Entrevistas da Paris Review novamente publicadas em livro

Featured image

Depois de ter publicado, em 2009, o primeiro volume das entrevistas da Paris Review, a Tinta da China lançou o segundo volume, Entrevistas da Paris Review 2, com tradução e notas de Rita Almeida Simões e ilustrações de Vera Tavares. The Paris Review, saiba-se, é uma revista literária de Nova Iorque, fundada em 1953 por um grupo de amigos (Harold L. Humes, Peter Matthiessen e George Plimpton). Nas suas páginas estrearam-se escritores como Adrienne Rich, Philip Roth, V. S. Naipaul, Italino Calvino e Jonathan Franzen (refira-se também a publicação no quinto número da revista de alguns excertos de Molloy, romance de Samuel Beckett, nessa que foi uma das primeiras traduções de textos seus em inglês).

O segundo volume das entrevistas, publicado no final do ano passado, abrange um período de 47 anos, desde 1959 (entrevista a T. S. Eliot) até 2006 (Joan Didion). As entrevistas respeitam um critério cronológico: a T.S. Eliot seguem-se Ezra Pound (um e outro entrevistados pelo poeta, editor e crítico literário, Donald Hall), Louis-Ferdinand Céline, Harold Pinter, Vladimir Nabokov, Elizabeth Bishop, Philip Roth, Marguerite Yourcenar, Iris Murdoch, Primo Levi, Jan Morris e, finalmente, Joan Didion (cuja ausência no primeiro volume, bem como a de algumas entrevistas a outros escritores publicadas neste segundo volume, foi lamentada por um crítico literário).

Algumas perguntas repetem-se, com ligeiríssimas e pouco significativas variações, em quase todas as entrevistas (bem como em quase todas as entrevistas feitas a escritores, no geral). Dizem respeito a assuntos como as influências literárias, relação entre o ensino e a escrita (se traz vantagens, se não as traz, se ajuda à escrita ou se não), leituras (as que influenciaram e as que são apreciadas), conselhos aos poetas mais jovens (numa espécie de imitação, sem nunca o chegar a ser, de Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke), processo e método de composição de escrita, planos para livros futuros.

Tem interesse comparar as respostas. Sobre a importância do romance, Céline (que foi entrevistado em diferentes ocasiões) e Philip Roth (entrevistado por Hermione Lee em 1984) têm opiniões diferentes. Para o primeiro, os romances “são um pouco como a renda… uma arte que desapareceu com os conventos”. Diz Céline que os romances “não conseguem competir com os carros, os filmes, a televisão, o álcool. Um tipo que comeu bem, que escapou à grande guerra, à noite dá um beijinho à velhota e assim termina o seu dia. Está feito”. Já Roth diz que ler romances “é um prazer profundo e singular, uma atividade humana absorvente e misteriosa que não exige nem mais nem menos justificação moral ou política do que o sexo”.
Em relação às rotinas de trabalho, Nabokov, entrevistado por Herbert Gold em 1967, no Montreux Palace Hotel, Suíça (onde vivia com a mulher, Véra), dois anos antes de publicar Ada ou Ardor (Relógio d’Água, 2012), diz que tem um horário flexível, sendo “especialmente exigente” com os instrumentos de trabalho: “cartões pautados e lápis bem afiados mas não muito duros, com borrachas na ponta”. Marguerite Yourcenar, entrevistada por Shusha Guppy em 1987, meses antes de morrer (uma longa conversa em que muito se falou sobre homossexualidade, feminismo e a relação de Yourcenar com Grace Frick), diz que escreve em qualquer lado: “Podia escrever aqui, enquanto converso consigo. Escrever não exige demasiada energia – é um descanso, uma alegria”.

Outro exemplo (é o último). Em resposta à pergunta – “Quando soube que queria escrever”, Elizabet Bishop (cuja entrevista, feita em 1978 por Elizabeth Spires, fica na memória sobretudo pelas descrições detalhadas de objetos que guardava em casa, como a figura de proa, a vitrina emoldurada pendurada no corredor, a sandália de criança, a chupeta, as tigelas e caçarolas metálicas cheias de arroz, e pela descrição desse momento em que Bishop, a viver no Brasil, no topo de um cume montanhoso, soube que tinha ganho o Prémio Pulitzer e como não tinha com quem nem como festejar, arrancou num pacote de bolachas, marca Oreo, segundo se lembra, que encontrou na casa de um amigo e assim “festejou a conquista do prémio”), diz que quando era jovem não pensava sequer nisso, não tinha esse objetivo, assim como não tinha qualquer outro (“Receio que, na minha vida, tudo tenha simplesmente acontecido”). Iris Murdoch, pelo contrário, diz que soube desde muito cedo, desde criança, que queria ser escritora, e Joan Didion, entrevistada em 2006 por Hilton Als, responde que a ideia de ser escritora, pelo menos no início, a assustava, porque era constantemente levada a crer (pelos professores da faculdade) que “toda a gente já o tinha feito, e melhor”.

Outras perguntas, menos gerais, abordam aspetos específicos da obra e vida do autor entrevistado. Philip Roth é questionado a respeito do caráter biográfico dos seus livros (quanto dele há em Nathan Zuckerman, personagem central de vários romances seus, e vice-versa, e quanto há de verdade e fingimento no papel do escritor). E Jan Morris é levada a falar sobre a operação de mudança de sexo e de que forma isso afetou, ou não, a sua escrita. Menos pessoais, e delicadas, são as perguntas sobre a sua escrita. Jan Morris, nascida a 1926, escreve sobretudo sobre viagens e lugares. Na entrevista, que segundo Leo Lerman, o entrevistador, começou em 1989 e continuou por meio de telefonemas e cartas, Jan Morris fala sobre Veneza (o turismo, na altura, parecia-lhe estar a destruir a cidade), Pequim, Londres (“acho sempre que Londres me venceu”), e, finalmente, Chicago – a que entre as cidades do século XX “mais se aproxima do ideal de uma cidade perfeita”.

Mas estes breves fragmentos não esgotam a leitura deste segundo volume de entrevistas, bem como a leitura dos outros volumes que não estão traduzidos em português e das outras entrevistas que estão publicadas no site da Paris Review, num arquivo que vai desde 1953 (E. M. Forster foi o primeiro a ser entrevistado) a 2014 (Vivian Gornick, Michael Haneke e Karl Ove Knausgaard foram os últimos). Alguém escrevia que a Paris Review é a bíblia dos escritores e leitores. A metáfora é banal e fácil, mas não nos incomoda usá-la. Nada mesmo.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s