Martin Scorsese filma a “New York Review of Books”

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Foi umas das greves mais dramáticas da história dos Estados Unidos. Na manhã de 8 de dezembro de 1962, os sete principais jornais não saíram para a rua. E na manhã seguinte também não, e na outra também não, e assim durante 114 dias. Os trabalhadores das tipografias onde eram impressos os jornais recusavam-se a trabalhar. Saíram em protesto. Queriam melhores salários e melhores condições de trabalho. Dos sete jornais – o “New York Times” era um deles -, quatro fecharam depois da greve.

Houve, contudo, quem tivesse beneficiado com tudo isto: as estações de televisão locais cresceram em tamanho e sofisticação e surgiram mais publicações, entre jornais e revistas. Como a “New York Review of Books”, um ano depois, ainda durante a greve. Editada por Robert Silvers e Barbara Epstein, ambos veteranos na área da edição (Robert trabalhara na “Paris Review” e depois na “Harpers”), a “Review”, como lhe chamam, foi desde o início uma revista sobre livros e crítica literária. Mas também sobre política e economia, com artigos e ensaios influentes e controversos sobre temas como a guerra no Vietname, direitos civis e feminismo, e mais recentemente, a crise económica, as guerras no Iraque e na Síria e o conflito da Ucrânia.

Cinquenta anos depois de ter saído o primeiro número, Martin Scorsese presta-lhe homenagem num documentário com o nome “The 50 Year Argument”. Realizado com David Tedeschi, o documentário estreou esta segunda-feira nos Estados Unidos, no canal HBO, depois de ter passado por vários festivais internacionais de cinema, como o Festival de Cinema de Berlim.

A pergunta que surge de imediato é: mas como é que se faz um documentário a partir de uma revista? “Parecia-me pouco provável que uma publicação com 15.000 artigos publicados ao longo de 50 anos em suporte de papel, com o contributo de milhares de escritores, pudesse de alguma forma ser transformada num registo visual”, dizia Robert Silvers, ainda editor da “Review”, ao “The Wall Street Journal”. Falou com vários realizadores mas pareceu-lhe que nenhum se adequava. “Depois houve alguém que me disse ‘porque é que não tentas o Martin Scorsese? Ele conhece a revista’. Há anos que eu conhecia a mulher dele, a Helen [Morris]. Então escrevi-lhe uma carta e ele disse que ia tentar”.

No trailer do documentário, que combina entrevistas e filmagens de arquivo, Robert Silvers explica qual era a missão da revista: “Nós não procurávamos ser parte de uma instituição, nós procurávamos analisar as instituições”. “A ‘Review’ baseava-se na ideia de que pessoas inteligentes, altamente qualificadas, podiam escrever sobre qualquer tema.” Referia-se provavelmente a Saul Bellow, Norman Mailer e Vladimir Nabokov. E a Noam Chomsky, Hannah Arendt e Susan Sontag. E a J. M. Coetzee, Margaret Atwood e Robert Lowell. E a todos os outros que nela escreveram.

Como é que se faz então um documentário a partir de uma revista? Chama-se Scorsese. E a coisa vai.

Jornal Expresso, 29-09-2014

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