Celebrar John Berryman

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Contra algumas expetativas iniciais, a Tinta da China começou, em 2013, a publicar uma coleção de livros de poesia. Pedro Mexia, coordenador, explica que a editora sempre esteve mais ligada à história, ao ensaio e depois à ficção portuguesa, e que a poesia não estava inicialmente nos planos editoriais. Com as mudanças no mercado editorial – concentração e fim de algumas editoras e coleções – as coisas mudaram. Partindo da observação de que “as editoras com alguma visibilidade tinham desistido da poesia e de que as que continuavam a publicar tinham uma distribuição insuficiente”, a Tinta da China decidiu tomar as rédeas dessa grande empreitada. Bárbara Bulhosa, responsável da editora, falou com Pedro Mexia, e a ideia foi sendo trabalhada a partir daí.

O primeiro livro foi publicado em 2013, uma antologia do poeta cabo-verdiano João Vário (1937-2007), Exemplos, que “lembra os Cantos de Pound, ‘cânone ocidental’ com o qual Vário, cidadão do mundo, se mede”, e “traz da Bíblia certas imagens, vocábulos e personagens, bem como algumas exortações e profecias”, escreve Mexia numa nota de apresentação ao livro.

No mesmo mês, maio, foi publicado o livro de estreia de Rosa Oliveira, Cinza, que Mexia, também em nota de apresentação, descreve assim: “poesia ‘confessional’, mas tão privada quanto política” que se faz da “comoção estilhaçada da Magnólia de Paul Thomas Anderson mas também das invasões bárbaras que assombram a Europa”. Rosa Oliveira “usa a alusão, a colagem, a sabotagem semântica e o sarcasmo para descrever mudanças, instantes, hiatos irrecuperáveis, tempos perdidos, maravilhas banais da nossa idade”, escreve o crítico literário.

Seguiram-se Depois da Música, de Luís Quintais (2013), Gaveta do Fundo, de A. M. Pires Cabral (2013), Equatorial, de Fabiano Calixto (2014), Jóquei, de Matilde Campilho (2014) e Última Semana, de Hugo Williams (2014). O último foi publicado em dezembro do ano passado, 77 Oníricas, do poeta americano John Berryman (1914-1972), traduzido pela primeira vez em português.

Com 77 Oníricas, publicado originalmente em 1964 com o título 77 Dream Songs, o primeiro de dois volumes que viriam a ser, mais tarde, publicados em apenas um, The Dream Songs, Berryman ganhou o Pulitzer de Poesia (Lyndon B. Johnson, na altura presidente dos Estados Unidos, haveria de convidá-lo a sentar-se à sua mesa na Casa Branca). Num artigo publicado no New York Times, John Malcolm Brinnin, poeta e crítico literário, refere a “excelência do livro”, que a seu ver merecia bem uma “celebração”.

Falámos com Pedro Mexia a propósito da publicação de 77 Oníricas. Na entrevista, que aqui publicamos, ficamos a saber, por exemplo, que a importância de Berryman é de tal modo inegável, que todas as questões relevantes que se discutem à volta da poesia americana têm algum eco na sua poesia. Que Berryman faz a ponte entre poetas mais eruditos, como Ezra Pound e T. S. Eliot, e poetas com uma dimensão muito experiencial, como os da Beat Generation. E que apesar de não ser muito conhecido, ou “popular”, como Sylvia Plath (nome muito referido na entrevista) ou Allen Ginsberg, é absolutamente central para quem lê e conhece a poesia americana. Tudo boas razões para celebrar Berryman. Celebremos então.

Numa nota à edição de Dream Songs, de 1969, publicada pela Farrar, Straus and Giroux, John Berryman diz que o volume contém os poemas de 77 Dream Songs (1964) e de His Toy, His Dream, His Rest (1968), e que o título – The Dream Songs – estava escolhido desde 1955, o que leva a crer que Berryman desejava que os dois livros fossem lidos como um único livro. Porquê publicar apenas o primeiro?

A ideia original era fazer uma antologia dos 385 poemas. Propusemos isso à detentora dos direitos de autor. Ela fez-nos uma contraproposta sugerindo que fosse publicado apenas o primeiro volume, integralmente. Foi assim que chegámos ao livro. O ideal era publicar o todo, mas seriam 800 páginas na versão bilingue, por isso nunca foi realmente considerada essa hipótese.

Numa entrevista de 1970, publicada na Paris Review, John Berryman diz que teve como modelo (para The Dream Songs) o poema longo Song of Myself, de Walt Whitman. Ambos têm, segundo Berryman, “um herói, uma personalidade” que é “ele mesmo”. Que correspondências podem ser estabelecidas entre os dois poemas, o de Berryman e o de Whitman?

As correspondências que podem ser estabelecidas são mais formais do que substanciais, no sentido em que Song of Myself tem uma dimensão política, é quase uma história dos Estados Unidos, com muito de canto patriótico. É um poema sobre a América. No caso de Dream Songs, o enfoque é mais autobiográfico, mais pessoal. Apesar de haver referências históricas e políticas, esse não é o centro. Uma das semelhanças, talvez a maior, tem a ver com aquela ideia de que os 385 poemas podem ser interpretados não como diferentes poemas, mas como um longo poema dividido em várias partes, que resume toda a ambição da obra do autor. A outra tem a ver com facto de estarmos, em ambos os textos, perante uma linguagem nova.

