My Own Mag

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My Own Mag (via Reality Studio)

A mancha de texto desce sobre a página a partir do canto superior direito, em direcção àquilo que parece ser uma vagina, com uma seta a indicar “Exit Only”. Acima, no que vulgarmente se chama “monte de Vénus” – ainda estamos no desenho – lê-se: “Rest your shattered face in this. Keep on knockin’ butcha can’t come in. No re-admittance after birth time.” À esquerda, escrito em letras gordas – “My Own Mag, A super-absorbent periodical. Produced by Homosap Inc 37 Salisbury Rd. Barnet Herts… will appear every now and then… will be devoted to creations of unparallelled nobility… morals of unquestionable soundness. High literature standards of traditional finesse. No dirty pitchers.”

Pelo menos vinte pessoas terão lido este número, que foi o primeiro, publicado em Novembro de 1963. Vinte exemplares entregues em mão, e os restantes deixados numa livraria, a Better Books (já lá iremos). Ao fim de três anos e dezassete números, a revista, uma zine (ética do DIY, “do-it-yourself”: faz a tua própria cultura e pára de consumir aquilo que te dão), passou de três para quinze páginas, e de um colaborador – o próprio editor – para setenta, a escrevem em diferentes edições. A distribuição, antes assegurada com meios próprios que não se atreviam a galgar as redondezas, estendeu-se às livrarias mais underground da Alemanha, EUA, França, Espanha e Marrocos. Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, William S. Burroughs, Carl Weissner. Os quatro passaram pela My Own Mag, deixando uma ínfima parte da herança de uma juventude em marcha sobre os anos 60, com ideias messiânicas de liberdade e justiça, que a música e a cultura pop ajudaram a difundir.

“Subversão através da infiltração”, escrevia o editor, Jeff Nuttall, num dos editoriais. Comparava a My Own Mag a uma espécie de vírus da euforia inoculado via intravenosa para agitar a sociedade do pós-guerra, umasociedade suicida, que fora convencida – e a guerra nestas coisas é sempre uma ajuda preciosa – de que aquilo que a televisão e a publicidade do alto dos seus dez anos de ouro ofereciam era o melhor que podiam desejar. “People turn the TV on, it looks just like a window”, alguém canta ao longe, e parece-nos apropriado à ocasião. Uma sociedade, enfim, que precisava de ser interrompida pela existência. Houve alguém que disse: “I am human by my hands and my feet, my guts, my meat heart, my stomach whose knots fasten me to the rot of life.”

Numa entrevista que deu à NME (New Musical Express), publicada em Fevereiro deste ano, Thurston Moore, dos Sonic Youth, recorda a ligação entre William S. Burroughs (a entrevista era sobre ele) e a poesiaunderground mais radical, representada na figura de Jeff Nuttall. Nuttall (1933-2004) foi um dos fundadores da People Show, hoje considerada a mais antiga companhia de teatro experimental de Londres, que surgiu depois de o grupo fundador (Jeff Nuttall, John Darling, Laura Gilbert e Mark Long) se ter juntado para uma primeira performance na cave da Better Books, uma livraria independente no n.º 94 da Charing Cross Road (Londres) – avenida que concentra muitas livrarias especializadas e alfarrabistas, e onde ficava o Caldeirão Escoante e a passagem secreta para a Diagon-Al.

Uma breve nota a respeito da Better Books, porque o tema está mesmo a pedi-las: os livros, ou grande parte deles, graças ao bom gosto de tipos como o Barry Miles e Bob Cobbing, os típicos bons rapazes que agitavam o meio cultural e alternativo de Londres, eram enviados de livrarias/editoras tão míticas quanto a City Lights de Lawrence Ferlinghetti, em São Francisco (Califórnia), ou a Grove Press, as primeiras a publicar Kerouac, Burroughs, Ginsberg, os poetas associados ao Black Mountain College e à New York School, e os artistas da vanguarda francesa.

O nome de Jeff Nuttall aparece normalmente associado à performance e ao happening, apesar de ter sido um homem de vários ofícios – poeta, editor, actor, pintor, músico de jazz, activista (à frente de várias campanhas para o desarmamento nuclear nos idos de 50). O seu reconhecimento no espaço público, onde, de resto, gostava de se movimentar, ou pelo menos dar de tempos a tempos um ar da sua graça (“catalyst, perpetrator and champion of rebellion and experiment in the arts and society”, lê-se no seu obituário, no The Guardian), ficou registado, senão pelo sucesso, pelo menos pelo bom humor da coisa, depois daquela intervenção em que Nuttall, tendo recolhido uma quantidade considerável de objectos vagamente semelhantes aos membros do corpo humano – tubos, cabeças de boneca, partes de manequins, motores – dirigiu-se à estação de King’s Cross, ao depósito da bagagem, e ali deixou o saco atado, onde se distinguiam formas de pernas e de braços e do mais que houvesse.

Burroughs foi dos que mais escreveu na My Own Mag. Foi também um dos primeiros. Ele e Jeff Nuttall eram compinchas no mesmo lado da barricada, defendiam o mesmo credo, trocavam cartas, e quando Nuttall lhe pediu para escrever na MOM, Burroughs não recusou e quando Nuttall lhe pediu para co-editar alguns números, também não recusou. Foi ali, aliás, que desenvolveu a técnica do cut-up (corta e cola), que vinha do Dadaísmo e de Tristan Tzara. Agarrava em recortes de jornais com textos e outros elementos e reorganizava-os para criar novos significados, tudo muito fragmentário e experimental. Tome-se como exemplo o n.º 6 de 1964 – “Afternoon Ticker Tape”, uma colagem em duas páginas com grafismo semelhante aos dos jornais, intitulada “The Burrough”, que resultou da recolha de frases da primeira página do New York Times de Setembro de 1899.

As referências a Burroughs não são produto de uma ficção laboriosamente engendrada para sacar leitores. Há dias celebrou-se o centenário do nascimento do autor, e este texto, escrito por alguém que dele leu muito pouco mas acaba sempre por esbarrar no nome, tinha o mesmo propósito, até se perder e ficar assim, a dar voltas de cão danado atrás do próprio rabo. William S. Burroughs nasceu no dia 5 de Fevereiro de 1914.

Orgia Literária, 15-02-2014

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