Naomi Yang: “Sinto-me grata por não ter desperdiçado a minha juventude”

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Em 1988, pouco tempo depois de lançarem o primeiro single, Tugboat/King of Spain, Naomi Yang, baixista, Dean Wareham, guitarrista, e Damon Krukowski, baterista, estiveram à conversa com o jornalista Francis Dimenno. Era a primeira entrevista que davam, e começa assim: “No dia 25 de Maio os Galaxie 500 sentaram-se no meu telhado a comer uma pizza de pepperoni e a beber coca-cola e a falar sobre J. Richman [Jonathan Richman]. Naomi contou que Dean tinha ido a um concerto de Richman e que lhe tinha pedido para tocar Affection. Richman disse que não, e acrescentou: ‘Só porque alguém tem a voz mais alta não quer dizer que consiga o que quer’”.

A entrevista está reproduzida em Temperature’s Rising: An Oral and Visual History of Galaxie 500, livro publicado em 2013 (Yeti Publishing), que reúne fotografias inéditas, entrevistas a membros da banda, reproduções de cartazes, capas de álbuns, flyers, entrevistas publicadas em jornais e revistas, press releases, cartas, postais e outros documentos cedidos pela banda e por amigos e pessoas próximas, coligidos por Mike McGonigal, então colaborador da Pitchfork. As notas de rodapé no final de cada página, que explicam e contextualizam os documentos (organizados de forma cronológica, desde o início da banda, em 1987, até ao seu fim inesperado em 1991), são de Naomi Yang.

Dean, Naomi e Damon conheceram-se na escola secundária, em Manhattan (Nova Iorque), em 1978. Dean recorda a primeira conversa que teve com Damon. Foi numa aula de história. Damon pediu-lhe o caderno porque tinha faltado a algumas aulas (estivera doente), mas acabaria por perdê-lo. “Damon era muito gentil; estava sempre a rir-se das minhas piadas, mesmo quando não tinham graça. Continuámos amigos até a escola terminar e chegámos a participar em algumas peças de teatro”. Numa das aulas que ambos frequentavam, conheceram Naomi.
Os dois rapazes acabariam por ir juntos para Harvard (Naomi, que era um ano mais nova, juntar-se-lhes-ia depois). “Eu juntei-me aos socialistas e Dean aos comunistas. Acho que devíamos ser as únicas pessoas que, sendo de grupos diferentes, passavam tempo juntas. Pouco tempo depois, criámos uma banda”, recorda Damon. Chamava-se Speedy & the Castanets. Mais tarde, o baixista dessa banda, um colega de escola, Marc Glimcher, abandonou o grupo, e Naomi, que vivia então com Damon, voluntariou-se para ocupar o seu lugar, apesar de nunca ter tocado baixo. “Na altura, andava a ouvir obsessivamente Joy Division e percebi que aquilo que eu gostava mais eram as linhas de baixo”. Noutra entrevista, Naomi conta que estava “farta” do curso de Arquitetura e, por isso, decidira juntar-se a Damon e Dean. Com um grupo novamente formado, nasceriam assim os Galaxie 500.

Nessa mesma entrevista (1988), citada no início, Dean, Damon e Naomi, que haviam passado os últimos meses em concertos (a maior parte para cinco ou seis pessoas, diz-se) sobretudo pela zona de Boston (era ali, no bairro de South End, que ficava a fábrica abandonada onde ensaiavam, frente a um edifício que tinha o nº. 500 marcado), dizem ter planos para um novo álbum, que seria produzido por Mark Kramer. Kramer tinha um estúdio em Nova Iorque (Noise New York). Fora lá que gravaram o single (Tugboat/King of Spain). Apesar de não ser muito conhecido, os três confiavam no seu trabalho, porque conheciam bem o álbum da banda depunk americana Half Japanese (Music To Strip By) que Kramer tinha produzido. Num dos excertos publicados no livro, o produtor recorda a primeira vez que os ouviu, aos Galaxie 500, tocar: “Para ser verdadeiramente honesto, quando os vi tocar pela primeira vez, pensei – ‘estes miúdos só podem estar a mentir’. Era impossível terem ido para Harvard. Pareceram-me completamente estúpidos! Um único acorde para uma música inteira? A tocar assim tão devagar? Por favor!”. Kramer viria a produzir todos os álbuns da banda, e o seu trabalho e dedicação foram amplamente reconhecidos e elogiados até ao fim. Não há, como houve com outros assuntos relacionados com a banda (já lá vamos), versões contraditórias ou dúbias ou ambíguas. Os Galaxie 500 não teriam sido a mesma banda se Mark Kramer não tivesse produzido os seus álbuns. É essa a impressão que fica. “É difícil imaginar como seria o nosso som sem Kramer. Se produzir implica tomar as decisões certas, e fazê-lo rapidamente, então foi certamente isso que ele fez. Kramer colocava-nos num espaço sónico muito particular e fazia com que a nossa pequena banda soasse a uma coisa muito grande”, recorda Dean. Kramer era considerado o “quarto membro” da banda.

O “novo” álbum referido na entrevista (1988) chamar-se-ia Today. Foi lançado em 1988 pela editora independente Aurora Records, fundada por Marc Alghini com o propósito único de lançar os álbuns da banda. A capa de Today, uma fotografia de um jardim de rosas do fotógrafo francês Eugene Atget, foi escolhida por Naomi (responsável, desde o início, pelo aspeto visual e gráfico da banda), que viria também a fazer as capas dos álbuns seguintes. Entre as 10 faixas que compõem o álbum, há uma versão de uma canção de Jonathan Richman: Don’t Let Our Youth Go to Waste.