E entre Berryman e aqueles poetas que assumiu como influências, como Rilke, W. B. Yeats, W. H. Auden e Robert Lowell, cujo Lord Weary´s Castle influenciou, segundo o próprio, alguns poemas de Dispossessed?

Essas influências, assumidas, são visíveis na obra anterior às Dream Songs, que é muito mais formal. Yeats e Auden, por exemplo, estão muito mais presentes nos seus outros livros. The Dream Songs tem uma dimensão coloquial, e tem pouco a ver com essas influências.
Berryman é muitas vezes descrito como um “poeta confessional”, da chamada Poesia Confessional, ao lado de poetas como Sylvia Plath, Anne Sexton, Allen Ginsberg e W. D. Snodgrass. Apesar disso, rejeitava firmemente a designação. Ainda nessa entrevista àParis Review, quando o entrevistador lhe perguntou como reagia a isso, respondera: “Com raiva e desprezo!”). Faz sentido incluí-lo neste “grupo”?

É evidente que ele não gostava da designação, como em geral os autores não gostam desse tipo de designações. Berryman era muito próximo de alguns poetas dessa geração, nomeadamente Robert Lowell. A sua inclusão neste grupo é uma chave útil para entender a sua obra, mas não esgota a leitura dos textos. Àquilo que normalmente se entende por poesia confessional – uma descrição das experiências vividas por quem escreve – Berryman juntou uma invenção verbal muito forte, mais forte até do que a da maioria dos poetas da sua geração, criando uma linguagem completamente diferente. O que interessa já não é tanto o que se conta, mas a forma como se conta.

O que caracteriza essa linguagem? Na nota à edição portuguesa, o Pedro chega inclusive a referir-se-lhe como “linguagem memorável”.

Trata-se de uma mistura de registos. De uma linguagem totalmente coloquial passa-se para outra absolutamente erudita, com referências literárias e filosóficas. Há toda uma escrita propositadamente desarrumada. Por um lado, o poema torna-se mais difícil de ler, e a tradução passa a ser também um desafio, por outro, é isso que distingue Berryman de outros poetas, como, por exemplo, Sylvia Plath, que tem uma linguagem muito forte também, mas menos fraturada e fragmentada. Os poemas dele são muito trabalhados, e às vezes parecem caóticos, pela intromissão de vozes que nem sempre sabemos o que estão a dizer e pelos jogos constantes que exigem um grande esforço de interpretação. É preciso ser um grande poeta para conseguir fazer isto sem derrotar e desinteressar o leitor, sem fazer com que ele sinta que não consegue entrar ali. Além disso, nunca há um absoluto desligamento da experiência comum, precisamente pelo lado mundano, sarcático e visceral dos poemas. Berryman não é um puro poeta cerebral.

Ainda a propósito da Poesia Confessional, li num artigo que Berryman, assim como Plath e Sexton, continuam a ser, entre os poetas que dão forma a este “grupo”, os mais lidos e comentados. O que explica que por cá pouco se saiba sobre ele?

Não há uma razão clara para isso. Simplesmente nenhum editor se interessou, até agora, pela obra dele. No caso dos poetas confessionais, o nome de Sylvia Plath é, claramente, o mais conhecido, pelas circunstâncias trágicas em que morreu e também pelo apadrinhamento que o feminismo fez da sua poesia. Anne Sexton, cuja poesia tem muitas semelhanças com a de Plath, nunca recebeu a mesma atenção. Robert Lowell só tem um livro publicado em português, editado pela Assírio & Alvim. Não creio que haja uma razão em particular, não corresponde a nenhum plano. Há um lado muito casual ou acidental nisto.

Que lugar ocupa Berryman na poesia americana do séc. XX (ou da segunda metade do séc. XX)?

Ocupa um lugar que, no fundo, tem a ver com todas as correntes e problemáticas da poesia americana, desde a poesia formal à confessional e à hermética. Basicamente todas as questões relevantes que se discutem à volta da poesia americana têm algum eco em Berryman. Ele faz a ponte entre poetas mais eruditos, como Ezra Pound e T. S. Eliot, e poetas com uma dimensão muito experiencial, como os da Beat Generation. Embora não seja um poeta com uma presença forte fora do meio da poesia, como têm Plath ou Ginsberg, que são muito populares, Berryman é absolutamente central para quem lê e conhece a poesia americana, e muito importante para dar um retrato mais completo daquilo que foi o confessionalismo. A poesia de Berryman é tudo menos transparente, é muito confessional mas não nos confessa nada. É precisamente o contrário daquilo que a palavra “confessional” sugere. Os seus poemas são muito trabalhados, nada espontâneos.

