Phil Elverum: “Não ter esperança permite-me estar mais tranquilo”

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Mount Eerie é Phil Elverum, músico nascido em Anacortes, Washington (EUA), em 1978, onde vive atualmente. É conhecido sobretudo pelo seu projeto a solo The Microphones, que manteve desde 1997 até 2003. It Was Hot, We Stayed in the Water e The Glow Pt. 2, álbuns lançados em 2000 e 2001, respetivamente, continuam ainda hoje a ser considerados como aquelas aves que raramente avistamos. Nesse ano de 2003, depois de uma viagem à Noruega, onde permaneceu durante cerca de quatro meses a viver sozinho numa cabana de madeira, decidiu mudar o nome do projeto para Mount Eerie. Lançou, desde então, vários álbuns, entre os quais Lost Wisdom (em colaboração com Fred Squire e Julie Doiron), Dawn (escrito durante a sua estadia na Noruega), Clear Moon e Ocean Roar. Sauna é o seu mais recente álbum, com lançamento previsto para dia 3 de fevereiro. Esta entrevista resultou de uma troca de e-mailsque se prolongou durante cerca de duas semanas. Ao longo da entrevista há várias referências a livros da biblioteca pessoal de Phil Elverum. Como não estivemos de facto lá, não a visitamos, é necessária uma explicação: Phil criou, há tempos, uma página na internet com fotografias da sua coleção completa de livros, coisa que, de resto, acha que toda a gente devia fazer.

Quando mudou o nome do seu projeto, há cerca de 12 anos, disse que The Microphones era um “projeto concluído”. No entanto, tem dado, com Mount Eerie, continuação a algumas canções antigas, chamando-lhes “sequelas”. The Microphones é de facto um projeto concluído?
Prefiro não estar muito preso a essas distinções. Acho que o nome do projeto não é assim tão importante. Além disso, gosto da ideia de que as canções nunca estão concluídas, e que ganham uma nova vida e uma nova versão de cada vez que são apresentadas. É divertido manter alguma ambiguidade no que diz respeito às fronteiras entre os nomes e outros detalhes. E além de ser divertido, vai ao encontro daquele que é para mim o primeiro propósito de fazer arte.

Na verdade faz muito isso. Regressa com frequência a canções antigas para explorar, a partir daí, novos contextos e novas versões. Identifica-se com aquela ideia de estar sempre a escrever o mesmo poema?
Sim, de certa forma. Mas não diria exatamente assim. Acho que, de algum modo, as canções estão “vivas” e devem evoluir. Claro que a gravação, ao fixar no tempo determinadas versões, torna esta ideia estranha, por isso é que eu me esforço para tornar todas as gravações excelente fósseis.

Mudou o nome do projeto depois de ter regressado da Noruega. Na mesma altura, também optou por mudar o seu apelido, acrescentando-lhe um “e”, do mesmo modo que fez com a expressão “Mount Erie”. Porquê?
Sim, é verdade. Essas alterações ortográficas não têm uma importância conceptual muito significativa. Quando estava na Noruega comecei a escrever “Elverum” em vez de “Elvrum” para evitar mal-entendidos com as pessoas da região. Segundo a grafia original noruega, escreve-se Elverum. O meu nome de família é que a certa altura mudou, provalmente devido a um erro. Se tenho de escolher, normalmente opto pela versão mais antiga, e isto adapta-se a tudo. Quanto ao nome do projeto, Mount Eerie, escolhi-o porque acho que a palavra “eerie”, que significa ameaçador, funesto, extraordinário (no sentido de ser fora do comum), é interessante. “Erie” é apenas o nome de uma personagem de guerra histórica, e, creio, alguns lugares a que deu nome. Mas, como eu disse antes, acho que o nome não é importante. Não é por aí.

Há pouco disse que normalmente opta pela versão mais antiga, e que isso se adapta a tudo. Fá-lo por razões culturais, ideológicas ou simplesmente porque o resultado final, à superfície, lhe agrada mais?
Acho que é apenas um hábito, ou uma inclinação natural que eu tenho para isso. Se eu pudesse ler Tolstói em russo, só leria Tolstói em russo. Se eu puder comer um vegetal no jardim onde ele cresceu, vou optar por isso. Inclino-me para a ideia de “fonte original”, embora não ache que ela realmente exista.

