Joseph Brodsky

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Joseph Brodsky foi um dos que partiu em debandada da antiga União Soviética nos inícios da década de 70 – Soljenítsin faria o mesmo, em 1974, com as cópias do seu Arquipélago Gulag a circularem clandestinamente – depois de a coisa ter azedado com Brezhnev, que, porém, naquela altura, pareceu ver finalmente algum interesse em desinfestar a casa de judeus soviéticos, na condição de os Estados Unidos retribuírem o acto de inapelável generosidade com umas quantas concessões comerciais.

Em Viena, Brodsky encontrou-se com um professor de Literatura Russa da Universidade de Michigan (EUA), Carl Proffer. Proffer sabia da imensa estima de Brodsky por W. H. Auden, o poeta anglo-americano, e decidiu proporcionar um encontro entre ambos em Kirchstetten (Áustria), onde o poeta estava de férias. Quando se encontraram, Auden perguntou-lhe para onde queria ir, mas Brodsky não fazia ideia, apesar de Israel ser à época o destino mais óbvio. Os Estados Unidos também vieram à baila – “American was like a homeland in reserve for us”, escreveria Andrey Sergeev, tradutor e amigo de Brodsky. Boston, Nova Iorque, Pittsburgo: os paraísos artificiais das comunidades de imigrantes russos. Brodsky decidiu-se pelo Michigan, onde esteve durante algum tempo como poeta residente.

Dez anos antes, em Março de 1964, Brodsky havia sido condenado pelo regime soviético a cinco anos de exílio em Norenskaya, numa pequena vila perdida nos pântanos a norte, a cerca de 500 km da antiga Leningrado, por crime de “parasitismo” (“Trial of the freeloader Brodsky” – lia-se à entrada para a sala do tribunal). O julgamento foi dividido em duas sessões, uma em Fevereiro, e outra em Março, e entre elas, uma breve estadia num hospital psiquiátrico.

Juiz: Tell the court why in between jobs you didn’t work and led a parasitic life style?

Brodsky: I worked in between jobs. I did what I do now: I wrote poems.

Juiz: You wrote your so-called poems? And what was useful about your frequent job changes?

Brodsky: I began working when I was 15 years old. Everything was interesting to me. I changed jobs because I wanted to learn more about life, about people.

Juiz: What did you do for your motherland?

Brodsky: I wrote poems. That is my work. I am convinced… I believe that what I wrote will be useful to people not only now but in future generations.

Nos Estados Unidos, Brodsky deu aulas na Universidade de Michigan, fez traduções e escreveu poemas (onde explorou, dizem, o tema da solidão e da saudade e do exílio e da saudade na solidão do exílio, e escreveu versos como “To a wanderer the faces of all islands / resemble one another” (“Odysseus to Telemachus”), que fazem lembrar a cena em que o índio Nobody, em Dead Man, diz – “I was then taken east, in a cage. I was taken to Toronto. Then Philadelphia. And then to New York. And each time I arrived at another city, somehow the white men had moved all their people there ahead of me. Each new city contained the same white people as the last, and I could not understand how a whole city of people could be moved so quickly” – ou aquele poema de Konstandinos Kavafis, “A Cidade”, que começa com – “Dizes: ‘Vou para outra terra, vou para outro mar. Noutro lugar, melhor cidade há de haver certamente.’” – e, mais à frente, – “Novo lugar não vais achar, nem achar novos mares. / Vai-te seguir esta cidade. Ruas vais percorrer, / serão as mesmas, e nos mesmos bairros hás-de viver, / nas mesmas casas ficará de neve o teu cabelo.” (publicado na Enfermaria 6, com tradução de Manuel Resende).

Brodsky não voltou à Rússia. Em 1989, escreveu o último da série de poemas dedicados a “M. B.”, Marina Basmanova (pintora, sua “velha musa”, lê-se algures), e se houve algum intento nesta nota preambular, coxa como só deus sabe, foi o de chegar aqui. O poema é de Paisagem com Inundação, publicado pela Cotovia em 2001, com tradução de Carlos Leite.

M. B.

Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.

Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro
e, a julgar pelas cartas, tornaste-te aflitivamente idiota.

Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.

Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia – de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem,
alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a
invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.

Orgia Literária, 1-02-2014

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