Um brinde ao Yeats

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Ainda não li o Dicionários de Lugares Imaginários que a Tinta da China publicou no ano passado (2013), escrito por Alberto Manguel e Gianni Guadalupi, mas gostaria de o fazer sabendo que a páginas tantas iria botar o olho no verbete – Lake Isle of Inisfree. Acho, no entanto, que não vai acontecer.

Lewis Mumford, no prefácio à sua História das Utopias (Antígona, 2007), detém-se na definição de utopia: “Habituámo-nos a ver a utopia em contraste com o mundo, quando, de facto, são as nossas utopias que tornam o mundo tolerável: as cidades e as mansões que povoam os sonhos das pessoas são, afinal, aquelas em que vivem”. O mundo interior, ou mundo das ideias, funciona como substituto do mundo exterior, é “uma espécie de abrigo onde nos refugiamos quando o nosso confronto com os «duros factos da vida» se torna demasiado complexo ou demasiado difícil”. E é aí que as utopias ganham amplitude, as de reconstrução, que por ora não interessa convocar, e as de escape (as escapistas ou utopias privadas), que têm uma função de compensação e de libertação imediata face às “dificuldades ou frustrações que nos assolam”. E, normalmente, estas utopias não a fazem por menos: mais uns que outros, “todos vislumbrámos já a utopia de escape: ela ergue-se, desmorona-se e volta a erguer-se quase todos os dias.”

“The Lake Isle of Innisfree” é um poema de William Butler Yeats (1865-1939), escrito em 1888 e publicado dois anos depois, no National Observer. Reza a lenda que quando Yeats era criança, o pai costumava ler-lhe passagens do Walden, de Henry David Thoreau, e que mais tarde Yeats se inspirou nessa memória de Thoreau a viver em Innisfree, uma ilha desabitada em Lough Gill (Irlanda), para escrever o poema. Num dos seus textos autobiográficos (The Trembling of the Veil, 1922), Yeats escreve: “Sometimes I told myself very adventurous love-stories with myself for hero, and at other times I planned out a life of lonely austerity, and at other times mixed the ideals and planned a life of lonely austerity mitigated by periodical lapses. I had still the ambition, formed in Sligo in my teens, of living in imitation of Thoreau on Innisfree, a little island in Lough Gill, and when walking through Fleet Street very homesick I heard a little tinkle of water and saw a fountain in a shop-window which balanced a little ball upon its jet, and began to remember lake water. From the sudden remembrance came my poem ‘Innisfree’, my first lyric with anything in its rhythm of my own music.”

Há quem diga que no poema é descrito o desejo mais profundo do autor: deixar a cidade de Londres, a dos maquinismos em fúria e da dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica, a do ferro e a do vidro, do capitalismo e da mercadoria, e do culto assim a modos que tolo do progresso. Bom, mas não nos vamos demorar neste assunto. Teríamos aqui pano para mangas. Há, porém, uma passagem em O Quarto de Jacob, de Virginia Woolf, que ilustra, se quisermos, esta coisa da técnica na modernidade: “Se pousarmos uma lanterna debaixo duma árvore, todos os insectos da floresta são atraídos a ela – uma curiosa reunião, pois apesar de se esforçarem, de darem voltas e baterem com as cabeças no vidro, parecem não ter propósito – são inspirados por um sem sentido. Cansamo-nos de os observar vagueando em volta da lanterna, batendo cegamente como se pedissem entrada: o mais fascinado é um grande sapo, a abrir caminho por entre todos os outros.” Aterrorizado perante a decadência dos valores tradicionais, associada à experiência moderna, época das fantasmagorias, o autor desejaria, portanto, e de acordo com esta interpretação, refugiar-se numa representação muito solitária deste lugar utópico, a ilha de Innisfree – idílio primitivo e mágico –, numa espécie de retorno simbolista e maldito à origem, ao silêncio.

E, efectivamente, numa entrevista publicada no Theatre Arts Monthly em Junho de 1924, Yeats, quando questionado a respeito da Industrialização, responde: “(…) I believe that an industrial population uses a form of machinery which does not profoundly affect the subconscious. This machinery creates restlessness. It is continually changing; what is used in one decade is out of date in another. The modern world is prosaic merely because it is continually changing so. But agriculture depends on growing things; sentiment can grow in the soil but never in machinery”.

Apesar de Yeats não ser hoje em dia o mais popular dos tipos – seja pelo misticismo e hermetismo dos poemas (sobretudo os da juventude, com múltiplas referências à mitologia celta, de que foi aliás um revivalista arrebatado, e ao folclore irlandês), seja pelo seu flirt com o fascismo (e a História da Literatura está cheia deles), a que Orwell dedicou um ensaio (“W. B. Yeats”, 1943), alguns versos seus parecem encher as medidas da cultura popular. A Ilha de Innisfree, por exemplo, é quase um lugar-comum nas canções de Fleet Foxes (“The Shrine/An Argument”, “Isles” e “Bedouin Dress”), e no filme de Clint Eastwood, Million Dollar Baby, Frankie Dunn (Eastwood) lê as primeiras duas quadras do poema a Margaret Fitzgerald (Hilary Swank), quando ela está no hospital. O “Sailing to Byzantium”, cujo primeiro verso é – “That is no country for old men” – deu nome ao filme dos irmãos Coen, o No Country for Old Men. O “Second Coming” é citado nos Sopranos, no Star Trek, num dos livros de Stephen King, no título da colecção de não-ficção de Joan Didion, etc.

The Lake Isle of Innisfree

I will arise and go now, and go to Innisfree,
And a small cabin build there, of clay and wattles made:
Nine bean-rows will I have there, a hive for the honey-bee,
And live alone in the bee-loud glade.

And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow,
Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings;
There midnight’s all a glimmer, and noon a purple glow,
And evening full of the linnet’s wings.

I will arise and go now, for always night and day
I hear lake water lapping with low sounds by the shore;
While I stand on the roadway, or on the pavements grey,
I hear it in the deep heart’s core.

No dia 28 de Janeiro fez 75 anos que Yeats morreu. As Comédias do Minho, em co-produção com a Assédio – Associação de Ideias Obscuras – e o Teatro Nacional São João, assinalaram a data com a estreia da peça Terra do Desejo (1894) a 16 de Janeiro, no Mosteiro de São Bento da Vitória (Porto).

Por cá celebra-se assim, com menos elegância e alguns dias de atraso, mas… que se dane. Um brinde ao Yeats.

Orgia Literária, 8-02-2014

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