Os muros do mundo

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Novembro relembrou-nos os muros que caem, mas também os que permanecem e os que se expandem. Berlim aproximou-se de si própria há 25 anos, mas há muros que continuam a desaproximar. Esta é a história de sete deles – diferentes, imprevisíveis, estranhos.

MAS QUE SIGNIFICA ISTO?

Dizem que é uma das fronteiras mais militarizadas do mundo. Mas o que significa isto? Então: de um lado há guardas norte-coreanos, envergando uniformes castanhos estilo soviético, e do outro polícias militares sul-coreanos com fatos camuflados. É assim que as duas forças se enfrentam, num confronto tenso mas discreto, pontuado por alguma violência ocasional, que se reflete em ameaças, disparo de mísseis e troca de tiros. Foi assim, por exemplo, num dos dias de outubro deste ano: soldados sul-coreanos dispararam tiros de aviso sobre os seus rivais a norte, que avançavam de forma provocadora em direção à linha que demarca os territórios. E fora mais ou menos assim dias antes, quando as tropas de Kim Jong-un abriram fogo sobre balões que transportavam panfletos de propaganda distribuídos por ativistas antirregime, hostilidades que noutras ocasiões terão tido um desfecho trágico.

Coreia do Norte e Coreia do Sul afastam-se, ou enfrentam-se, nesta linha de fronteira de cerca de 250 quilómetros de comprimento, estabelecida em 1953, no rescaldo da Guerra da Correia, como zona desmilitarizada. Dois quilómetros para um lado, dois quilómetros para o outro, mais coisa, menos coisa, onde não há praticamente vida humana, e as minas terrestres e os antigos túneis de infiltração (três descobertos em 1970 e o quarto vinte anos depois) e os postos de escuta dão a certeza de se estar em terreno hostil.

“A COISA” QUE SEPARA ISRAEL DA CISJORDÂNIA

Há que desmistificar “A Coisa”, como alguém lhe terá chamado certa vez. É parte muro, parte vedação. Em algumas secções da fronteira, tem uma base de betão que termina numa estrutura de rede com cinco metros de altura. Está equipada com sensores elétricos e ao lado estende-se um caminho de terra que guarda as pegadas dos que ousarem transpô-la. Depois da estrutura, há rolos de arame farpado, e uma vala de quatro metros de profundidade de um dos lados.

Noutras secções, ergue-se um muro de betão protegido por torres de vigilância. É assim na cidade palestiniana de Qalqilya, onde um “muro sniper” previne ataques a condutores israelitas que viajam na estrada que atravessa Israel. E como em Abu Dis (na fotografia que aqui mostramos), uma aldeia palestiniana perto da Cidade Velha de Jerusalém Oriental, a qual se lhes tornou praticamente inacessível (assim como aos seus serviços médicos) desde que a barreira foi construída.

A estrutura, cuja construção teve início em 2002, e que separa Israel da Cisjordânia, foi mandada erigir pelo governo israelita com o propósito de manter afastados do seu território terroristas que, segundo alegava o governo, iriam pôr em causa a vida de civis israelitas. Quando estiver concluída, terá cerca de 700 quilómetros de comprimento. Na altura, como agora, famílias inteiras e comunidades foram separadas, centenas de agricultores perderam os seus campos (e, consequentemente, o seu meio de subsistência) e outros tantos ficaram sem acesso a serviços essenciais.

UMA DAS FRONTEIRAS MAIS PERIGOSAS DO MUNDO

De um lado, Califórnia, Arizona, Novo México e Texas. Do outro, Baixa Califórnia, Sonora, Chihuahua, Coahuila, Nuevo León e Tamaulipas. Estados Unidos e México são separados por uma fronteira alienígena com 3141 quilómetros. As várias barreiras de aço e betão começaram a ser construídas em 1994, parte de uma operação americana que pretendia controlar o tráfico de droga e a imigração ilegal. Nas barreiras foram postos sensores elétricos, luzes de alta intensidade, detetores de movimento e câmaras, assim como vigilância permanente a partir de camiões e helicópteros.

É considerada uma das fronteiras mais perigosas do mundo. Seja pelo cartéis de droga que operam ali, seja pelas condições adversas sob as quais centenas de pessoas tentam atravessá-la todos os anos: temperaturas altíssimas em desertos pouco amigos. Estima-se que todos os anos morram cerca de 500 pessoas a tentar entrar ilegalmente em território americano.