Foi também por volta dessa altura que a banda teve o primeiro desentendimento, porque Dean disse que queria dividir os créditos das músicas. O episódio é recordado por Damon: “No contexto do negócio da música não era assim tão estranho fazer isso. Mas tanto eu como Naomi nunca havíamos pensado na música senão como essa coisa que fazíamos juntos – nunca se tratou de um negócio, de propriedade, o que é meu e o que é teu. Connosco sempre foi diferente, e era precisamente por isso que o fazíamos”. Dean acabou por desistir da ideia, mas o episódio nunca ficaria totalmente esquecido. Ainda nesse ano, gravariam a primeira de duas sessões com John Peel, na BBC Radio 1.

Today foi bem recebido pela crítica e pelo público. Marc Alghini conta que a editora fez mais de 5000 cópias e que foram todas vendidas, “o que para primeiro álbum numa editora pequena não foi nada mau”. Um ano depois, em 1989, lançavam o segundo álbum, On Fire, pela Rough Trade (Today havia dado verdadeiramente nas vistas). On Fire trouxe o reconhecimento definitivo à banda. Numa das páginas do livro (seguida de várias fotografias de viagens), Naomi recorda os dias (“sete, talvez dez”) que passaram em estúdio a gravar o álbum: “FazerOn Fire foi uma experiência muito feliz. Acho que tínhamos chegado a um ponto em que nos sentíamos capazes de fazer o que nos desse na cabeça. Havia um sentimento generalizado de optimismo em relação ao caminho que a banda estava a seguir. A atenção dos críticos era muito positiva. Foi um momento muito alegre”.

O terceiro álbum, This is Our Music, foi lançado em 1990 (Rough Trade). Foi também nesse ano que a relação de Dean com Damon e Naomi começou a deteriorar-se. “Estávamos finalmente a viver do dinheiro que a banda fazia, mas eu na altura não via isso como um sonho. Tudo se tinha tornado num pesadelo. Quanto mais dinheiro ganhávamos, menos eu via no Dean o amigo que tivera”, recorda Damon. O ambiente em estúdio, bem como nos concertos, começara a ficar “tenso”. Terry Tolkin, produtor (Caroline Records e, mais tarde, Elektra e Rough Trade), diz que quando o álbum This is Our Music saiu os membros da banda “odiavam-se”. “Assisti a algumas cenas feias no estúdio em Nova Iorque. Esse álbum é o que menos gosto dos Galaxie 500. Nunca o ouço, prefiro os outros dois”. Naomi também recorda esses tempos no estúdio, muito menos alegres do que antes: “Foram tempos terríveis, tristes e frustrantes esses que passámos no estúdio a gravar This is Our Music. O estúdio estava literalmente a cair – os bombeiros haviam entrado ali e dito a Kramer que a parede que dava para a cabina de som estava em risco de incêndio, então ele teve de a demolir”. Além disso, eu e Damon sentíamo-nos traídos por Dean porque se tinha tornado claro que ele queria desenvolver projetos à parte, sem contar connosco”.

Apesar dos vários testemunhos, suficientemente ambíguos para serem contraditórios, não ficam claras, nos documentos que o livro reúne, as razões por que a banda se terá a começado a desintegrar. A única coisa que fica clara, e essa está bem à vista, demasiado bem à vista, terrivelmente bem à vista, é que nem Dean nem Damon nem Naomi se sentiam felizes na banda. Há uma entrevista (disponível na internet) com os três durante a chamada “fase crítica”. O jornalista (alheio ao que estava a acontecer) diz-lhes que acha que eles “não são um grupo muito visual”, porque simplesmente “param ali quietos no palco com ar sério”, e Naomi responde: “As pessoas estão sempre a perguntar-me porque é que eu não me rio em palco. Mas eu penso: porque é que haveria de rir? Não há nada especialmente alegre a acontecer lá em cima”.

Pouco tempo depois disso, a banda acabaria por se separar. Após um concerto no Bowdoin College, no estado do Maine (EUA), e em vésperas de assinarem contrato com uma editora maior, Damon ligou a Dean dizendo-lhe que ia comprar os bilhetes para o Japão (ele e Naomi estavam praticamente de malas feitas), onde iam em digressão. Dean disse-lhe que não, que não ia. Que tinha desistido. Damon perguntou porquê e Dean respondeu: “Não tenho mais nada a dizer-vos”. Damon e Naomi contam que ficaram indignados, revoltados (“Agarrei no telefone e fiz uma coisa que nunca tinha feito”, diz Naomi. “Gritei com ele e disse-lhe que ele era um cobarde egoísta e preguiçoso. Depois desliguei”). Dean, pelo contrário, diz que se sentiu “livre”. Esse concerto, no dia 5 de abril de 1991, sexta-feira, foi o último concerto dos Galaxie 500.

Mike McGonigal escreve nas últimas palavras do livro, em jeito de posfácio. O seu testemunho é seguido do de Naomi, que, entre outras coisas, diz: “20 anos depois de os Galaxie terem acabado, olho para estas páginas com um sentimento muito diferente: não se trata de um sentimento de perda, mas de uma mistura de nostalgia e choque perante a noção de que tudo aconteceu realmente há muito tempo, e que desde então o nosso mundo, e eu – enquanto artista e pessoa – mudámos muito. Sinto-me grata por não ter desperdiçado a minha juventude”.

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