Zines dos anos 80 e 90

Mas afinal o que é uma zine? Stephen Duncombe responde: “Zines are noncommercial, nonprofessional, small-circulation magazines which their creators produce, publish, and distribute by themselves”. São independentes, locais e não querem ter nada a ver com aquele “sonho” de criar uma “população fragmentária” e esmagada por objectivos de mercado “instrumentais”. Quem as cria,  quem nelas escreve, acredita conseguir redefinir o conceito de “trabalho”, pela criação de redes e comunidades, onde a liberdade é um estado de graça: “Refusing to believe the pundits and politicians who assure us that the laws of the market are synonymous with the laws of nature, the zine community is busy creating a culture whose value isn’t calculated as profit and loss on ruled ledger pages, but is assembled in the margins, using criteria like control, connection and authenticity.”

Do livro onde Duncombe escreve – Notes from the underground: zines and the politics of alternative culture(1997) – escolhemos algumas zines publicadas nos anos 80 e 90. Apercebemo-nos depois que três das cinco zines que aqui estão são de música, mas gostamos de acreditar que não vem daí grande mal ao mundo. Afinal, foram elas que nos anos 70, atreladas ao punk rock, vieram juntar-se a um movimento que surgira nos anos 30, com as zines de ficção científica, e tornar assim esta história muito mais bonita.
Show-me Blowout!
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“Unearths long-dead Missouri garage bands from the fifties and the sixties”, escreve Stephen Duncombe a respeito da Show-me Blowout!. Foi, segundo o autor do livro, um daqueles fenómenos one-man zine: Deke Dickerson, guitarrista e songwriter, que tocou em bandas garage rock como os Untamed Youth ou The Dave & Deke Combo (anos 90, “rockabilly/hillbilly”, como se assumiam), escreveu, editou e publicou os três números, que saíram, respectivamente, em 1986, 1988 e 1993.
Bad Seed/Kicks
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Publicada entre 1984 e 1985, a Bad Seed, de Miriam Linna, era uma espécie de zine de culto à “delinquência juvenil”, com um amplo campo de pesquisa que ia desde as pulp novels aos filmes série B. No editorial do 1.º número lê-se: “Hopefully we can work up some sort of network of heathen hearted youngfolk so’s to expose adolescents for the unwanted slime they are”.
Miriam Linna foi baterista dos Cramps (garage punk dos idos de 70, nos primórdios do género em Nova Iorque), dos A-Bone, e fundou com Billy Miller a Norton Records, editora independente. Os dois publicaram uma zine de música, a Kicks, com um primeiro número saído em 1979, e que hoje faria certamente muitos alfarrabistas andarem à bulha na feira da ladra para ver quem primeiro a conseguia sacar. “We don’t deal in ROCK MUSIC here at KICKS. If you’re a fan of David Bowie or Devo, take this magazine back to the store. You’ve obviously bought the wrong thing. To me, rock music means asshole Roger Daltry swingin’ a microphone around his head while leagues of stoned out squares gaze in wide-eyed ecstasy waiting for MTV or Lisa Robinson to tell ’em where they ought to take their zombie butts to next”, escrevia Billy Miller no 3.º número da Kicks, de 1984.
8-Track Mind
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8-Track Mind, uma zine de culto à stereo 8 (8-track tape), um dos primeiros formatos áudio de fita magnética, semelhante à cassete, que ficou a dever o pouco sucesso que teve (não era raro serem-lhe apontadas algumas fragilidades, como o facto de não ser possível fazer rewind) ao boom da indústria automóvel nos Estados Unidos, em meados dos anos 60. Foi criada em 1990, por Russ Forster, escritor e músico, que chegou a ter uma editora, a Underdog Records. Em relação à zine: primeiro começou com poucos colaboradores, mas depois cresceu, tornando-se naquilo que o editor desejava: “a safe place to write about an insane obsession, an intense love of what most people would consider garbage”. Anos mais tarde deu origem um documentário, o So Wrong They’re Right (realização de Forster), sobre coleccionadores “obsessivos” de stereo-8, “para os quais os anos 70 nunca morreram”. Em 2001 a 8-Track Mind deixou de ser publicada, apesar de terem saído dois números – “Zines Vs. Blogs” e “Analog Resurgence” – cerca de dez anos depois.
Duplex planet
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“I can’t believe I’m so old. I don’t feel 85, I feel about 50. That’s an old age. I would never tell anyone how to live their life, you should never advise someone of what to do. I think they should make up their own minds not to be frivolous or running here and running there”, dizia Irving Snell a David Greenberger. O testemunho foi depois publicado no n.º 153 da Duplex Planet, em 1999. A zine, de Greenberger, na altura director da Duplex Nursing Home (Boston), foi durante alguns anos uma espécie de registo das entrevistas que Greenberger fazia aos idosos que ali viviam, e que normalmente começavam com questões tão simples quanto: “Where’d you get those shoes?”.
Foram 180 números, mais tarde homenageados em livros, documentários e peças de teatro.
Dishwasher
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Pete Jordan cresceu em São Francisco, numa casa onde viviam oito pessoas e não havia máquina de lavar louça. Deixou a escola para ser “dishwasher”, pelas mesmas razões que outros o faziam: precisava de dinheiro e era um trabalho fácil de arranjar. O ofício, sabia-o de ginjeira. Estávamos em 1989. Passou por vários sítios – uma fábrica de conserva de peixe, uma estância de ski, uma escola, um hospital, uma casa de repouso – e algures entre um trabalho e outro decidiu fazer uma zine, uma espécie de diário, ou perzine (personal zine: “personal diaries open to the public; shared notes on the day-to-day, thoughts and experiences of the writer”, segundo Stephen Duncombe), coisa pequena – 25 exemplares, “só para entreter a malta e tornar o trabalho menos insuportável”, sobre as suas experiências mais ou menos quotidianas. No fim, eram já 10 mil exemplares, e Pete, uma espécie de figura de culto, que fez com que lavar pratos passasse por ser a cena mais cool de sempre. 12 anos, 33 estados, e uma catrefada de cozinhas e pratos lavados. Está tudo lá, na Dishwasher.
Orgia Literária, 22 de Fevereiro de 2014
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