É por isso que tem três traduções diferentes do livro Guerra e Paz, de Tolstói? Porque esteve à procura da mais fiel ao original?
Suponho que sim. Na realidade, só li duas dessas traduções, mas sei que nenhuma das versões em inglês é a mais fiel ao original em russo. A ideia que eu tenho é que se ler muitas versões diferentes consigo aproximar-me do original, através dessa espécie de espaço negativo, de original fantasma que existe algures entre todas as traduções. Na verdade, acho que esta analogia também funciona com as minhas canções. Não tenho a certeza de alguma vez ter conseguido dizer a minha ideia de forma totalmente direta, mas todas as canções são, para mim, como que vários dedos que apontam para a mesma coisa, mas a partir de ângulos diferentes. E essa “coisa” para a qual estão a apontar, é, diria, esta ideia indizível a que chamo Mount Eerie.

Suponho que a faixa Through The Trees pt. 2 (“Misunderstood and disillusioned, I go on describing this place…”), do álbum Clear Moon (2012) seja sobre isso. Disse-me que não estava certo de alguma vez ter conseguido transmitir a sua ideia de forma totalmente direta. O que o leva a pensar assim?
Não disse isso no sentido de estar infeliz com o meu trabalho. Simplesmente não estou 100% satisfeito. É um sentimento pessoal. Continuo a sentir necessidade de fazer coisas, de continuar a pintar este enorme quadro, que ainda não está suficientemente claro.

Porque é que decidiu passar aquele inverno na Noruega?
Isso foi há muito tempo, quando eu tinha 24 anos. É a coisa perfeita para se fazer quando se tem 24 anos. Na altura, senti necessidade de olhar para a minha mente de uma forma mais próxima, mais atenta, e começar tudo de novo. Talvez também sentido necessidade de marcar uma linha entre a adolêscencia e a idade adulta. Mas na altura não tinha qualquer explicação. Precisei simplesmente de desaparecer.

Adolêscencia e idade adulta. O que as distingue afinal?
No meu caso, teve muito a ver com assumir responsabilidades, responsabilizar-me pelas minhas ações no mundo. Antes de ter vivido na Noruega pensava em mim como se estivesse, de alguma fora, separado do resto do mundo, como se pudesse levar a vida como me apetecia. Na cultura ocidental moderna essa linha que separa a adolescência da idade adulta é definida de acordo com um sentimento pessoal que cada um tem de descobrir por si mesmo, visto que não há qualquer ritual tradicional que a torne clara.

O seu interesse pela história da Noruega (em particular pela época dos vikings), teve alguma influência na escolha do lugar? Ou esse interesse surgiu depois?
Interessava-me pela Noruega mesmo antes de fazer essa viagem, em parte por causa do meu nome de família, que tem origens norueguesas (embora eu não seja um grande defensor dessa ideia de herança de sangue ou o que quer que seja), e em parte porque me agradava a perspetiva de viver num lugar selvagem do norte, com uma paisagem carismática. Continuo sem saber exatamente porque é que essas leituras me interessam. A verdade é que os vikings foram uns grandes idiotas. Defendiam valores que eu não defendo, como a vingança, o poder e o orgulho. Ainda assim, é divertido ler sobre isso.

Como foram esses tempos lá?
Foram tempos invulgares. Estive lá de novembro a março, e vivia no extremo norte, a norte do Círculo Polar Ártico, então estava escuro a maior parte do tempo. Como vivia sozinho nesse lugar remoto não tinha muito para fazer a não ser falar comigo mesmo e ficar um bocadinho maluco e apanhar lenha e ler e escrever cartas.

Há pouco disse que foi para a Noruega porque precisava de marcar uma linha entre a adolescência e a idade adulta. Considera que Mount Eerie é um projeto mais adulto do que The Microphones?
Sim, sem dúvida. Nas canções de Microphones há esse foco que são as interações humanas, há uma carga emocional muito forte. Mount Eerie é um projeto diferente, que me permite debruçar sobre questões que considero maiores.

