Azul desafiou Olival: vamos criar uma revista para salvar as baleias

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Esta sexta-feira, 12 de novembro, é dia de Flanzine. Segue a explicação: esta sexta-feira, 12 de novembro, é dia de lançamento da Flanzine, no bar-restaurante Primeiro Andar, Lisboa. Segue mais uma explicação: esta sexta-feira, 12 de novembro, é dia de lançamento do sexto número da Flanzine, a revista de Luís Olival e João Pedro Azul, dois tipos de 42 anos que se conheceram no Facebook – nos comentários de um amigo em comum, sejamos específicos.

Começaram ali mesmo, na rede social, nesse ano de 2013 (mês de maio). Azul (é ele quem vamos citar neste texto) conta que em 2009 fizera uma pós-graduação em gestão de atividades artísticas, culturais e educativas, com uma tese sobre o papel das redes sociais na produção e promoção cultural, nomeadamente o Facebook. Ficou, desde essa altura, convencido do “potencial criativo da rede”, que no seu caso (ou no da sua página) foi aumentando. Mais “likes”, mais “amigos”, um “feed” pontuado por nomes ligados à cultura e às artes.

A proximidade com artistas como que o levou em braços para chegar a várias conclusões, entre elas esta: a de que afinal “havia muito desperdício de material interessante na rede”, votado ao “esquecimento”, “à efemeridade”. Publica-se agora, bate durante uma horas e depois passa, já passou, foi-se. Para combater isso (“ousar resistir, ousar sempre”, há de dizer), Azul desafiou Olival: vamos criar uma revista – assim, mais ou menos com estas palavras. Vamos criar uma revista para “salvar as baleias”, que é como quem diz os “posts” do Facebook, e nessa revista-embarcação – “embarcação sim, que o naufrágio era e é iminente” – vamos levar os nossos amigos virtuais que também escrevem, desenham e fotografam. Assim, mais ou menos com estas palavras. Os amigos aceitaram, esses “loucos” (“tão loucos quanto nós”), entre eles Filipa Campos, responsável pelo design “retro” da revista, e assim nasceu a Flanzine.

Gin em casa e seis no sofá

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O papel veio mais tarde, assim num movimento atípico, ou “inverso”, como lhe chama Azul. E é pelo papel que, de resto, cá estamos. “Fome” é o número mais recente da Flanzine, o sexto. Antes publicaram “Mala”, “Medo”, “Boca”, “Carrossel” e “Cama”, temas que escolheram alternadamente até “Carrossel”. “Cama foi escolhido numa noite de gin em casa de um dos nossos autores, numa noite em que éramos seis num sofá”, conta Azul. E o último, “Fome”, foi escolhido por votação pelos 27 autores que participam nesta edição, escolhidos a dedo por outros autores “habituais”: Bruno Vieira Amaral (vencedor este ano do Prémio Literário Fernando Namora e do Prémio PEN Narrativa), António Jorge Gonçalves, Cláudia Lucas Chéu, Emanuel Amorim, Gonçalo Mira, Luís Manuel Gaspar, Manuel Jorge Marmelo e Valério Romão, entre outros.

“Recluso José Sócrates Pinto de Sousa. Estabelecimento Prisional de Évora. Rua Horta da Capela, nº 20, 7000-174 Évora.” Há dias vimos uma fotografia de um envelope com esta morada no Facebook da revista. Porquê?, perguntamos. “Já tínhamos simulado o envio para o Isaltino Morais, mas agora decidimos ir mais longe, talvez imbuídos do espírito de natal. Além disso, achámos hilariante a cobertura mediática em redor das refeições do recluso Sócrates.” Ainda imbuídos do mesmo espírito, mas agora em versão mais séria, ou assim nos parece, Azul explica que a Flanzine é também “um gesto político, de resistência”.

“A classe política portuguesa, na sua maioria, despreza a importância da cultura na sustentabilidade de um país, na afirmação da sua identidade e na sua capacidade de transcendência.” A mesma classe política que prefere, por outro lado, “promover a produção e a rentabilidade”, através de uma “educação enlatada”. Nessa perspetiva, eles (Flanzine) são, diz Azul, “um péssimo investimento”. Mas noutra, a deles e dos que estão à volta, amigos, autores, leitores, admiradores, a única que importa, eles são “um pequeno milagre”: seis números (publicados de três em três meses), 150 autores, Correntes d’Escritas 2014, Feira do Livro do Porto 2014, Correntes d’Escritas 2015 (onde lançam o próximo número, o sétimo, com o tema “Miopia”), uma editora (Flan de Tal, com um livro publicado e um segundo em vista, que deverá sair em fevereiro). E, claro, mais de 3000 seguidores no Facebook.

Esta sexta-feira é dia de lançamento do sexto número da Flanzine, no Primeiro Andar, Lisboa. Começa às 21h30, com a entrada de Azul para a apresentação. Sai Azul e entram Marta Miranda, Carla Bolito e Mónica Lara (atrizes, as duas últimas) para ler excertos da revista. Saem Marta Miranda, Carla Bolito e Mónica Lara e entram Joana Guri, João Pedro Azul e Valério Romão, os DJ que vão animar esta Festa Flan.

Azul despede-se, “obrigada, até sexta”, e depois volta, como se tivesse esquecido alguma coisa em casa: “Fazemos a Flanzine porque sim, porque queremos. Temos coisas para dizer, mesmo que possam ser deslumbrantemente inúteis”.

Jornal Expresso, 12-12-2014

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