Obscénica: um livro para nos “alegrar um pouco”

Featured image

Flora é uma advogada trintona. Flora é prostituta. É do tipo “culto”: “olhares misteriosos, pequenas citações a cada instante, afagos desprezíveis de mãozinhas sabidas, intempestivos discursos sobre a transitoriedade dos prazeres”. Tem “um rabo brancão”, uma “pomba molhada e faminta” e gosta de citar Lucrécio.

Josete é do mesmo tipo mas mais refinada e original. Gosta de tordos com espargos, pastelões de ostras e vinhos bons e caros (que entendia “como se tivesse nascido embaixo duma parreira de Avingon). Josete gosta citar Ezra Pound. Quando lê o Canto XV, os seus “olhinhos cor de alcaçuz, úmidos, tremelicam”. De tal modo que havia tatuado no rabo três damas, em homenagem aos versos: “… tatuagens em volta do ânus / e um círculo de damas jogadoras de golfe em roda dele”. Muitas vezes, enquanto faziam sexo, Josete gritava: “Aou Ezra, aou my beloved Ezra!”

Clódia é a “leoa dos plátanos”, ou a “putíssima amada”. Tem muito de nórdica (usa diminutivos em alemão) e muito de negra: “rebolado, dentes alvos, carnação, bunda perfeita, candura”. Mora num atelier com vista para uma praça onde se vendem flores e oferecem rendas e pequenos corações de veludo. Clódia é pintora. Clódia pinta vaginas. “Vaginas estendidas sobre as mesas, sobre colunas barrocas, vaginas dentro de caixas, dentro dos troncos das árvores”. Vaginas “tristes”, vaginas “pendentes”, algumas com “pentelhos aguados ou iguais a caracóis”. Às vezes também pinta dedos. Dedos “tocando clítoris”. Dedos “isolados e tristes sobre as camas”. “Ou um único dedo tocando um clítoris-dedo”.

Um dia Clódia pintou o pénis de Crasso. Crasso é quem conta a história destas três mulheres. Crasso (deu-lhe a mãe esse nome porque tinha a mania de ler História das Civilizações) decidiu pôr estas história em livro porque ao longo da sua vida tem lido “tanto lixo” que resolveu escrever o seu. “Hoje todo o mundo se diz escritor”. Quando Clódia acabou de pintar o pénis de Crasso, entra Hans Haeckel em casa deles. Hans Haeckel é escritor. Um “escritor sério”, ignorado pelos críticos. Crasso incluiu alguns dos seus contos no livro, um encontrou numa das gavetas de Clódia, o outro em Muiabé, município de Cantão da Vila, onde vivia a mãe do escritor – Hans Haeckel deixara lá todas as suas coisas antes de se matar com um tiro no olho esquerdo. Hans Haeckel, ao ver a tela de Clódia, diz: “O que é isso? Um verme!”. Crasso responde: “Não, o meu pau, eu digo”. “Não acredito. Ficou assim, é?” Crasso abre as calças e despe as cuecas: “Claro que não. Ela é louca”.

Em 1990, Hilda Hilst (1930-2004), cansada de ser elogiada pela crítica mas ignorada pelo público, decide seguir outro caminho: “Quero ser famosa, cansei dessa história de prestígio”, disse a poeta, dramaturga e romancista à imprensa, anunciando que ia começar a escrever romances “pornográficos” para “se alegrar um pouco”. Nesse ano, publica Contos de Escárnio/Textos Grotescos, o livro que lhe deu o reconhecimento internacional. Conta-se que o sucesso da tradução francesa – com o título Contes Sarcastiques, publicado em 1994 por uma chancela da prestigiada Gallimard – foi de tal modo estrondoso que o jornal Libération enviou um dos seus melhores críticos literários ao Brasil para entrevistar a autora, que haveria de dizer, mais tarde, em entrevista, que ficara “besta” quando viu o jornalista (“O senhor veio aqui só para me ver?”) porque achava que ninguém lia os seus livros.

Obscénica – Textos Eróticos & Grotescos, publicado em novembro de 2014 pela editora Orfeu Negro, reúne textos desse livro, “uma obra torrencial” em que, segundo Jorge Lima Alves, autor do prefácio – “preliminares” – e responsável pela seleção dos excertos, a pornografia é apenas um pretexto para a autora falar dos seus temas preferidos: o amor, a solidão, a literatura, a traição, o envelhecimento e a morte, sendo totalmente improvável (e cita Alcir Pécora, professor, crítico literário e especialista na obra da autora) ter “uma erecção ao ler a Hilda Obscena”. Hilda Hilst, diz Jorge Lima Alves, não escreve para nós. Escreve para Deus.

Na segunda parte de Obscénica é reproduzido o texto integral de Bufólicas – sete contos “morais” escritos em verso – publicado originalmente em 1992, que veio acrescentar um quarto volume à famosa “trilogia pornográfica” da escritora brasileira (que além dos referidos, inclui os livros O Caderno Rosa de Lori Lamby, 1990, e Cartas de um Sedutor,1991).

A ilustração da edição, que integra a colecção Casimiro da editora Orfeu Negro (um conjunto de “livros ilustrados para gente madura e extravagante”) ficou a cargo de André da Loba, colaborador regular do New York Times e considerado em 2010 um dos 200 melhores ilustradoresde todo o mundo pela revista Lurzer’s Archive, que já antes havia sido convidado para ilustrar um excerto dos textos de Hilda Hilst numa publicação em língua inglesa. Em 2014, o ilustrador português concorreu com as ilustrações de Obscénica à competição anual da Society of Illustrators e foi distinguido como finalista, tendo sido convidado a integrar a sua exposição anual, que é inaugurada este mês em Nova Iorque, nos Estados Unidos.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s