Que questões são essas?
Não consigo resumir isso. Cada canção trabalha sobre uma determinada questão. Não tenho um número limitado de temas. Aliás, tenho procurado fazer uma espécie de zoom out para conseguir, no meu trabalho, ter uma imagem mais abrangente.

Esteve na Noruega entre 2002 e 2003. Durante esse tempo escreveu um álbum, Dawn, que viria a ser lançado apenas em 2008. Porquê?
Eu gostava realmente dessas canções e tencionava gravar um álbum de estúdio adequado. Tinha até ideias de produção gigantescas (e um bocado estranhas também). No entanto, isso nunca chegou a acontecer. Fiquei demasiado habituado às versões acústicas a solo, porque na altura, nos concertos, apresentava sempre as canções da forma como tinham sido escritas. Normalmente nem escrevo fora do estúdio, por isso ter escrito esse álbum na Noruega foi realmente uma situação única para mim. Ao fim de algum tempo tomei então a decisão de manter as versões simples e gravá-las, e abandonar a ideia de ter uma grande produção. Não me agrada a perspetiva de trabalhar em alguma coisa que não é imediata, que não é de agora. Nesses casos, tem de ser tudo muito cru.

A última faixa de Dawn tem como título Goodbye Hope, e tem a ver com essa ideia de renúncia à esperança – “Goodbye hope, Goodbye also to your ambushes”, e também, se quisermos, com uma ideia de fim. Foi disso que se tratou, de pôr fim a alguma coisa?
Sim, sem dúvida. Esse álbum foi escrito numa altura em que precisava de me libertar de tudo. Acho que a ideia de “esperança” é perigosa e negativa, porque apenas encoraja o desejo, e por isso está afastada do momento presente. Acontecia que por vezes esse sentimento de esperança crescia de uma forma inesperada, como uma emboscada, e enfraquecia a determinação que eu tinha naquilo que estava a fazer. Nessa altura, precisei então de me libertar não só de algumas relações interpessoais estranhas, como também de um certo compromisso imaturo que me ligava às coisas. Não ter esperança, estar “desesperançado”, permite-me estar mais tranquilo e deixar que as coisas simplesmente aconteçam. Esse álbum, Dawn, é basicamente sobre isso.

Han Shan, poeta e filósofo chinês, de quem pouco se sabe (julga-se que terá vivido no séc. IX), tem uma coleção de poemas intitulada Cold Mountain. Esse é também o título da segunda faixa de Dawn. Coincidência?
Não, não se trata de uma coincidência. Foi essa coleção de poemas de Han Shan que deu nome à canção. Tinha-a comigo quando estava na Noruega. Han Shan, que significa Cold Mountain, atribuiu a si mesmo o nome da montanha onde vivia. Foi isso que me levou a escolher o nome Mount Eerie (que é o nome da montanha onde eu vivo) para o meu projeto.

Reparei que tem muitos livros de Gary Snyder, poeta, ensaísta e ativista americano, na sua biblioteca. Foi um escritor que o influenciou?
Sim, definitivamente. Gosto muito de Gary Snyder. Admiro profundamente o seu pensamento e a sua visão das coisas. Gosto de tudo aquilo que escreveu, mas sobretudo dos seus ensaios. Recomendo-lhe que leia The Practice of the Wild.

Tem dito, em entrevistas, que muitas vezes é mal interpretado porque as pessoas pensam que as suas canções são sobre a natureza. A natureza não é, então, de todo um tema?
No geral, as pessoas pensam que estou a tentar expressar alguma coisa sobre a natureza, mas não estou. Nem sequer gosto da palavra “natureza”. Tento escrever canções com os elementos mais básicos: uma pessoa a experimentar coisas, matérias-primas, clima, aspetos da paisagem, experiências simples. Isto significa que os grandes símbolos icónicos, como as “montanhas” e os “lagos” e as outras coisas são usados como figuras nas minhas canções, mas apenas com o objetivo de clarificar várias ideias sobre a minha ideia pessoal do que significa ser uma pessoa neste tempo e neste lugar.

