Mas quem é, afinal, Patrick Modiano?

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É um escritor de Paris, pertencente à antiga linhagem dos que encaram a própria cidade como personagem. Mas Patrick Modiano, nascido em Boulogne-Billancourt – município a sudoeste da capital francesa – tem na sua história familiar outras influências. Filho de um judeu italiano e de mãe belga, que se conheceram na Paris ocupada da II Guerra Mundial, Patrick veio ao mundo nesse rescaldo, no ano em que a guerra acaba, e a sua infância confronta-se com a ausência do pai e as frequentes viagens da mãe, atriz. Tal circunstância leva-o a receber apoio estatal para acabar o liceu.

Duas grandes referências surgem neste período: o irmão, Rudy, que morre aos 10 anos e a quem Modiano dedica os seus livros entre 1967 e 1982; e o escritor Raymond Queneau, de quem o ainda estudante recebe lições de geometria e ao lado de quem mergulha na literatura e nos meandros do mundo literário parisiense. É graças a Queneau que Modiano trava conhecimento com as Edições Gallimard, que, mais tarde, viriam a publicar o seu primeiro romance, “La Place de l’Étoile”, em 1968. A partir de então, a escrita tornar-se-ia a sua vida.

“Nunca pensei em fazer outra coisa. Não tenho diploma e nenhum objetivo definitivo para alcançar. Mas é difícil para um jovem escritor começar tão cedo. Na verdade, eu prefiro nem ler os meus primeiros livros. Não é que eu não goste deles, mas já não me reconheço ali, como o velho ator que olha para o jovem líder que um dia foi”, dizia Patrick Modiano, em 2011, numa entrevista à “France Today”.

“Rue des Boutiques Obscures”, publicado em 1978 (“Missing Person” na edição em inglês), é considerado um dos seus romances mais conhecidos. Nele, um detetive que perdeu a memória num acidente quinze anos antes é levado a viajar numa busca pela identidade, que há de devolver-lhe factos que estavam perdidos. O livro valeu-lhe o Prémio Goncourt. É também autor de “Dora Bruder” (1997), que investiga o desaparecimento de uma rapariga judia em Paris, publicado em Portugal em 1998, e de “Du Plus Loin De L’Oubli”, um ano depois. O prémio Nobel foi-lhe, aliás, atribuído “pela arte da memória com a qual ele evocou os destinos humanos mais inatingíveis e descobriu a vida do mundo da ocupação [alemã]”, como salientou a Academia.

Em Portugal, o seu romance mais recente é “O Horizonte”, publicado em 2010 (Porto Editora). Também por cá, Modiano tem editado “No Café da Juventude Perdida” (ASA, 2009), “Um Circo que Passa” (Dom Quixote, 1994), “Domingos de Agosto” (Dom Quixote, 1988) e “A Rua das Lojas Escuras” (Relógio d’Água, 1988).

Mas nem só de romances se faz a sua obra. Modiano também escreveu livros para crianças, argumentos para filmes (“Lacombe Lucien”, em 1974, escrito em co-autoria com o realizador Louis Malle, e “Bon Voyage”, em 2003, novamente em co-autoria, com Jean-Paul Rappeneau) e canções (a filha é, aliás, cantora profissional).

Em entrevista ao “L’Express Culture”, Modiano dizia que, para ele, a escrita “é um trabalho onde se está completamente desconectado, sempre só. Não é um trabalho coletivo como o dos encenadores de teatro, por exemplo”. Talvez por isso Modiano tenha considerado a notícia do Nobel como “qualquer coisa de muito estranho”, como confidenciou ao telefone ao seu amigo e editor da Gallimard, Antoine Gallimard, notando, porém, que se sente “muito feliz”.

Modiano é o 11º autor nascido em França a receber o Nobel da Literatura e o 15º de nacionalidade francesa. Nunca foi um cidadão politicamente ativo, apesar de ter escrito sobre temáticas históricas e políticas: “De facto, nunca votei, exceto para as presidenciais de 2007. Nessa altura, senti que havia um mundo a mudar. Tenho, perante as minhas crianças, remorso e vergonha da minha irresponsabilidade. Mas sofro de uma espécie de alergia, uma desconfiança instintiva da política e dos homens políticos. É mais do que isso: inconscientemente, a História dá-me medo. A História é sempre a das catástrofes….”

Patrick Modiano é muito conhecido em França, mas nos outros países nem por isso. É mais ou menos este o perfil dos escolhidos anualmente pela Academia sueca. Escritores apenas razoavelmente conhecidos, até ganharem o Nobel.

Jornal Expresso, 9-10-2014

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