Feira Morta

“É como a morte. Ninguém sabe o que é e toda a gente se questiona. Aqui acontece o mesmo: ouve-se falar, mas só quando cá vens é que percebes o que realmente é.” A comparação com a morte ajuda a explicar o nome, Feira Morta, mas é só.

Se tivéssemos que descrever o espaço, começaríamos por falar dessas pessoas que vão entrando no edifício, em largos intervalos que se vão tornando cada vez mais pequenos à medida que a tarde se vai pondo (de tal modo que a simples tarefa de percorrer os corredores virá a exigir uma ginástica quase olímpica). Depois, já lá dentro, falaríamos desses tetos altos e paredes gastas (em algumas salas), com manchas castanhas em forma de nebulosa, apoiadas num soalho que faz rrr-rrr sempre que alguém passa. E por fim ouvir-nos-iam falar dessas mesas longas cobertas com toalhas pretas e cobertas com livros e outras publicações e dessas paredes cobertas com posters, ilustrações e cartazes. Isto se tivéssemos de descrever o espaço. Mas não temos. Porque só quando se lá vai é que “se percebe o que realmente é”.

Dizemos o necessário: que é uma feira de edição independente, que vende livros, fanzines, revistas, discos, cartazes, posters, bijuteria e t-shirts, e que teve a primeira edição em 2013. Esta é a quarta (a feira é montada duas vezes por ano, uma no verão, outra no inverno) e decorreu entre 29 e 30 de novembro no Adamastor Studios, uma galeria/atelier situada nos Restauradores, em Lisboa.

Pedro Saraiva, ou “Sar”, o organizador, diz que a ideia é “garantir que as pessoas que fazem estes trabalhos, artistas independentes, possam expô-los de modo a criar no público um maior gosto por este género de publicações”. Além das publicações para venda, há exposições, workshops, leituras e lançamentos de fanzines e livros. “Também tentamos ter algo inesperado em todas as edições.”

Não seria de estranhar, portanto, que enquanto estamos à conversa neste corredor estreito e escuro (a luz falhou há minutos e ainda não voltou), sentados em bancos de plástico e caixas de ferramentas, guiados apenas pela luz do telemóvel, alguém começasse a dar um concerto numa das salas da galeria.

Foi uma conversa improvisada, que vai bem com o “espírito da feira”. “Faço isto com pouco dinheiro. 20 euros chega. Depois, é pedir à malta que traga mesas e sistema de som, que faça os flyers.” E não é preciso muito mais. Porque a feira, apesar de tudo, “faz-se independentemente das condições”. “Desde que haja vontade, as coisas acontecem.”

No Clube do Inferno

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Em 2012, André Pereira, Astromanta, Mao e Hetamoé (têm todos idades entre os 27 e os 30 anos) fundaram o Clube do Inferno, uma editora especializada em banda desenhada, presença assídua nesta e noutras feiras de edição independente.

Foi André – que não está enquanto conversamos, mas há de chegar – que fez as primeiras “investidas”. Terminada a faculdade, decidiu dedicar-se a tempo inteiro à banda desenhada e publicá-la pelos próprios meios. Astromanta, Mao e Hetamoé (pseudónimos que preferem manter), que estavam a par desse projeto (os quatro conheciam-se desde 2006 – unira-os a banda desenhada e muitos amigos em comum) -, decidiram fazer o mesmo, porque perceberam que afinal havia “algum público com pachorra, mesmo que não se vendesse por aí além”, como explicam numa outra publicação que nos chegou há dias às mãos.

Por outro lado, queriam começar a levar os zines “mais a sério”. A ideia de André foi por isso esse “chapéu” que veio oficializar uma antiga tradição mantida pelos quatro: a de se juntarem para trocar ideias e discutir banda desenhada. Mas garantem: “não é um juramento na pedra”. Também participam noutros projetos.

No Clube do Inferno publicam os seus próprios projetos, que apesar de individuais, com temáticas diferentes, acabam sempre por se encontrar num momento muito específico. “Todos temos a mesma ideia do que deve ser a banda desenhada”, explica Mao.

Pedimos que nos falem sobre um dos trabalhos aqui expostos e apontam para “Safe Place”, em destaque num dos expositores. É da autoria do André, que o escreveu em colaboração com Paula Almeida. Foi publicado este ano pela editora e livraria Kingpin Books, numa parceria que veio a revelar-se decisiva: mais tiragens, maior circulação, inclusive pela Europa, e mais festivais internacionais. Outros méritos: “Safe Place” venceu este ano o prémio nacional para melhor álbum de autor português em língua estrangeira, no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora.