Noutra entrevista, disse que “a natureza não existe”. Quer explicar melhor a afirmação?
Essa é uma ideia muito defendida também por Gary Snyder. Acho que a palavra “natureza” só pode existir se partirmos do princípio de que existe outra, que é “não-natureza”. Não concordo com isso. Oponho-me a este pensamento dualista porque é verdadeiramente perigoso. Faz com que hoje em dia a maior parte das pessoas viva completamente alienada dos elementos simples que estão à sua volta, permitindo o abandono e ignorância de todos aqueles lugares selvagens e mágicos onde nós existimos, estejam eles onde estiverem. “Não existe natureza” significa que todos os lugares são selvagens e apodrecem e depois florescem, e que a “civilização” é uma performance complicada que nós, humanos, andamos aqui a fazer.

Vamos falar sobre o novo álbum, Sauna. Disse, também noutra entrevista, que o lançamento de um álbum novo é sempre antecedido de um momento de reflexão e avaliação, que implica que comece a vê-lo, ao álbum, “como um todo, como se o estivesse a ver pela primeira vez”. Aconteceu isso com Sauna?
Sim, aconteceu exatamente o mesmo. Suponho que isto seja muito comum entre as pessoas que fazem trabalhos artísticos maiores, no sentido de serem mais longos. No início, parece tudo muito vago, mas depois, gradualmente, as coisas começam a ficar mais claras. Li recentemente uma entrevista à Björk em que ela refere precisamente esse aspeto, quando descreve o novo álbum. Há essa coisa sem forma nem propósito que fazemos no início. Mais tarde, vamos acabar por perceber o que é.

Escreveu no seu site que Sauna é sobre “vikings e zen e vida real”. Esse inverno na Noruega continua, de alguma forma, presente?
Provavelmente não, mas… quem sabe. Ainda sonho muitas vezes que estou na neve, lá na Noruega, à procura de madeira. Anunciei esse tema sobretudo porque me pareceu a melhor forma de descrever os títulos das faixas, como Boat, Emptiness, Youth, Books, etc. Imagino uma espécie de triangulação entre estas três coisas: dois tempos e lugares muito alienígenas, vikings e zen e, depois, a vida real, que formam o triângulo que é o meu pensamento atual.

Também no seu site, disse que apesar de a ideia de sauna ser simbólica, tentou que este álbum fosse o mais literal possível, usando para isso gravações que fez na sauna que os seus pais têm em casa. Compara ainda a sua música a uma sauna real. Qual é a relação entre Sauna e a ideia de purificação associada às saunas em certos lugares?
Não diria que há uma ideia de purificação, mas sim de transformação. Para mim, a ideia de “pureza” é uma mentira. Acho que toda a música pode ser uma sauna, bem como toda a arte e toda a poesia e toda a literatura (tudo o que seja exercício criativo), não apenas a minha. Fazemos esta coisa estranha, a que chamamos arte, que não nos alimenta nem sustenta. Qual é então o propósito? O propósito é explorar os nossos cérebros gigantes e encontrar novas formas de entendimento e novas perspetivas. Para mim, a sauna tem o mesmo propósito. Não se trata de uma analogia extraordinária, talvez esteja apenas a estabelecer uma ligação idiota entre as duas coisas. Por outro lado, aprecio a estética tradicional do norte da Escandinávia e a mistura interessante entre arte extremamente desenvolvida e literatura e ainda a experiência muito primordial de pôr os miolos a transpirar dentro de uma cabana escura. É esta combinação entre erudito e absolutamente selvagem que procuro ter na minha música e na minha vida.

“Ultimamente não tenho nenhum objetivo com isto a não ser explorar a minha mente”, escreveu também no seu site. De que modo é que este último álbum, Sauna, contribuiu para a sua investigação pessoal?
Acho que ainda estou demasiado próximo do álbum para ter qualquer perspetiva sobre ele. Normalmente só ao fim de alguns anos é que consigo distanciar-me o suficiente de um álbum para perceber o que realmente aconteceu ali. Neste momento, tenho a sensação que fiz um artefacto aúdio com algumas ideias estranhas e cruas que me passaram pela cabeça entre 2013 e 2014. Mas, para ser franco, acho que é o meu melhor trabalho.

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