Nenhum de nós gostaria de sobreviver à morte do outro

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“Vais fazer oitenta e dois anos. Encolheste seis centímetros em altura, pesas apenas quarenta e cinco quilos e manténs-te bela, graciosa e desejável. Há cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca. Sinto de novo no fundo do peito um vazio devorador que é apenas preenchido com o calor do teu corpo contra o meu.”

É quase maldoso começar este texto com uma citação assim. É daquelas que dificilmente esquecemos, ou porque fica no ouvido – frases curtas, pontos finais que parecem balas, palavras que só por milagre podiam estar na mesma frase – ou porque nos faz lembrar aquela bonita história de amor que lemos em cartas que nos vieram parar às mãos ou aquela que começou por ser uma bonita história de amor mas já não é, apesar de as cartas ainda ali estarem para lembrar a quem as guardou que o amor morreu; ou porque nos faz pensar neste nosso grande amor que se Deus quiser há-de ser como aquele ou naquele que continuamos a desejar que tivesse sido assim. Seja como for, é daquelas citações, e daquelas histórias, que não esquecemos, mas que não tem nada, absolutamente nada a ver connosco.

André Gorz e Dorine conheceram-se em Outubro de 1947, em Lausanne (Suíça). A história, contada por André Gorz, começa assim: “Um mês depois cruzei contigo na rua, olhei-te, fascinado pelo teu andar de dançarina. E uma noite, por mero acaso, avistei-te ao longe quando deixavas o trabalho e descias a rua. Corri para te alcançar. Caminhavas apressada. Tinha estado a nevar. A chuva ligeira encrespava-te os cabelos. Sem grande esperança, propus-te que fôssemos dançar. Disseste que sim, why not, simplesmente.”

André Gorz era filósofo e jornalista. Escreveu livros, ensaios, foi um dos editores do Le Temps Modernes e co-fundador do Nouvel Observateur. Dorine fazia o trabalho de arquivo, essencial à produção jornalística e científica do marido. Catrefadas de papéis e dossiers organizados de um modo quase cirúrgico. “Durante os trinta anos que se seguiram, continuaste a actualizar, enriquecer, gerir a documentação que juntaste a partir de 1951. Seguiu comigo para o L’Express em 1955, para o Nouvel Observateur em 1964. Os meus patrões ulteriores sabiam que não podia passar sem ti.”

Anos mais tarde, foi diagnosticada a Dorine uma doença degenerativa, para a qual não havia cura. Arachnoiditis, em português, aracnoidite, causada pela presença de um corante que antes era usado nos raios-X, e a que o seu radiologista havia recorrido oito anos antes, quando Dorine se submeteu a um exame desse tipo. Partículas do corante haviam-se alojado na sua coluna cervical, formando quistos que provocavam dores intensas. André Gorz, além de se ter dedicado a ler sobre a doença, cuidou dela até ao fim. Talvez fosse essa a sua retribuição.

Em Março de 2006, André Gorz começou a escrever a sua carta a D., Dorine. Temo-lo citado neste texto. “Sinto necessidade de reconstituir a história do nosso amor para lhe apreender todo o sentido. Foi ela que nos permitiu tornarmo-nos quem somos, um pelo outro e um para o outro. Escrevo-te para compreender o que vivi, o que juntos vivemos.” A última página foi escrita em Junho.

Um ano depois, no dia 24 de Setembro, André Gorz e Dorine foram encontrados no quarto, deitados lado a lado. Lá fora, à porta de casa, estava um papel, com indicação de que havia umas cartas por ler que deveriam ser entregues à polícia. Na sua carta, publicada quando ambos eram vivos, escrevera: “Não quero assistir à tua cremação; não quero receber um frasco com as tuas cinzas”. “Nenhum de nós gostaria de sobreviver à morte do outro.”

Quando o texto da carta foi publicado no final do ano passado (2013) pela editora Pianola (com tradução de Rui Caeiro), António Guerreiro escreveu sobre ele no Ípsilon. Do que foi dito, ficou-nos sobretudo isto: que esta história, a de André Gorz e Dorine, obriga a rever os mitos do amor ocidental, porque estes são incompatíveis com o casamento, e ainda quando não o são, resultam em histórias de traição e adultério. Não há espaço para o amor sublime e transcendente, para a paixão romântica ou para o desejo erótico. O amor conjugal aparece sempre como amor ameaçado ou extinto. Que era mais ou menos aquilo que dizia André Gorz: “Estar perdidamente apaixonado pela primeira vez e ser amado de volta – isto era aparentemente demasiado banal, demasiado privado, demasiado comum: não era o tipo de material que me iria permitir alcançar o universal. Uma paixão trágica, impossível – isso sim, serve à grande literatura”. E que é o mesmo que dizer: o amor, para ser amor, precisa de meio mundo dentro. Mas não precisa.

21 Março – 6 Junho 2006
Fim da carta.

Orgia Literária, 1-09-2014

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