Pinguins e corações partidos

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“Have your dreams changed over the years?” Perguntava DBG. E Dolores respondia: “Dreams get better, yeah! `Cause I’ve been there already and done that. And now sometimes when you dream you say, maybe there’s still something in the future for me. You have to have a goal. If you don’t have a goal, you’re lost. You always have to work towards something. I’m 76 years old and I’m still going forward.”

DBG é David Greenberger e Dolores, assim como Rose Savala, Mimi Hunt, Ellie Castillo, Louis Hernandez, Jesus Gonzalez, Bettie L. Faith, era uma das pessoas que vivia naquele lar, na zona este de Los Angeles. “What are you working towards?” – perguntava novamente Greenberger.  E a resposta: “To learn to swim, I’ve never learned how to swim.” A seguir era a vez de Bettie, que imaginamos sentada ali ao lado, no chão e em círculo. Seria a disposição mais óbvia, mas não sabemos. Bettie irá falar sobre tampas de bules que pareciam búzios, apanhadas aos molhos em pequenos charcos, e valas com pouco mais de 15 cm de profundidade usadas pelos agricultores para armazenar água, onde ela e as outras crianças costumavam ir nadar.

Duplex Planet começou a ser publicada em 1979. Greenberger, o editor/autor, estudara pintura, mas decidiu aceitar o cargo de director de um lar de idosos, o Duplex, em Boston, Massachusetts (EUA). A revista, com entrevistas, fotografias e registos das conversas com os utentes, surgiu mais ou menos na mesma altura. No site, Greenberger conta que o grande objectivo era que todos conhecessem aquelas pessoas como ele conheceu, torná-las familiares aos leitores e, dessa forma, combater alguns preconceitos:  ”We, as a society, avoid looking too closely at people living near the ends of their lives.”

O excerto aqui transcrito é do número 181, de 2005, que encontrei numa feira de edição independente. O tema são os sonhos. Greenberger vai introduzindo algumas questões – “did you have more [dreams] when you were younger”, “what do you dream about” – mas, no geral, o que parece importar é o que aquelas pessoas têm para dizer. Tanto temos respostas breves – “mostly all the time I dream my parents. Dead people. Even my husband is there is my dreams too” – de uma exactidão avassaladora, como longos retratos carregados de memórias, à maneira dessa torrente que é o stream of consciousness. Há uma sequência particularmente interessante. Francisco, um dos idosos, diz que já não sonha, apesar de haver uma série de coisas que gostava de terminar. “Do you think that’s part of getting older?” – Greenberger pergunta. E Franscisco: “What is getting old? How do you notice you’re getting old? Do you pray more? You can’t pick up something that’s a little over twenty pounds? Is that what it is? Physically I understand what’s getting old, but mentally, what is it?” O que quer que Greenberger tenha respondido, ficamos sem saber.

Ao longo dos anos, a Duplex Planet foi adaptada a várias formatos: gravações áudio, documentários, concertos e peças de teatro. Há ainda um livro, Duplex Planet: Everybody’s Asking Who I Was, de 1994, com uma citação de Lou Reed na capa – “One of life’s little wonders. We’re lucky to have it” e entrevistas sobre temas tão aleatórios quanto os Beatles, Frankenstein, pinguins  e corações partidos.

Enfermaria 6, 28-05-2014

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