INTRANSPONÍVEL (OU NEM POR ISSO)

Em Melilla, enclave espanhol que faz fronteira com Marrocos a norte de África, foram também erguidos muros para combater a passagem de imigrantes ilegais. Valha a metáfora, a dos muros, para designar a dupla vedação de rede com seis metros de altura (o dobro da inicial, que afinal não era eficaz), coroada de lâminas (“cuchillas”, em espanhol) e arame farpado, que contorna a cidade e entra no mar. Além disso, há torres de vigia, sensores de ruído e movimento, luzes de alta intensidade, câmaras, radares e helicópteros a patrulhar a zona.

A barreira, que começou a ser construída em 1998 e parece, à primeira vista, intransponível, não tem conseguido conter a vontade dos imigrantes, vindos sobretudo da região da África subsariana, de passarem para o outro lado para fugir à instabilidade política. E o outro lado fica, para eles, em França, na Alemanha e nos Países Baixos. Este ano, por exemplo, e segundo uma notícia do “Guardian”, estima-se que cerca de duas mil pessoas já tenham conseguido atravessá-la.

PERIGO ILUMINADO

A fronteira entre a Índia e o Paquistão, cerca de 2900 quilómetros ao longo de vales e morros e montanhas e riachos, é também considerada uma das mais perigosas do mundo. Desde a independência dos dois países, em 1947, tem sido palco de numerosos conflitos e guerras. Vai da chamada Linha de Controlo (LC), que separa a norte o estado indiano de Jammu e Caxemira e a região paquistanesa de Caxemira Livre, até Wagah, a este, a cidade metade paquistanesa e metade indiana, onde fica a única passagem da fronteira. A sul, a estação ferroviária de Zero Point separa os estados indianos de Gujarate e Rajastão da província paquistanesa de Sinde.

É também uma das fronteiras mais iluminadas, de tal modo que é visível a quem esteja em viagem no espaço. Observando uma fotografia, a primeira impressão que se tem é a de um raio de luz laranja a atravessar uma teia de luzes amarelas, cujos fios vão ligar a núcleos com maior concentração de luz. E a explicação é: além de uma dupla vedação de arame com vários metros de altura, apetrechada de equipamentos de vigilância, dispositivos de imagem e sensores de áudio, a fronteira tem também holofotes, muitos holofotes, que criam este espetáculo visual.

A “LINHA VERDE” DE CHIPRE

Chamam-lhe “Linha Verde”, tem cerca de 180 quilómetros, e divide a capital de Chipre, Nicósia, em duas partes, uma sob controlo da República Turca de Chipre do Norte e outra, a sul, sob controlo da República de Chipre, onde vivem, respetivamente, as comunidades turcas e gregas, separadas desde 1974. Vai desde a cidade de Pyrgos, a oeste, até Famagusta, na costa este do país.

A única exceção é mesmo a aldeia de Pyla, atravessada pela “Linha Verde” (designação coloquial para aquela que foi estabelecida como zona de segurança e controlada pelas Nações Unidas), que é habitada por turcos e gregos. Seja em Pyla, seja nas outras aldeias da Linha Verde, a barreira ergue-se, numa combinação de muros, vedações em rede, arame farpado, postos de guardas, campos minados e valas antitanques.

OS “MUROS DA PAZ” DA IRLANDA DO NORTE

Começaram a ser construídos a partir de 1969 para separar os bairros católicos dos protestantes, depois de uma marcha de civis em protesto contra a discriminação dos irlandeses católicos pelas autoridades ter sido reprimida pelas forças policiais no território, dando origem a violentos confrontos entre as duas comunidades. A ideia era mantê-los ali durante seis meses, mas ainda hoje lá estão. Em 1990 eram 18 e agora são 48. Alguns chegam aos oito metros de altura e outros têm arame farpado. Verdadeiros monumentos em betão ou tijolo, erigidos em bairros de cidades como Belfast, Derry e Portadown. Todos juntos têm cerca de 34 quilómetros de comprimento e a maioria está localizada na cidade de Belfast.

Nos últimos anos, estes que são agora “Muros da paz” tornaram-se locais de atração para turistas. Em 2008, falou-se pela primeira vez da possibilidade de serem demolidos; em 2011, a Câmara de Belfast aceitou elaborar um plano de demolição, que foi formalmente assumido dois anos depois, em 2013. Até 2023, todos os muros terão sido demolidos.

Jornal Expresso, 14-11-2014

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