algumas reais, outras “imaginadas ou imprecisas, histórias de amor e desamor, engraçadas ou comoventes, histórias de uma “infância longínqua ou muito recentes”, e histórias sobre novas paixões e amizades”, como a da dona M. (o uso da inicial respeita a opção de Constança, que no livro optou pelo anonimato dos idosos, para manter a sua privacidade), uma das que compõem este “arquivo poético”, e que pode ser contada assim: quando dona M. chegou ao centro as “doutoras arranjaram-lhe”, o sr. C. Queriam que a Dona M. se casasse com ele, mas a dona M. não queria casar, apesar de o sr. C. ser muito “bonzinho”, muito mais do que o seu marido, que era “mau” e depois “meteu-se no vinho” e fez-lhe a “vida negra”. Dona M. não queria casar porque já se casara uma vez e isso bastara-lhe, não casaria mais, não casou. Olhava por ele, pelo Sr. C., e ele olhava por ela. Estavam no centro juntos, jogavam às cartas e ao dominó, saíam do centro juntos, iam para casa juntos, jantavam juntos, viam televisão juntos, e à noite o sr. C. regressava a casa. Às vezes iam ao Jardim Zoológico e a Belém. “Ele gostou muito de mim, engraçou comigo pronto, ele disse mesmo que nunca foi tão feliz como foi comigo, e ele teve duas mulheres, a gente fartava-se de rir”. Depois o sr. C. morreu. Para a dona M., ele teve uma “morte santa”.

Esta história, assim como a primeira aqui transcrita e as outras que lhe foram contadas, têm para Constança um “enorme valor emocional e humano”, e permitem, além disso, “percorrer a história de Alfama, de Lisboa e de Portugal, assim como da educação, valores sociais e familiares de uma geração”.

Featured image

“O que é que queres ser quando fores velhinho?”

Os três meses de residência artística no centro foram acompanhados de uma longa investigação teórica sobre a velhice. No decorrer da investigação, Constança quis saber o que pensavam as crianças, “grupo etário bem distante” deste com o qual estava a trabalhar, em relação aos idosos. Para isso, e recorrendo ao apoio da Junta de Freguesia da Sé, que neste processo serviu de intermediária, entrou em contacto com a diretora de uma escola primária próxima do centro de dia, a Escola da Sé. Na sala de aula, diante de uma turma do primeiro ano, Constança pediu aos alunos que desenhassem idosos (ou “velhinhos”, como lhes terá dito) e respondessem à pergunta: “O que é que queres ser quando fores velhinho?”. Os resultados, que são também dados a conhecer neste “arquivo poético”, foram “curiosos, divertidos e comoventes”, descreve Constança. “Não vou fazer nada. Quando ser velhinho eu não quero fazer nada. Ou vou ser massagista, porque eu massajo bem.” “Vai correr bem. Só que vou ficar um bocadinho em casa. Vou ficar a descansar. Às vezes vou ver televisão. Posso ir um bocadinho à rua. E vou comprar comida”.”Vou jogar bingo”. Ou o simples e lacónico: “Não sei”.

Os idosos, esses, nos desenhos, têm caras sorridentes, rugas, alguns usam óculos, e quase todos têm uma bengala, que ou lhes chega pela cintura ou é maior do que eles. “Na sua maioria, os idosos representados estão a fazer algum tipo de atividade ou inseridos numa narrativa imaginada pelas crianças. E apenas numa minoria dos desenhos é possível observar a expressão de incapacidades físicas ou de sentimentos como a solidão”, explica Constança. Mais tarde, numa outra iniciativa levada a cabo por Constança, ainda durante a residência artística, os idosos do Centro Social da Sé e estas crianças acabariam por se encontrar numa sala comunitária da freguesia, num encontro intergeracional que tanto teve de “divertido”, como de “enternecedor”. Os mais velhos ensinaram aos mais novos o jogo do dominó e estes, por sua vez, ensinaram aos mais velhos, com orgulho desmedido, o jogo do galo.

Featured image

Finda a residência artística, Constança quis dar a conhecer ao público o seu projeto. Organizou uma visita guiada ao centro de dia, onde foram expostos cartazes com fotografias e frases e comentários ouvidos no centro. Aos visitantes, interpelados à entrada, foram distribuídos “manuais de instruções” com regras e direções para explorar o edíficio, de modo a conseguirem encontrar os envelopes que haviam sido espalhados pelo centro, contendo no seu interior as histórias dos idosos, aquelas histórias, a história da dona M. e a história do Sr. C., a história da dona R., da dona S., da dona E., do sr. B. A história de todos os idosos que todos os dias chegam ao Centro Social da Sé entre as 9h00 e as 11h00, vindo a pé ou de boleia, para jogar dominó, fazer crochê, tricô e sopas de letras, e, quem sabe, receber a visita inesperada de alguém que ali vai apenas com um propósito: ouvir o que eles têm para contar. Que não é pouco.

“Segredo vergonhoso”

Da investigação sobre a velhice, iniciada com a residência artística no Centro Social da Sé e desenvolvida na tese de mestrado, Constança retirou algumas conclusões, entre elas a de que a sociedade “olha para a terceira idade como uma espécie de segredo vergonhoso que não deve ser mencionado”, e a de que existe “um esquecimento geral em relação aos idosos”, não havendo da parte das pessoas “a consciência de que os idosos são pessoas reais, com as mesmas necessidades e sentimentos de qualquer adulto”.
Apesar de existirem muitos projetos sociais, como o Centro Social da Sé, refere Constança, “há milhares de idosos, seja em Portugal, seja noutros países, que continuam a viver em situações de infelicidade e desamparo”.

Máquina de Escrever, 11-02-2015

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s