Fyodor Books muda-se para o edifício do Cinema Ideal

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“You will become way less concerned with what other people think of you when you realize how seldom they do”. A frase acompanha a fotografia de um indivíduo sentado numas escadas à entrada de um prédio. Usa óculos, lenço na cabeça, T-shirt e calções desportivos (as meias muito acima dos tornozelos), e tem um livro na mão. “Este é o David Foster Wallace”. E depois, continua, entrando na outra sala (são três e nas três há estantes cheias de livros). “Philip Roth, Lydia Davis, John Cheever, Malcolm X, James Salter, Don DeLillo”. É como se tivéssemos acabado de entrar numa festa onde ninguém se conhece. A fazer de anfitrião está Paulo Ferreira, 30 anos. É ele quem apresenta os escritores, metidos em fotografias metidas em molduras brancas.

Temos a impressão de já ter visto antes esta fotografia de Foster Wallace. Talvez tenha sido numa das lojas que a livraria Fyodor Books ocupou (a primeira no Chiado, na Calçada Nova de São Francisco, e a segunda no Campo Pequeno, em Lisboa), até se mudar, em meados de dezembro do ano passado, para o primeiro piso do edifício do recém-reaberto Cinema Ideal, na rua do Loreto, também no Chiado. Fizeram-no a convite de Pedro Borges, produtor e distribuidor da Midas Filmes, responsável, em cooperação com a Casa da Imprensa, pela recuperação da antiga sala de cinema.

Foi uma mudança necessária. “No Campo Pequeno era muito difícil fazer com que as pessoas entrassem na loja a partir de sexta-feira”, explica Paulo. Sara Inês, 28 anos, também proprietária da livraria, junta-se à conversa: “O espaço é muito maior e mais central. Não conseguimos imaginar um espaço ainda melhor do que este”.

O conceito da livraria, esse, mantém-se: um livro, três euros, dois, cinco euros, e cinco, dez euros (com algumas excepções). Trata-se de livros usados, que recolhem junto de alfarrabistas ou outras colecções privadas.“Queremos ficar com a impressão de que temos o livro mais barato. Pensar: este livro não é mais barato em lado nenhum”.

“É como diz o outro: é preciso bater punho”

Quando a Fyodor abriu pela primeira vez no Chiado, em 2013, Paulo dizia, em entrevista, que o grande objectivo era disponibilizar bons livros a preços acessíveis, para acabar com as desculpas de quem não lê. Apesar disso, continua a ler-se muito pouco. “Acho que é uma questão cultural. Tenho a experiência na livraria e tenho a experiência no doutoramento. Os meus colegas, por exemplo, não lêem. As pessoas, no geral, não só não lêem, como não vêem filmes. São um bocado apáticas”, observa.
No início, acreditaram que podiam mudar isso. Que podiam “transformar os hábitos de leitura”. Ao fim de um ano, a opinião é outra: “Não sei se vai acontecer. O processo é muito mais lento do que parecia à primeira vista”, diz Paulo, e depois, rindo-se, com ar de gozo (não lhe notamos ponta de malícia), acrescenta: “É como diz o outro, é preciso bater punho”.

A mudança de espaço trouxe algumas novidades: além dos livros, que continuam arrumados em estantes de acordo com as diferentes áreas (política, filosofia, história, literatura portuguesa, literatura estrangeira – espanhola, inglesa, francesa, alemã – literatura estrangeira traduzida, poesia, etc.), há agora posters de filmes, livros de cinema e DVD à venda (“é uma sorte ter aqui o Cinema Ideal”), e uma secção inteiramente dedicada à edição independente, com livros, revistas, postais, fanzines, ilustrações, T-shirts e cartazes. “Não foi nada muito pensado. Fomos falando com algumas pessoas, outras entrarem em contacto connosco. Para nós, é muito bom ter esta variedade. Queremos que as pessoas percebam que a livraria não se restringe a um pequeno nicho, a uma pequena comunidade que lê. Todas as pessoas podem entrar aqui e comprar qualquer coisa”.

“Não podemos ter só Foucault”

Paulo não gosta de perguntas desnecessárias. Não gosta, por exemplo, que entrem na livraria e lhe perguntem se vende poesia ou romance. “Isto aqui não é a Bertrand. Não interessa a catalogação, não interessa que géneros temos. Interessa que as pessoas entrem e vejam o que há. Os nossos livros variam de semana para semana”.

Há, portanto, uma certa “imprevisibilidade”. Tanto pode haver “semanas boas” (“com a obra de Foucault, Dostoievski ou Beckett a três euros por livro”), como “semanas más”. Faz parte e até é bom que seja assim. “Não podemos ter só Foucault”. Não por falta de leitores, mas porque os livros dele são difíceis de encontrar e, por isso, atingem valores elevados, acabando com a margem de lucro, explica.

Por isso, o importante é mesmo “vir com regularidade”. Aceitar que não há garantias, que não vamos ter sempre um Foucault à nossa espera, mas que “o livro mais barato”, esse, vamos de certeza encontrar.

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