“Basicamente, o livro acompanha duas personagens que estão à espera de qualquer coisa que nunca chega, num ambiente com um certo ‘feeling’ de Final Fantasy [o jogo]”, diz André, que chegou entretanto. Com isto, lembramo-nos imediatamente de “À Espera de Godot”, o livro de Samuel Beckett. E alguém acrescenta: “É como no ‘À Espera de Godot'”.

Mao, que está a ouvir, diz: “Eu acho que há uma associação entre o tédio e o aborrecimento da adolescência e os jogos de vídeo”. André olha para ele e sorri, como o escritor que dá por si a sujeitar-se, sem saber como foi ali parar, ao exame do crítico. E tem as últimas palavras: “São memórias nostálgicas postas num universo de fantasia. Fi-lo quando estava ocupado com outras coisas, e serviu por isso como escape”.

Provérbios reconstruídos

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Pedro Nora, 37 anos, Dayana Lucas, 27 anos, e Daniela Duarte, de 39 anos, vieram em representação da Oficina Arara, um coletivo do Porto que ajudaram a fundar em 2006. Na oficina, que fica na Cooperativa dos Pedreiros, no cimo da Rua D. João IV, produzem posters, cartazes, livros e outras edições.

Trabalham com museus, galerias e editoras de música independentes. Estão, aliás, reproduzidos no site os cartazes que fizeram para o aniversário do Maus Hábitos, espaço cultural portuense, para uma exposição na galeria Dama Aflita, também no Porto, o cartaz do filme “Almada, Um Nome de Guerra”, de Ernesto de Sousa, e a capa de um dos álbuns dos portugueses Black Bombaim. Apesar disso, o eixo principal do coletivo é mesmo o trabalho autoral, e o primeiro destino dos cartazes é mesmo a rua: “Temos a intenção clara de comunicar com o público”, explica Pedro.

“Em Terra de Cus Quem tem Rei é Cego”, título que reconstrói o provérbio, é uma das publicações mais recentes da Oficina Arara. O livro compila alguns trabalhos do autor, Miguel Carneiro. Num deles, duas figuras vestidas com fatos grandalhões, escuros, abraçam-se num “cumprimento maçónico que liberta dinheiro”, descreve Pedro. Noutro, há uma cidade em chamas e algumas pessoas com ar aterrorizado, em fuga. “Este foi feito num momento específico, quando o Porto estava sob a presidência de Rui Rio.”

Debaixo de uma oliveira

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A pergunta antecipa-se. Porquê esse nome, Façam fanzines e Cuspam martelos? Tiago Baptista, 28 anos, artista plástico e fundador da editora, explica: “Fazer fanzines é tão doloroso quanto cuspir martelos. É preciso muita disponibilidade e uma grande vontade. E é uma atividade ingrata, porque como não vai ao encontro do que é a norma, não temos o mesmo feedback que têm outras publicações comerciais”.

Tiago fundou a editora em 2006, estudava ainda na ESAD (Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha). Catarina Domingues, 27 anos, também artista plástica, juntou-se-lhe depois, numa complementaridade que o tempo tem provado fecunda. “O Tiago é mais passional, mais emotivo, eu faço as coisas de uma forma mais pensada.” Uma fórmula dentro da não fórmula que é fazer zines.

Uma boa parte dos livros expostos, livros de autor em que são exploradas técnicas de desenho, fotografia e impressão (serigrafia, por exemplo), é de Catarina, que procura, em cada objeto-livro que produz “com carinho”, “interromper esta sucessão de acasos que é a vida”, que nos traz “perdidos”, e alcançar por fim “um momento milagroso”. Num dos seus livros, há uma fotografia de um casal abraçado. “É mesmo isso, há sempre um abraço debaixo de uma oliveira”.

Joana T. Silva, amiga e artista plástica, também contribuiu com dois trabalhos (a ideia, aqui, na feira e lá fora, no pequeno atelier que Tiago montou em casa, é funcionar em “coletivo”, para isso contando-se com a participação de outras pessoas). É dela esse pequeno livrinho, de capa dura, azul, do tamanho de uma mão aberta, desdobrável, com fotografias de um casal (ele tirava-lhe a ela e ela tirava-lhe a ele, exatamente nos mesmos lugares), que encontrou na Feira da Ladra, em Lisboa. E é dela também esse outro livro, em formato maior, onde estão registadas as frases que a avó disse quando folheou, em tempos, um antigo álbum de fotografias. Ei-las (as frases): “não gosto de ver porque me dá saudades”, “ela já era bonitinha, mas ele tinha cara de palerma”. E mais à frente, já na última página: “E pronto, acabou”, frase que também aqui encaixa bem: e pronto, acabou.

Jornal Expresso, 3-12-2014

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