The Dream Songs é considerado um poema autobiográfico, pelas semelhanças entre Henry, a personagem central do poema, e o próprio Berryman. Dream Song #145, por exemplo, (“he only, very early in the morning, / rose with his gun and went outdoors by my window / and did what was needed”) é, segundo algumas leituras, sobre o seu pai, que se suicidou quando tinha 12 anos. Que outras semelhanças há entre Henry e Berryman?

O material que compõe a personalidade e experiência de Henry é, claramente, autobiográfico. Se a personagem fala sobre o suicídio do pai, e nós sabemos que o pai do poeta se suicidou, podemos dizer que o material é autobiográfico. Berryman fazia questão de dizer que Henry não era ele, nem sequer um alter-ego, mas há tantas referências a factos e experiências da sua biografia – a vida académica, os sucessivos casamentos e infidelidades, a Irlanda, os amigos – que é fatal fazermos uma aproximação. É como se Berryman tivesse criado Henry para se interpretar a si próprio. Há aqui um grande lado de teatralização também, muito dramático, muito vaudeville, como um teatro de fantoches ou marionetas. Um lado que seria muito lúdico, se não tivesse sido tão trágico.

Quando a versão original de 77 Oníricas foi publicada, Robert Lowell disse que ao ler os poemas a primeira reação que teve foi de sentir o cérebro a doer e a paralisar, “perante tanta escuridão, desordem e estranheza”. Por outras palavras, não eram poemas fáceis de ler. Berryman, em resposta a isto, viria a escrever os seguintes versos: “Estas canções de sonho não são para ser entendidas, tu entendes / São para aterrorizar & confortar”. É essa a poesia de Berryman, a do terror e a do conforto, por esta ordem?

A haver alguma ordem teria de ser necessariamente essa, mas não creio que a poesia de Berryman conforte. Lowell tinha razão, apesar de ser bizarro que o tenha dito, porque também ele sofria de muitos males que afectavam Berryman, como a doença mental. Ambos estiveram internados, não eram espíritos completamente sãos. Por isso é estranho que Lowell tenha dito isso, porque a poesia dele não está assim tão distante da de Berryman. Se há algum conforto, como Berryman diz, esse conforto pode vir do riso. Há uma espécie de exorcismo através do riso ou do sarcasmo ou do humor negro, mas, para quem lê, isso não é evidente. E para quem escreveu também não me parece que tenha sido, visto que os poemas não lhe salvaram a vida. Da nossa parte, há um lado quase voyeurista de observamos uma cabeça a desmultiplicar-se, desintegrar-se, fragmentar-se. Isso sim, isso existe, como também existe, ainda que de forma diferente, em Fernando Pessoa. Sentimos fascínio ao ver como funciona uma cabeça estranha.

“A morte é uma perita alemã”, lê-se num dos poemas de 77 Oníricas. Brendan Cooper, emDark Airs: John Berryman and the Spiritual Politics of Cold War American Poetry (2009) diz que alguns poemas de Berryman fazem referência às atrocidades cometidas pelos nazis e ao genocídio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Dá o exemplo do poema #53, que termina com uma citação de Gottfried Benn: “Usamos a nossa pele como papel de parede e não conseguimos ganhar”. Cooper diz que os versos aludem à utilização de pele humana por parte dos nazis para fazer, por exemplo, candeeiros. Até que ponto a guerra pode ser considerado um tema central na obra de Berryman?
Berryman é de uma geração que reagiu à guerra, ou que combateu. O nazismo e o Holocausto confrontaram os poetas com uma dimensão muito escura da natureza humana, e foram temas muito importantes na poesia do séc. XX. A questão do mal, no caso do Holocausto, encontrou uma encarnação especialmente terrível. Plath, nos poemas que escreveu sobre o seu pai, tratam a relação dela com ele usando uma analogia com os judeus e os nazis. Era um tema que ela usou como mitologia pessoal, mas de modo abusivo, segundo alguns. No caso de Berryman, a guerra não é um tema central, mas é evidente que o marcou, que marcou todos os que a viveram, bem como a geração seguinte. Incluindo, do outro lado, poetas de língua alemã, como Celan.

Berryman suicidou-se em 1972, com 57 anos. Depois de sabermos isso, continuamos a ler a sua obra da mesma forma?

Há um aspecto terrível nos poetas confessionais, nomeadamente Berryman, Plath e Sexton, que é o facto de todos se terem suicidado. Isso condiciona bastante a leitura das suas obras. Lemos os poemas de Plath dos dois últimos anos de vida de uma forma muito condicionada, porque sabemos que ela pôs a cabeça no forno e matou-se, com duas crianças a dormir em casa. É uma coisa que não é fácil de esquecer. A leitura fica envenenada. Também lemos Berryman com essa noção: a dada altura vamos ter de lidar com o facto de estarmos a ler poemas de uma pessoa que estava em intenso sofrimento mental e físico. Ele passou por toda a espécie de horrores por causa do alcoolismo. Havia isso, o adultério, os problemas mentais, o suicídio. Quando o leitor tem essas informações não se esquece, e isso torna-se quase mais importante do que os poemas. É fatal. A biografia intromete-se de uma forma perturbadora. Estamos sempre a ler os textos à luz do que sabemos sobre o autor

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