A estação em luto de Patti Smith

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Patti Smith escreveu O Mar de Coral (publicado originalmente em 1997) em homenagem a Robert Mapplethorpe, amigo e “companheiro de armas”, que morreu em 1989, vítima de sida. Na introdução, Patti Smith explica por que razão decidiu escrever o livro. Antes de morrer, horas antes, Robert pedira-lhe que escrevesse o prefácio de Flowers, livro que reúne as suas fotografias de flores, a cores, tiradas ao longo da última década de vida, que viria a ser publicado um ano depois, em 1990. Na mesma conversa, Robert pede a Patti que escreva a história deles. “Ele sabia que estava gravada na minha memória, porque me pedira várias vezes para a contar antes de adormecermos”. Foi preciso muito tempo para que encontrasse a força necessária para o fazer, escreve Patti.

Quando finalmente encontrou, escreveu O Mar de Coral, “uma estação em luto”, cujos poemas falam da determinação de Robert (“M.”), “o rapaz que adorava Miguel Ângelo”, “em viver, que nunca pôde ser dominada, nem mesmo na morte”. A edição portuguesa, publicada em janeiro deste ano pela editora não (edições), com tradução de Ricardo Marques, contempla ainda, à semelhança da edição em inglês tida como referência, o prefácio que Patti escreveu para Flowers (em que Robert é apresentado como o “rapaz feliz e malicioso”, que nasceu em 1946, terceiro de seis irmãos, e cresceu em Floral Park, Long Island, e depois como o jovem de 20 anos de “movimentos toscos”, “andar ligeiramente curvado” e “olhar verde e perturbado enquanto circulava à volta das suas obras, inspecionando-as”) e o poema Refletindo Robert, que escreveu para Mirrors, livro que evoca a memória de Robert, publicado em 1993.

Nas primeiras páginas de O Mar de Coral, Patti descreve a primeira vez que viu Robert: “Ele estava a dormir. Mantive-me de pé, sobre ele, este rapaz de vinte anos, que sentindo a minha presença abriu os olhos e sorriu. Poucas palavras depois, tornou-se meu amigo, meu companheiro, minha amada aventura”. Patti e Robert conheceram-se em 1967, pouco tempo depois de ela ter chegado a Nova Iorque, vinda de Nova Jérsia (EUA), com pouco dinheiro e um exemplar do livro Iluminações, de Rimbaud, na mala. Tinham os dois vinte anos.

Viveram juntos durante sete anos, primeiro num apartamento em Brooklyn e depois no mítico Chelsea Hotel (que era, disse Patti noutra ocasião, como uma casa de bonecas na série The Twilight Zone, com uma centena de quartos, cada um representando um pequeno universo, onde “toda a gente tinha alguma coisa oferecer e ninguém parecia ter muito dinheiro, e mesmo os mais bem-sucedidos pareciam ter apenas o suficiente para viverem como vagabundos extravagantes”), primeiro como namorados e depois como amigos, assumida a homossexualidade de Robert.

Em 1986, Robert soube que tinha sida. Em O Mar de Coral, Patti recorda esse momento: “Quando ficou doente, chorei sem conseguir parar. Ele repreendeu-me, não com palavras, mas com um simples olhar de desaprovação, e eu parei”. Três anos depois, Robert morreu. Patti conta que na altura não conseguiu chorar, e por isso escreveu. Escreveu O Mar de Coral, a sua despedida ao amigo, sua “aventura”, sua “alegria desmedida”

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